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Cérebro de mãe muda durante a gravidez?
Esquecer onde deixou o celular, entrar em um cômodo e não lembrar o que foi buscar ou ter dificuldade para se concentrar em uma tarefa… Quem nunca? Mas, durante a gravidez e ao longo dos primeiros meses com um bebê, essas experiências podem ganhar outro significado.
A expressão mommy brain, normalmente traduzida como “cérebro de mãe”, é usada para descrever esquecimentos, distrações e outras alterações cognitivas percebidas por algumas mulheres durante a gestação e o pós-parto. A ciência tem investigado esse fenômeno, que é mais complexo do que parece.
Pesquisas mostram que a gravidez está associada a mudanças estruturais no cérebro, possivelmente relacionadas à adaptação a essa nova fase da vida. Uma revisão publicada em janeiro de 2025 na revista BMC Pregnancy and Childbirth, que reuniu 31 estudos com 1.596 gestantes e 1.450 mulheres não grávidas, encontrou evidências de alterações modestas em aspectos como memória verbal e atenção. Os resultados, no entanto, variam entre os estudos, e ainda existem dúvidas sobre a intensidade e as consequências dessas mudanças no cotidiano. A discussão voltou a ganhar destaque em outubro de 2026, com uma publicação da News-Medical sobre as transformações neurológicas associadas à gravidez e o trabalho da neurocientista Susana Carmona, pesquisadora do cérebro materno.
De fato, os trabalhos mostram que a gestação provoca transformações importantes no organismo. Além das alterações hormonais, o sistema imunológico, o metabolismo e diferentes estruturas cerebrais passam por mudanças que ajudam o corpo a se adaptar à gravidez e à chegada do bebê. Um estudo publicado em setembro de 2024 na revista Nature Neuroscience, por exemplo, acompanhou uma mulher antes, durante e por dois anos após a primeira gestação. Ao longo do período, os pesquisadores realizaram 26 exames de ressonância magnética e observaram alterações em diversas regiões do cérebro, incluindo redução do volume de substância cinzenta e mudanças na microestrutura da substância branca.
A substância cinzenta contém corpos celulares de neurônios e participa de diferentes funções cerebrais. Já a substância branca é formada principalmente por fibras nervosas que permitem a comunicação entre regiões do cérebro. Os resultados mostraram que essas estruturas não permanecem estáticas durante a gravidez. As mudanças acompanharam a evolução da gestação e, em algumas regiões, persistiram depois do parto. O estudo, entretanto, acompanhou apenas uma participante, o que limita a possibilidade de generalizar os resultados para todas as mulheres.
Em outro estudo, publicado em 2023 e com resultados divulgados em 2024, pesquisadores analisaram dados de neuroimagem de 110 mulheres grávidas pela primeira vez e de 34 mulheres que não estavam grávidas. Também foram observadas diferenças em redes cerebrais durante a gestação e no período inicial após o parto.
Essas pesquisas ajudam a compreender a gravidez como uma fase de neuroplasticidade — a capacidade de o cérebro modificar sua estrutura e seu funcionamento em resposta a mudanças biológicas e experiências.
Afinal, a gravidez prejudica a memória?
A resposta é mais complexa do que um simples sim ou não. A revisão publicada em 2025 encontrou evidências de alterações modestas em determinados aspectos da cognição, especialmente na memória verbal. Alguns estudos também identificaram mudanças que persistiram durante parte do período pós-parto. Ao mesmo tempo, os resultados variaram conforme o método utilizado, a fase da gestação e o tipo de tarefa avaliada.
Isso significa que uma mulher pode perceber mais esquecimentos ou dificuldade para se concentrar sem que isso represente uma perda generalizada das capacidades cognitivas. Além disso, nem toda dificuldade de memória durante a maternidade pode ser atribuída diretamente às mudanças neurológicas da gravidez. A qualidade do sono, o cansaço, o estresse e a quantidade de demandas que precisam ser administradas também podem interferir na atenção e na capacidade de recordar informações. Uma mãe que dorme pouco, interrompe várias tarefas ao longo do dia e precisa se lembrar dos compromissos de toda a família pode ter dificuldade para se concentrar mesmo sem apresentar um problema neurológico.
Por isso, é importante evitar dois extremos: tratar qualquer esquecimento como sinal de que há algo errado com a mulher ou atribuir todos os sintomas à maternidade, deixando de investigar outras possíveis causas.
O cérebro também se adapta à experiência de cuidar de um bebê
Além da memória, algumas pesquisas identificaram alterações em regiões envolvidas no processamento de informações sociais e na compreensão de outras pessoas. Uma das hipóteses é que parte dessas mudanças esteja relacionada à adaptação às demandas da parentalidade.
O cérebro não determina sozinho a qualidade do vínculo, já que a relação com o bebê também depende de experiências individuais, condições emocionais, apoio social, saúde e contexto de vida. A maternidade é uma transição que envolve dimensões biológicas, psicológicas e sociais. Conhecer as mudanças cerebrais pode ajudar a compreender parte dessa experiência, mas não explica tudo o que uma mulher sente ou vive durante a gestação e depois do nascimento.
Como diferenciar os esquecimentos comuns de sinais que merecem atenção?
Esquecer um compromisso ocasionalmente ou ter dificuldade para se concentrar depois de uma noite mal dormida não significa, necessariamente, que exista um problema de saúde. Ainda assim, sintomas persistentes ou que prejudicam a rotina merecem ser discutidos com um profissional.
Vale procurar avaliação quando as dificuldades cognitivas são intensas, pioram progressivamente ou vêm acompanhadas de outros sintomas, como confusão, alterações importantes de humor ou dificuldade para realizar atividades habituais.
Ansiedade e depressão durante a gestação e o pós-parto também podem afetar a concentração, a memória e a percepção que a mulher tem de si mesma. Por isso, não presuma que esses sintomas sejam apenas parte natural da maternidade.
Além disso, se houver confusão mental súbita, dificuldade para falar, fraqueza de um lado do corpo ou dor de cabeça intensa e repentina, é necessário procurar atendimento de emergência.
A expressão mommy brain ajuda algumas mulheres a reconhecer experiências que compartilham com outras mães, mas também corre o risco de transformar dificuldades reais em uma piada ou em mais um motivo de cobrança. Você não é menos competente porque esqueceu algo importante. Também é importante reconhecer que o sono, o cansaço e o excesso de responsabilidades afetam o funcionamento cotidiano, sem atribuir tudo aos hormônios.
As pesquisas já demonstram que a gravidez está associada a mudanças neurológicas importantes, mas ainda há muito a descobrir sobre as diferenças individuais, as consequências cognitivas e o papel dessas transformações na adaptação à maternidade. Enquanto a ciência avança, um ponto é certo: a mãe também precisa de condições para descansar, receber apoio e cuidar da própria saúde.
Canguru News
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