Leite fraco existe? Chocolate faz mal? 10 mitos e verdades sobre a amamentação

O aleitamento materno ainda gera muitas dúvidas entre as mães. Afinal, o que pode, o que não é recomendado, o que é normal e quais são os sinais de alerta? Especialista esclarece algumas das principais questões
Semana Mundial da Amamentação Foto: Magnific

Agosto Dourado. Assim ficou conhecida a campanha anual de conscientização sobre a importância do aleitamento materno no Brasil. O nome é poético e reforça uma informação importante: o leite materno é um alimento que vale ouro mesmo.

Inúmeros estudos comprovam os benefícios da amamentação, a curto e longo prazo, tanto para o bebê, como para a mãe. Além de fornecer todos os nutrientes de que a criança precisa, ajuda a fortalecer o sistema imunológico, reduz o risco de infecções e favorece o vínculo. Isso para citar apenas alguns.

Os números mostram que o Brasil avançou nessa área. Segundo o Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil (Enani), 45,8% dos bebês brasileiros menores de 6 meses recebem aleitamento materno exclusivo. Em 2006, esse índice era de 37,1%, e há cerca de quatro décadas, de apenas 4,7%. Apesar do progresso, ainda há desafios. Apenas 35,5% das crianças continuam sendo amamentadas até os 2 anos, percentual abaixo da meta de 60% estabelecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

Mesmo sendo um processo natural, amamentar nem sempre é simples. Dor, insegurança, cansaço e informações desencontradas fazem parte da realidade de muitas famílias. Aqui, Juliana Lima, coordenadora de Enfermagem do Hospital Pasteur, da Rede Total Care, tira algumas das principais dúvidas sobre o assunto:

  1. Existe leite fraco?

Mito. Esse é um dos mitos mais persistentes sobre a amamentação. Segundo Juliana, o leite materno começa a ser produzido ainda durante a gestação e é perfeitamente adaptado às necessidades de cada bebê. A composição muda ao longo da mamada e também acompanha o crescimento da criança. Quando o bebê parece não ficar satisfeito, geralmente o problema está relacionado à pega inadequada, ao posicionamento ou à frequência das mamadas — e não à qualidade do leite.

  1. É normal sentir tristeza ou ansiedade durante a amamentação?

Verdade. Nem toda mulher sente apenas prazer ao amamentar. Algumas apresentam uma condição chamada disforia da ejeção do leite, caracterizada por uma sensação repentina de tristeza, angústia, irritação ou ansiedade que surge pouco antes da descida do leite. Segundo a especialista, esse desconforto costuma durar apenas alguns minutos e desaparece espontaneamente. Se os sintomas forem intensos ou persistentes, é importante buscar ajuda profissional.

  1. Beber mais água aumenta a produção de leite?

Mito. Manter-se hidratada é importante para a saúde da mulher, mas beber água além da sede não faz o organismo produzir mais leite. O principal estímulo para a produção continua sendo a sucção frequente do bebê.

  1. Chocolate faz mal para quem está amamentando?

Mito. O chocolate pode fazer parte da alimentação da mãe, desde que consumido com moderação. Só há indicação de restrição quando existe orientação médica específica, como nos casos em que o bebê apresenta alguma reação relacionada à alimentação materna.

  1. Cerveja preta aumenta a produção de leite?

Mito. Essa crença é antiga, mas não encontra respaldo na ciência. Juliana lembra que não há evidências de que a cerveja preta aumente a produção de leite. Pelo contrário: o álcool passa para o leite materno e ainda pode dificultar a ejeção do leite. Por isso, o consumo de bebidas alcoólicas deve ser evitado durante a amamentação.

  1. Quem colocou silicone não pode amamentar?

Mito. Na maioria dos casos, a prótese de silicone não impede a amamentação. O sucesso depende muito mais da técnica utilizada na cirurgia e da preservação dos ductos mamários e dos nervos da mama do que da presença do implante em si.

  1. Remédios para ansiedade ou depressão obrigam a interromper a amamentação?

Mito. Nem sempre. Existem medicamentos compatíveis com o aleitamento materno. O mais importante é nunca interromper o tratamento por conta própria. A decisão deve ser tomada em conjunto com o médico, considerando os benefícios da medicação e da amamentação.

  1. O leite materno ajuda a cicatrizar rachaduras nos mamilos?

Verdade. O leite contém substâncias que podem favorecer a cicatrização e, em alguns casos, pode ser aplicado sobre os mamilos após as mamadas. No entanto, o mais importante é descobrir a causa das rachaduras — geralmente uma pega inadequada ou um posicionamento incorreto do bebê.

  1. Amamentar sempre dói?

Mito. Nos primeiros dias, uma leve sensibilidade pode acontecer enquanto as mamas se adaptam. Mas dor intensa, rachaduras persistentes ou sangramento não são considerados normais. Quando a pega está correta, a tendência é que a amamentação seja confortável. Caso a dor permaneça, é importante procurar orientação o quanto antes.

  1. Amamentar ajuda a prevenir câncer de mama e de ovário?

Verdade. Além dos benefícios para o bebê, a amamentação também protege a saúde da mulher. Durante a lactação, ocorre redução da exposição aos hormônios estrogênio e progesterona, além da renovação natural das células mamárias, fatores associados à diminuição do risco de câncer de mama e de ovário.

Informação e acolhimento fazem toda a diferença

Apesar de ser um processo fisiológico, a amamentação é aprendida. Contar com orientação de profissionais de saúde e com uma rede de apoio acolhedora pode fazer toda a diferença para superar os desafios dos primeiros dias. O Hospital Pasteur, no Rio de Janeiro, oferece um curso gratuito para gestantes. Desde 2020, mais de 2 mil mulheres participaram da iniciativa, que oferece palestras com obstetras, pediatras, nutricionistas e enfermeiras sobre amamentação, parto, puerpério e cuidados com o recém-nascido. A participação é aberta à comunidade, independentemente de possuir plano de saúde, e as inscrições podem ser feitas pelo e-mail: cursogestantepasteur@amil.com.br.

Fontes: Juliana Lima, coordenadora de Enfermagem do Hospital Pasteur (Rede Total Care), e dados do Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil (Enani) e da Organização Mundial da Saúde (OMS).

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