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Mãe, quem disse que seus sonhos acabam depois dos filhos?
Depois que a gente vira mãe, parece que o mundo espera que a nossa vida pare um pouco.
Ou muito.
É como se, automaticamente, todos os nossos sonhos, desejos, hobbies e vontades fossem colocados numa caixa escrita “depois”. Depois que os filhos crescerem. Depois que der tempo. Depois que a casa estiver organizada. Depois que sobrar energia.
E talvez seja por isso que tantas mulheres cresçam ouvindo frases como:
“Depois dos filhos nunca mais fiz isso.”
“Abri mão daquilo.”
“Parei de pensar em mim.”
Eu ouvi isso a vida inteira da minha mãe.
Ela falava das coisas que deixou para trás para cuidar de mim e das minhas três irmãs. E hoje, adulta, eu entendo que aquilo vinha de amor. De entrega. De dedicação. Mas, ao mesmo tempo, eu cresci carregando uma culpa silenciosa. Como se existir tivesse custado pedaços dela.
Quando o João Pedro nasceu, eu lembro de sentir exatamente esse medo.
Um medo quase sufocante de nunca mais conseguir ser eu.
Eu tive uma espécie de luto da mulher que existia antes da maternidade. Pensava:
“Como eu vou fazer qualquer coisa agora?”
“Como vou sair?”
“Como vou ter tempo?”
“Aquela criança depende de mim para tudo.”
E dependia mesmo.
Mas existe uma coisa sobre a maternidade que ninguém conta: aos poucos, a gente também aprende que continuar sendo quem somos faz parte do cuidado.

O João com 3 aninhos, pedindo colo depois do jogo
E uma das maiores partes de mim sempre foi o handebol.
Eu jogo desde os 7 anos. Joguei por clube, pela faculdade, pela vida inteira. O handebol nunca foi apenas um esporte para mim. Quem joga entende: é quase uma identidade. Uma paixão que mora no corpo.
Acho, inclusive, que joguei alguns dias grávida sem saber. Claro que, assim que descobri, parei imediatamente. O João Pedro já era a prioridade absoluta. Mas confesso que senti saudade da quadra antes mesmo do nascimento dele.
E então aconteceu uma cena que eu nunca vou esquecer.

Campeãs da Liga Paulista. João sempre comigo!
Menos de seis meses depois do João nascer, minhas amigas me ligaram desesperadas:
“Rê, vai ter Jogos da Cidade e, se você não for, vamos dar WO.”
Eu não pensava em performance. Nem em jogar bem porque estava afastada. Eu só queria ajudar.
Coloquei uma fralda de pano dentro do top porque ainda vazava leite, deixei o João nos braços de uma e de outra, e fui.
O macacão dele voltou para casa cheio de cola de handebol porque meu filho literalmente passou de mão em mão para eu conseguir entrar na quadra.
E, de alguma forma, aquela cena dizia tudo.
A maternidade não tinha acabado comigo.
Ela só tinha mudado a forma como eu ocupava o mundo.

João no meu colo na arquibancada
Depois daquele dia, eu praticamente nunca mais saí das quadras.
Teve treino cansada.
Teve jogo correndo.
Teve filho na arquibancada.
Teve culpa.
Teve cansaço.
Teve improviso.
Mas também teve uma felicidade difícil de explicar.
Durante anos, eu sentei na arquibancada do colégio Eduardo Gomes, em São Caetano do Sul (SP), assistindo o João jogar futebol, basquete e tênis de mesa — modalidade em que, aliás, ele arrasa.
E eu sempre pensava:
“Por que não existe handebol para as mães?”
Até que um dia existiu.
Depois de muito namoro com o colégio, nasceu um time de handebol para mães: O Master EG. E não qualquer time. A gente começou treinando com um dos maiores nomes do handebol do Brasil, o Hula, que já foi técnico da Seleção Brasileira Feminina Cadete, atuou em mundiais de clubes da Áustria e Egito, e é técnico de handebol de São Caetano do Sul. Imagine a honra!
Eu olhava aquilo quase sem acreditar.
Porque, no fundo, não era só sobre esporte.
Era sobre recuperar partes de mim que achei que tinha perdido.
Os anos passaram.
O time cresceu.
As mães foram ficando.
Porque quem ama handebol nunca abandona completamente a quadra.
Criamos um time competitivo.
Ganhamos medalhas em campeonatos regionais.
Disputamos categorias adultas e master.
Vamos jogar pela terceira vez o Brazil Master Cup, o principal campeonato master de handebol do país.
E agora vem a parte que parece mentira até para mim:
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Um post compartilhado por Masters Handball World Cup (@masters_handball_world_cup)
Nós vamos para a Croácia disputar o Campeonato Mundial de Clubes Master.
Sim. A Croácia.
Vamos jogar contra times da Hungria, Romênia, Espanha, Polônia, Itália, Ucrânia… no berço do handebol europeu.
E sabe o mais bonito disso tudo?
Somos mães.
Mães que trabalham.
Mães cansadas.
Mães que fazem lancheira.
Mães que resolvem boletos.
Mães que vivem exaustas.
Mas mães que também decidiram não desistir de si mesmas.
Tem treino com criança dormindo em colchonete na arquibancada.
Tem mãe que leva brinquedo.
Tem mãe que reveza filho.
Tem improviso o tempo inteiro.
Porque muitas vezes não temos rede de apoio.
Mas temos umas às outras.
E talvez essa seja a grande revolução: os filhos não precisam crescer vendo mães anuladas.
Eles também podem crescer vendo mulheres vivas.
Apaixonadas.
Presentes.
Felizes.
Realizando sonhos.
Por muito tempo venderam para a gente a ideia de que maternidade e realização pessoal não cabiam na mesma frase.
Mas cabem.
E talvez uma das coisas mais bonitas que possamos ensinar aos nossos filhos seja justamente isso: que amor não precisa significar desaparecimento.
Então, se você precisava de um sinal, talvez seja esse.
Não abandone seus sonhos. Não abandone quem você era antes da maternidade. Você ainda existe aí dentro.
E seus filhos merecem conhecer essa versão também.

Atuando com as mães do Master EG
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Renata Menezes
É jornalista, entusiasta da maternidade e vive a intensidade (e as descobertas!) de ser mãe de um adolescente! Quando não está escrevendo aqui na Canguru News ou viajando com a família, você a encontrará nas quadras, recarregando as energias com suas amigas no time de handebol Master EG. Para ela, a maternidade é uma viagem constante — e ela adora compartilhar cada parada desse roteiro com nossas leitoras
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