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Automutilação na adolescência: acolha seu filho sem julgamento
“A autolesão é um sinal de socorro. Seu filho não está errado, ele está sofrendo e necessitando de ajuda”. O alerta é da consultora educacional e educadora parental Luciana Loureiro sobre um tema que ainda assusta muitas famílias: a automutilação na adolescência. Dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSe) 2024, do IBGE, mostram que cerca de 100 mil estudantes brasileiros praticaram alguma lesão autoprovocada nos 12 meses anteriores à pesquisa. Diante de um número tão gritante, não dá para fingir que nada está acontecendo. É um assunto difícil, sim, mas ele precisa ser falado e conhecido, sobretudo por quem convive e cuida desses jovens.
Encontrar cortes, marcas ou queimaduras no corpo do filho costuma provocar choque, medo e desespero nos pais. Mas é importante lembrar que a forma como os adultos reagem nesse primeiro momento pode fazer diferença no pedido de ajuda – ou aumentar ainda mais o isolamento do adolescente. “A autolesão é um dos temas mais difíceis de abordar. E também um dos mais urgentes”, afirma Luciana.
Segundo ela, a autolesão acontece quando a pessoa se machuca intencionalmente, com cortes, arranhões, queimaduras ou outros meios, sem intenção de morrer. Por isso, é diferente de uma tentativa de suicídio, mas é um importante sinal de sofrimento emocional e precisa de atenção imediata.
Muitas famílias interpretam o comportamento como tentativa de chamar atenção. Mas, segundo a educadora parental, essa visão pode impedir que o adolescente receba o acolhimento necessário. “É uma tentativa de aliviar uma dor emocional insuportável que ele não sabe como expressar de outra forma”, explica. “A dor no corpo, para muitos adolescentes, parece mais controlável do que a dor por dentro”, acrescenta.
A adolescência é marcada por intensas transformações emocionais, sociais e físicas. Em alguns casos, sentimentos como tristeza profunda, ansiedade, solidão, culpa, pressão escolar, conflitos familiares ou dificuldades de pertencimento podem se transformar em sofrimento psíquico grave.
Sinais de alerta que os pais precisam observar
Nem sempre o adolescente fala abertamente sobre o que está vivendo. Por isso, alguns comportamentos merecem atenção, especialmente quando surgem de forma repentina. Entre os principais sinais de alerta, Luciana destaca:
- “Cortes, marcas ou queimaduras inexplicáveis”
- “Uso constante de roupas de manga comprida, mesmo no calor”
- “Isolamento repentino”
- “Objetos cortantes no quarto sem explicação”
- “Expressões como ‘quero sumir’ ou ‘não aguento mais’”
Os dados da PeNSe 2024 também mostram diferença importante entre meninas e meninos. “Entre as meninas, 43,4% relataram vontade de se machucar de propósito — ante 20,5% entre os meninos”, aponta a especialista.
O que NÃO fazer ao descobrir a autolesão
A reação impulsiva dos pais pode aumentar a culpa e o silêncio do adolescente. Por isso, a orientação é evitar atitudes punitivas ou frases que minimizem a dor emocional. Veja o que não fazer:
- “Gritar ou punir”
- “Perguntar ‘por que você fez isso comigo?’”
- “Minimizar: ‘é só para aparecer’”
- “Tirar objetos e achar que o problema foi resolvido”
- “Guardar segredo achando que vai piorar se falar”
“Essas reações aumentam o isolamento e o risco”, alerta Luciana Loureiro.
Como acolher um adolescente em sofrimento
Diante da descoberta, o mais importante é criar um espaço seguro para conversa, sem julgamentos ou ameaças. Por mais difícil que seja, os pais precisam respirar antes de reagir e demonstrar cuidado sem desespero. Uma frase simples pode abrir espaço para o diálogo: “Eu vi. Eu estou preocupado/a. Você pode me contar”.
Ela também reforça que o sofrimento não deve ser ignorado nem tratado como “fase”. “Não deixe para depois: busque um profissional de saúde mental”, recomenda.
Além disso, pode ser importante envolver a escola, sempre “com cuidado e sigilo adequados”, para garantir que o adolescente receba suporte em todos os ambientes que frequenta. Outro ponto importante é que os próprios pais também procurem apoio emocional. “Pais de adolescente em sofrimento também precisam de apoio”, afirma.
Quando procurar ajuda urgente
Se houver falas relacionadas à morte, desesperança intensa, isolamento extremo ou agravamento das lesões, a busca por atendimento deve ser imediata. Em situações de crise emocional, o atendimento do Centro de Valorização da Vida pode ser acionado pelo telefone 188, gratuitamente, 24 horas por dia. “A autolesão é um pedido de socorro. Seu filho não está errado, ele está sofrendo e necessitando de ajuda”, finaliza a especialista.
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