‘Para criar esta geração, estamos triturando as mulheres’, diz Vera Iaconelli

Em conversa com a Canguru News e artigo para a Folha de S. Paulo, Vera Iaconelli, psicanalista e diretora do Instituto Gerar, fala da dificuldade de governos e sociedade tratarem de forma correta o desafio da criação das gerações futuras

A psicanalista Vera Iaconelli (foto) fala da dificuldade de governos e sociedade investirem de forma adequada nas campanhas pela primeira infância.
As mulheres têm sido erroneamente consideradas responsáveis sozinhas pela nova geração, diz Vera | Foto: Renato Parada

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­­­”Se quisermos priorizar a infância, temos de proteger as famílias ­– que na atualidade se concentram em mães vulneráveis”. A frase é da doutora em psicologia Vera Iaconelli, no artigo “Campanhas pela infância erram” para a Folha de S. Paulo, publicado em 20 de outubro. No artigo ela afirma que todas as campanhas pela primeira infância são fundamentais e bem-vindas, mas que elas erram ao contornar o principal problema: a infância não é uma questão só das mães, mas de todos: empresas, Estado e sociedade civil.

“Para criar esta geração, estamos triturando as mulheres”, diz Vera na conversa com a Canguru News, ressaltando que “elas têm sido erroneamente consideradas responsáveis sozinhas pela nova geração”, como escreveu na Folha. É um problema que vem de séculos, lembra, mas que veio ganhando novas dimensões quanto mais responsabilidades elas vieram assumindo na sociedade. Como a chefia de praticamente metade dos lares brasileiros (48,2%, segundo dado de 2019 do Ipea). Por isso ela vê como fundamental a mudança de consciência da sociedade e a adoção de políticas públicas voltadas às mães para que a tritura seja diminuída.

“Mulheres são o fim da cadeia alimentar social – são destituídas do poder familiar, agredidas, estupradas e assassinadas diariamente. Cuidar da infância é cuidar delas e de seus companheiros, quando houver. Estamos longe de fazer isso”, escreve Vera.


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“Mulheres são o fim da cadeia alimentar social – são destituídas do poder familiar, agredidas, estupradas e assassinadas diariamente. Cuidar da infância é cuidar delas e de seus companheiros, quando houver. Estamos longe de fazer isso”, escreveu. Vera já chamava a atenção para o problema em sua participação no documentário de 2016 “O Começo da Vida”, de Estela Renner. Nele o Nobel de Economia James Heckman mostra seu argumento de que o retorno de investimento na primeira infância é 7 vezes maior do que em qualquer outra época da vida de uma pessoa, dado que recentemente vem sendo contestado por alguns economistas pela grandeza do dado, mas não por sua lógica. O dado da importância econômica na atenção à primeira infância é “nada mal como justificativa para um mundo que pouco se interessa pela humanidade, mas não tira os olhos do lucro”, lembra Vera, ruiva à época do documentário.

Por isso, embora veja com bons olhos campanhas que miram a atenção à primeira infância, como renda mínima, atenção a gestantes, caixa de papelão finlandesa, etc, – “o prato de comida é essencial para quem tem fome” –, para ela há dois eixos macros fundamentais para criar uma conscientização geral e perene. São eles: 1) a economia do cuidado, que passa por licenças para os pais cuidarem dos bebês, creches boas para todas as crianças e salários equalizados entre os gêneros; e 2) o amor às crianças dividido entre pais, famílias e sociedade. Numa mudança de mentalidade que tire da mãe toda a responsabilidade.

  A epidemia pode ajudar no despertar da consciência do cuidado com a primeira infância, avalia a psicanalista.


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Ela vê na recente epidemia uma ajuda no despertar da consciência do cuidado com a primeira infância. O que pode ajudar a realidade do que descreve no seu mais recente livro, “Criar filhos no século XXI”. Mas Vera acredita que o importante é continuar lutando por uma consciência coletiva. Caminhos, mirando a famosa frase do marqueteiro do ex-presidente Bill Clinton: “É a economia, estúpido”. Estariam nestas ações o selo de qualidade para empresas amigas da nova geração, pressão da sociedade sobre políticas públicas efetivas para a primeira infância e, mais que tudo, a mudança na consciência do papel das mães na formação do futuro da humanidade. “Temos de quebrar o paradigma da mulher/mãe”. Para ela, a criação do futuro depende de todos, ou continuaremos “triturando as mulheres”. Embora os dados da “economia, estúpido”, pareçam ser irrefutáveis, o desafio é superar as visões de curto prazo que cada vez parecem mais e mais mover governos e empresas. A Canguru News, cujo lema é “Filhos melhores para o mundo”, acredita, como Vera, que essa conscientização é trabalhosa, mas possível. 


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Roberto Gazzi
Jornalista com mais de 30 anos de carreira, a maior parte dela construída no jornal O Estado de S. Paulo, onde chegou a diretor de redação e de desenvolvimento editorial. Tem também passagens pela Folha de São Paulo e pelo jornal Correio, da Bahia. Co-fundador e publisher da Canguru News, hoje atua como consultor de mídia para veículos diversos, como o Diário de Pernambuco. Pai do Eric e avô-coruja do Emmanuel, nascido em 2019.

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