Ser Mãe: Entre o sonho, a realidade e a sororidade

Ser mãe é o ato mais corajoso que existe. Mas precisamos parar de romantizá-lo
Uma mãe branca e uma mãe preta não carregam os mesmos medos Foto: Magnific

Ser mãe é um trabalho. Um trabalho diário, contínuo, sem horário fixo, sem férias e, na maioria das vezes, sem reconhecimento suficiente. É uma função exercida todos os dias do ano, todas as horas do dia — e ainda assim, quando a sociedade fala sobre maternidade, o que se vê com mais frequência é uma narrativa de leveza, de instinto natural, de amor incondicional que torna tudo fácil.
Mas a realidade de muitas mães conta uma história diferente. E é sobre essa história que precisamos ter a coragem de falar.

A romantização que aprisiona
A romantização da maternidade cria uma armadilha silenciosa. Ela constrói uma imagem idealizada de que toda mulher sonhou em ser mãe, que toda mãe amamentou com facilidade e alegria, que toda gestação foi planejada e desejada, que todo processo de maternagem é naturalmente prazeroso.
Mas só que não. E está tudo bem se não for assim.
Tem mulher que não sonhou em ser mãe. Tem mãe que não conseguiu amamentar — ou que não quis. Tem mulher que ama profundamente o seu filho, mas que encontrou no processo da maternidade uma das experiências mais difíceis de sua vida. Essas mulheres existem. Essas vivências são legítimas. E silenciá-las em nome de um ideal romantizado é uma forma de violência.
Respeitar a mulher que está no lugar de mãe é, antes de tudo, deixar de exigir que ela encarne um arquétipo que nunca foi real para todas.

Todas as configurações de mãe
Tem as mães que gestaram. Tem as mães que adotaram — e que carregam dentro de si um amor tão imenso, tão guardado, que quando encontra um lugar para pousar, simplesmente transborda. Tem as avós que criaram, as tias que ficaram, as mulheres que escolheram ficar.
Tem também as que sonharam em ser mãe e ainda estão esperando. As que tentaram e não conseguiram. As que perderam no caminho. Todas essas histórias merecem espaço, cuidado e escuta.
O que importa não é o caminho que levou ao lugar de mãe. O que importa é que respeitemos todas essas configurações de família, de maternidade, de amor.

A sonoridade que cada mãe precisa ter
Há um ponto que eu, Tatiane Santos, preciso trazer com clareza: todas as mulheres precisam ter voz e sonoridade neste cargo de mãe. Mas essa voz não é igual para todas — e essa diferença precisa ser nomeada. Eu sou mãe de dois meninos pretos. E isso sempre me atravessou. De formas diversas, em camadas que às vezes é difícil até de nomear. Foi esse atravessamento que me trouxe até aqui — até a minha militância, até o meu trabalho diário de entrar nas escolas e falar sobre educação antirracista.
Uma mãe branca e uma mãe preta não carregam os mesmos medos. Isso não é julgamento — é realidade. E precisamos ter a honestidade de dizê-lo. A mãe preta, muitas vezes, precisa dizer coisas aos seus filhos que lhe cortam o coração.

Eu precisei pedir aos meus filhos que saíssem de casa com a identidade no bolso. Precisei sentar com eles e explicar que o que aconteceu foi racismo, sim. Que infelizmente pode acontecer de novo. E que a culpa não é deles — nunca foi, nunca será.
O medo que sinto quando eles saem e demoram a voltar é o medo que toda mãe conhece. Mas o meu medo tem um peso a mais. Porque no nosso país, ser menino preto ainda é uma vulnerabilidade. E esse temor, que não deveria existir, existe — e aumenta a cada dia.

Sororidade: o que nos conecta
Não estou dizendo que a dor de uma mãe vale mais do que a de outra. Estou dizendo que existem camadas de dificuldade que são específicas, que não são universais — e que a sororidade começa quando a gente se dispõe a enxergar essas camadas com empatia, não com distância.
A criança branca que aprende, dentro de casa, a olhar para a criança preta com equidade e amizade — ela aprende isso porque alguém ensinou. Porque uma mãe, um pai, uma família escolheu ensinar.
Quando essa educação vem das duas famílias — ela transforma. Transforma as crianças, transforma as relações, transforma o futuro.
Que a sororidade entre mães de diferentes etnias, de diferentes histórias, possa nos conectar naquilo que nos é comum — e nos fazer ver, com respeito e cuidado, aquilo que é único de cada uma.

E você?
Eu te faço uma pergunta, leitora, leitor: como é o seu olhar, dentro da sua família, para essas práticas étnico-raciais? Você já conversou com o seu filho sobre racismo? Sobre diferença? Sobre respeito?
Essas conversas são necessárias. Sempre foram. E nunca é cedo demais para começar.

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Tatiane Santos

É pedagoga, especialista em educação antirracista e consultora em formação de educadores. Conhecida como Pretinha Educadora, atua como coordenadora pedagógica na rede pública de São Paulo e desenvolve projetos voltados à equidade racial na primeira infância. Coautora do livro infantil Super Black – O poder da representatividade, e autora do livro o Sonho de Dandara

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