Cinema: por que você PRECISA assistir “O Convite”

Mais do que um filme sobre casamento, o longa dirigido por Olivia Wilde faz um retrato honesto das relações de longa duração, das frustrações acumuladas em silêncio e da difícil tarefa de continuar escolhendo um ao outro e, o mais importante, a si mesmo
Filme: O convite Foto: Instagram

Há algumas semanas, vinha me deparando com publicações sobre o filme “O convite” (The invite), dirigido por Olivia Wilde, em cartaz nos cinemas. Aproveitei uma brecha, enquanto as crianças não estavam em casa, e fui conferir, com a expectativa lá em cima. E saí de lá com a sensação de que ela foi completamente atendida. Então, aqui estou, endossando o coro: pegue sua pipoca e assista, sem medo de se decepcionar.

Logo no início, a frase de Oscar Wilde que aparece na telona já causa um baque em quem, como eu, vive relacionamentos longos. “Devemos estar sempre apaixonados. Essa é a razão pela qual nunca deveríamos nos casar”.

Então, somos apresentados ao casal Angela (interpretada pela própria Olivia Wilde) e Joe (Seth Rogen), que vivem sempre irritados um com o outro. Eles simplesmente não conseguem conviver sem que qualquer mínimo acontecimento escale para uma discussão repleta de ressentimento.

Joe, professor de música em um conservatório, chega do trabalho cansado e descobre que Angela convidou os barulhentos vizinhos de cima para jantar. Ela é fascinada por Piña (Penelope Cruz) e Hawk (Edward Norton), o casal que mora no andar de cima, sobretudo por conta dos barulhos intensos que vazam nas madrugadas, evidenciando uma vida sexual muito animada. Já Joe fica revoltado e extremamente irritado. Quando vê que não será possível cancelar o encontro, só torce para que acabe logo.

À primeira vista, parece um filme simples. Quase toda a trama acontece dentro de um único apartamento. Mas aquele espaço está longe de ser apenas um cenário. O imóvel se transforma em um quinto personagem: revela, esconde, aprisiona e acolhe. Cada cômodo carrega marcas emocionais e encurrala os personagens, impedindo que fujam de situações difíceis ou constrangedoras.

A história acompanha um casal que, em muitos momentos, parece incapaz de suportar a presença um do outro. As conversas são atravessadas por ironias, ressentimentos e pequenas agressões cotidianas. A impressão inicial é inevitável: por que eles continuam juntos?

Mas, enquanto arranca risadas e transiciona de uma comédia para o drama com maestria, o roteiro impede julgamentos fáceis.

Relacionamentos longos quase nunca terminam por um único motivo. Eles vão “secando” devagar. Pequenas frustrações nunca ditas se acumulam, a identidade de cada um vai sendo apagada, os desejos deixam de ser compartilhados e a curiosidade pelo outro desaparece, junto com a admiração e a alegria de viver.

A história que estava na tela do cinema também reflete a realidade de muita gente. Afinal, por que será que é tão difícil sair de uma relação infeliz?

Pode ser medo da mudança? Medo da solidão? Medo do desconhecido? Em alguns casos, a “desculpa” recai sobre os filhos. Será que permanecer junto é mais confortável do que enfrentar a responsabilidade de reconstruir a própria vida?

Enquanto existe alguém ao lado, sempre há um culpado para tudo o que não aconteceu. O casamento vira o lugar onde depositamos nossos fracassos, nossos sonhos interrompidos e todas as versões da vida que imaginávamos ter.

Uma separação exige olhar para si, entender o que ficou e se responsabilizar pelas próprias decisões, uma tarefa que pode ser desafiadora e ter um gosto amargo.

É impossível não se reconhecer em alguma cena. Quem nunca deixou um sonho para depois? Quem nunca culpou as circunstâncias, o trabalho ou o parceiro pela vida que acabou levando? Quem nunca sentiu que perdeu um pouco de si dentro da rotina?

Outro aspecto bonito do filme é a chegada de pessoas “de fora”. A convivência com outro casal funciona como um espelho. De início, parece que eles vivem um relacionamento muito mais leve, divertido e apaixonado, mas eles também carregam dores, inseguranças e traumas. Também enfrentam crises. A verdade é que não existe casamento perfeito.

O encontro e o “convite” ampliam o horizonte dos protagonistas. Eles passam a enxergar que existem outras maneiras de viver, de amar, de ocupar a própria casa e a própria vida.

Para mim, ficou a reflexão de que um relacionamento não morre apenas quando acaba o amor, mas quando a curiosidade vai embora, quando deixamos de fazer perguntas, de nos interessar, de falar, de querer conhecer quem está ao nosso lado. Ainda que você esteja há muitos anos com a mesma pessoa, ninguém permanece o mesmo. A pessoa muda diversas vezes ao longo da jornada e você também. É preciso uma vontade mútua de fazer com que esses caminhos se encontrem novamente. Nenhum casal sobrevive apenas do passado, do primeiro beijo ou do romance inicial.

Para cultivar a própria alegria de viver e o seu propósito, é fundamental lembrar de seguir existindo como indivíduo, cultivando paixões, amizades, interesses e sonhos próprios. Mas também precisa manter vivo o interesse genuíno pelo universo do outro. A relação deixa de ser um espaço de descoberta quando tudo vira obrigação.

É também um lembrete da responsabilidade de enfrentar os próprios traumas e nossos desejos, em vez de escondê-los atrás do ressentimento. É sobre entender que a felicidade não pode ser terceirizada para a outra pessoa.

Acho que o filme vai continuar ecoando em mim por vários dias, não por trazer respostas, mas por nos incitar a olhar para as perguntas que evitamos fazer para nós mesmos, dentro das nossas próprias relações.

Quando foi a última vez que você descobriu algo novo sobre a pessoa que divide a vida com você?

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