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O caso do cãozinho Orelha e a urgência de ensinar empatia às crianças desde cedo
Uma das histórias mais comoventes das últimas semanas é a do cachorro Orelha, um vira-latas de 10 anos, que foi brutalmente espancado e assassinado por um grupo de adolescentes brancos e socialmente privilegiados. É uma frieza, uma crueldade, uma agressividade que choca, indigna, revolta. O episódio, ocorrido em Florianópolis, expõe uma ferida profunda e faz pensar na urgência de ensinar empatia, o quanto antes, para as nossas crianças.
A forma como crianças aprendem a se relacionar com animais, colegas e pessoas em situação de vulnerabilidade não nasce do nada, mas é construída diariamente. Não basta falar. Os pequenos aprendem observando como os adultos ao redor tratam os outros, escutam as conversas, percebem as emoções e os valores.
Infelizmente, não se trata de um caso isolado. A prática da violência sem a menor consideração por outro ser vivo está enraizada na sociedade e começa cedo. Tudo isso se conecta com discussões recentes sobre os chamados grupos incel, masculinidade tóxica, os grupos misóginos que existem na internet e fora dela. Está ligado a discussões recentes levantadas pela série Adolescência, pelos casos de violência contra mulheres e feminicídio (que, infelizmente, não param de pipocar nas redes e nos noticiários), à repressão das emoções masculinas e à exaltação da agressividade como único meio de extravasar sentimentos e de se colocar em posição de superioridade.
Especialistas em desenvolvimento infantil apontam que a empatia começa a se formar ainda nos primeiros anos de vida, quando a criança aprende a reconhecer emoções, entender o impacto de suas ações e se colocar no lugar do outro.
Empatia não é instinto; é aprendizado
Sentir compaixão, respeitar limites e cuidar uns dos outros são habilidades socioemocionais que precisam ser ensinadas, nomeadas e exercitadas, com presença, com constância, com vivência no dia a dia. Quando esse aprendizado falha, seja por negligência, violência normalizada ou ausência de diálogo, o resultado pode aparecer em comportamentos agressivos, de domínio, de objetificação alheia. A relativização dos discursos de ódio, que as crianças e adolescentes observam em muitos discursos dos adultos, faz parte da equação, assim como a normalização do poder de uma classe sobre outra (seja de mulheres, por homens, de pobres por ricos, de animais por seres humanos).
Ensinar empatia vai muito além de dizer “não pode machucar”. É preciso mostrar e ajudar a criança a entender por que machuca, como o outro se sente e o que ela pode fazer diferente da próxima vez. É fundamental lembrar que o exemplo ensina mais do que qualquer discurso.
Conversas difíceis
Ignorar histórias negativas e cheias de maldade, com a do cão Orelha, não protege as crianças. Se seu filho se deparou com alguma notícia ou conversa sobre o caso, não esconda. Converse, usando, é claro, uma linguagem adequada à idade. Pode ser uma oportunidade de aprendizado e de estabelecer uma relação de confiança. Seu filho aprende que pode contar com você para ajudar a organizar emoções complexas, diante de uma realidade que, muitas vezes, é assustadora, mas, infelizmente, ainda faz parte do mundo em que vivemos.
São os diálogos que ajudam a criança a transformar indignação em consciência e consciência em atitude. Ensinar empatia desde cedo é uma forma concreta de prevenir violência no futuro, fortalecer relações mais humanas e formar cidadãos mais responsáveis e sensíveis.
Mais do que punir e, principalmente, responsabilizar, quando algo grave acontece, o ideal é agir antes, na prevenção, cultivando valores humanos, sensibilidade, respeito e compaixão.
Renata Menezes
É jornalista, entusiasta da maternidade e vive a intensidade (e as descobertas!) de ser mãe de um adolescente! Quando não está escrevendo aqui na Canguru News ou viajando com a família, você a encontrará nas quadras, recarregando as energias com suas amigas no time de handebol Master EG. Para ela, a maternidade é uma viagem constante — e ela adora compartilhar cada parada desse roteiro com nossas leitoras
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