Maior revisão sobre tempo de tela em bebês reforça: antes dos 2 anos, o ideal é evitar

Cientistas reforçam que celulares, tablets e TV oferecem poucos benefícios para bebês e podem prejudicar o desenvolvimento quando usados de forma frequente. Eles também deixam um recado importante: a culpa não é só dos pais
Bebê com celular na mão Foto: Magnific

Enquanto o almoço não fica pronto, o bebê assiste a alguns minutos de desenho no celular. Na fila do supermercado, o tablet ajuda a acalmar a criança. Na hora do cansaço, um vídeo parece resolver a situação. Essas cenas são comuns aí na sua casa?

Se você respondeu sim, saiba que não está só. A tecnologia passou a fazer parte da rotina das famílias, especialmente depois da pandemia. Mas agora uma nova revisão científica reforça um alerta importante: para bebês e crianças menores de 2 anos, o uso intencional e frequente de telas pode trazer mais riscos do que benefícios.

O trabalho, realizado por pesquisadores de quatro universidades do Reino Unido, é descrito como a revisão mais abrangente já feita sobre o uso de telas durante os primeiros 1.001 dias de vida, período que vai da gestação até os 2 anos de idade. Após analisar os estudos disponíveis sobre o tema, os autores concluíram que crianças nessa faixa etária não deveriam receber exposição regular e intencional a telas.

O estudo encontrou uma associação entre o uso frequente de telas nessa fase da vida e diferentes impactos no desenvolvimento infantil. Entre eles estão:

  • Menos oportunidades de interação e vínculo com pais e cuidadores;
  • Redução das brincadeiras e das experiências com outras crianças;
  • Atraso no desenvolvimento da linguagem;
  • Maior risco de superestimulação;
  • Dificuldades para dormir;
  • Possíveis impactos na saúde ocular;
  • Maior risco de obesidade infantil;
  • Uso das telas como estratégia para acalmar o bebê, substituindo o conforto oferecido pelos adultos.

No entanto, os pesquisadores fazem uma ressalva importante: a revisão não comprovou uma relação direta de causa e efeito entre o uso de telas e problemas específicos do desenvolvimento. O que existe hoje são evidências consistentes de associação, suficientes para recomendar cautela.

No relatório, os pesquisadores afirmam que a exposição inevitável às telas, como quando um bebê vê a televisão ligada na sala ou acompanha os pais usando o celular, faz parte da vida moderna. O problema é quando esse contato passa a ser planejado e frequente.

“Nenhuma criança menor de 2 anos deveria receber tempo de tela intencional e regular. A exposição passiva é praticamente inevitável na sociedade atual, mas acrescentar o uso deliberado aumenta os riscos sem trazer benefícios significativos”, dizem os autores, no relatório.

Um dos pontos mais interessantes da pesquisa é que ela evita responsabilizar exclusivamente as famílias. Segundo o pesquisador Rafe Clayton, da University of Leeds, muitos adultos também não receberam orientação sobre o próprio uso das telas. “Os pais, sem orientação sobre o próprio uso das telas, acabam ensinando inadvertidamente crianças e bebês a desenvolver hábitos e relações pouco saudáveis com esses dispositivos. Isso precisa mudar”, diz ele.

A professora Carmen Clayton, da Leeds Trinity University, também chama atenção para o receio que muitos pais têm de serem julgados. “O Governo precisa considerar formas de engajar melhor as famílias em relação ao uso problemático de telas, mas de forma sensível ao medo de julgamento que muitos pais encaram quando se abrem para falar sobre esses temas”, observa.

O que fazer na prática?

Em vez de apenas recomendar que as telas sejam evitadas, os pesquisadores defendem que as famílias recebam mais apoio e orientação dos profissionais de saúde. Entre as estratégias sugeridas estão:

  • Priorizar brincadeiras presenciais e interação com adultos;
  • Passar mais tempo ao ar livre;
  • Evitar telas durante as refeições;
  • Oferecer brinquedos, livros e atividades não digitais;
  • Incentivar momentos de conversa, leitura e música desde os primeiros meses de vida.

Essas recomendações estão alinhadas às orientações da Organização Mundial da Saúde e da American Academy of Pediatrics, que também recomendam evitar o uso de telas por crianças menores de 2 anos, com exceções pontuais, como videochamadas com familiares.

Criar filhos em um mundo dominado pelas telas nunca foi tão desafiador. Por isso, em vez de culpabilizar pais e mães, os autores defendem que governos, profissionais de saúde e empresas de tecnologia compartilhem essa responsabilidade.

Como resume a fundadora da 1001 Critical Days Foundation, Andrea Leadsom: “Esta revisão histórica é um alerta. As evidências indicam cada vez mais que as telas oferecem benefícios limitados para os bebês e podem representar riscos significativos durante os primeiros 1.001 dias de vida, o período mais importante do desenvolvimento humano. Os pais não devem ser culpados por um problema que eles não criaram”.

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