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Estresse tóxico e estresse positivo: como eles afetam os pequenos
O ser humano, como espécie, evoluiu durante milhares de anos na escassez. Por muito tempo, mas não há muito tempo, nossos ancestrais estavam mais preocupados em sobreviver às adversidades do meio do que em aproveitar o seu breve momento de vida no planeta Terra.
Ao longo desse período, desenvolvemos mecanismos biológicos de adaptação ao estresse que preparavam nosso corpo para as reações de luta e de fuga que nos salvaram de muitos perigos e nos permitiram chegar até esse momento da história.
Mas o que acontece se esse estímulo estressor persiste por períodos prolongados?
Escutamos muito sobre como a pandemia do novo coronavírus afetou a rotina de milhares de famílias. As crianças, como parte e resultado do meio em que vivem, também foram muito impactadas. Já escutou o termo estresse tóxico?
No seu “Manual para a Prevenção de Estresse Tóxico na Infância”, a Sociedade Brasileira de Pediatria define como tóxico um estresse elevado e contínuo, que pode gerar danos irreversíveis ao desenvolvimento neuropsicomotor da criança, além de aumentar os riscos para doenças crônicas.
No estresse tóxico, a criança é submetida a um nível de estresse superior à sua capacidade de autorregulação, por um período demasiadamente longo de tempo, levando a alterações na sua arquitetura cerebral e na qualidade das conexões desenvolvidas. Esta situação também contribui para alterações no material genético das células que levam ao aparecimento de doenças como hipertensão, diabetes, doenças pulmonares, e do coração, acidentes vasculares cerebrais (AVCs) e doenças autoimunes, bem como doenças psiquiátricas e comportamentais.
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Cenários óbvios em que o estresse tóxico pode ocorrer incluem a presença de violência cotidiana, maus-tratos e abusos. Cenários que, infelizmente, aumentaram muito sua incidência durante a quarentena. Mas, mesmo em um cenário menos extremo, algumas crianças experimentaram durante esse período um isolamento social intenso, ausência de rotina, exposição excessiva a tecnologias, alimentação desregrada, pouco contato com a natureza, baixo nível de atividade física e pouca exposição ao sol.
Completamos um ano desde que o novo vírus foi detectado na China. É extremamente necessário fazer um balanço de como está o ambiente familiar e a saúde das crianças. O estresse ao qual elas estão submetidas tem sido gerenciado de maneira adequada? Deixar passar alterações de comportamento, apetite, ganho ou perda de peso excessivos, atraso na vacinação – dentre tantas outras alterações que têm sido descritas – é negligenciar a saúde global de um ser em desenvolvimento e isso pode acarretar danos irreversíveis em uma geração inteira.
No contraponto, vale lembrar que nem todo estresse é tóxico. Como disse no começo, evoluímos para tolerar pequenos períodos de estresse. Na literatura, até é chamado de estresse positivo aquele de baixa intensidade e limitado a curtos períodos. Exemplos dessas situações: os famosos ataques de birra, o início ou mudança de escola, vacinas e frustrações cotidianas. Como destaca a Sociedade Brasileira de Pediatria, “todas essas são boas experiências para que os pais possam ensinar limites aos seus filhos com afeto, diálogo e respeito para a formação de uma personalidade sólida a longo prazo. Esse tipo de estresse é positivo porque resulta em habilidades de planejamento, motivação e resiliência, além de propiciar a estimulação de sinapses neuronais”.
É na infância que plantamos as sementes de adultos capazes, resilientes e globalmente saudáveis.
Por mais que nossas vidas ainda estejam bagunçadas, é interessante pensar que talvez elas nunca voltem ao que eram antes e é verdade o que diz Pam Leo, coach parental norte-americana, que defende a conexão amorosa entre pais e filhos: “Ou gastamos tempo satisfazendo as necessidades emocionais das crianças, preenchendo-as de amor ou gastamos tempo lidando com os comportamentos causados pelas suas necessidades não atendidas. De um jeito ou de outro, gastamos tempo.”
Desejamos que essa próxima geração seja mais longeva que a nossa, mas queremos longevidade com qualidade. É na infância que plantamos as sementes de adultos capazes, resilientes e globalmente saudáveis. O pediatra tem papel crucial na determinação de orientações adequadas para o desenvolvimento normal das crianças e para a prevenção, detecção precoce e tratamento adequado do estresse tóxico.
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Talita Lodi Holtel
Talita Lode Holtel é mãe de Paola e Helena. Pediatra e hebiatra formada pela Unifesp, é especialista em gestão em saúde e coordenadora do Pronto Atendimento Infantil e da Unidade de Internação Pediátrica do Hospital Sepaco (SP), além de Supervisora do Programa de Residência Médica.
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