Por que estimular seu filho a ler gibis e histórias em quadrinhos?

Longe de “atrapalhar” a alfabetização, os quadrinhos podem ampliar vocabulário, fortalecer a compreensão de texto e, principalmente, despertar o prazer pela leitura desde cedo
Crianças lendo gibi Foto: Freepik

Eu já estou na fase dos 40, mas lembro como se fosse hoje o dia em que meu avô chegou em casa e me deu um presente que eu considerei o melhor do mundo, durante umas férias: o Almanacão da Mônica. Eu adorava ler, adorava gibis e folhear aquela edição grande, cheia de histórias novas, com aquele cheirinho de papel, com atividades e jogos no meio… Era simplesmente o paraíso.

Naquela época, a televisão só tinha programação infantil em alguns determinados canais e horários. A TV a cabo era para poucos. A internet e os streamings não sonhavam em existir. A gente lia até rótulo de shampoo no banheiro, para se distrair e passar o tempo. Era mais fácil gostar de ler.

Hoje, uma das minhas maiores dificuldades como mãe, é justamente estimular a leitura por prazer. Como é que os livros, que exigem tempo, atenção, concentração, vão concorrer com os estímulos rápidos e que liberam altas cargas de dopamina no cérebro como os vídeos da internet? Complicado.

Eu não tinha mais o meu Almanacão, mas recorri àquela sensação para contar aos meus filhos. Com isso, comecei a ler gibis com eles, para tentar trazê-los para o mundo offline. E não é que tem dado certo? Eles estão curtindo!

Durante muito tempo, gibis foram vistos como leitura “menor”. Hoje, porém, educadores e especialistas em desenvolvimento infantil defendem o contrário: histórias em quadrinhos são uma porta de entrada potente para o universo dos livros, especialmente para crianças que ainda estão criando vínculo com a leitura.

O primeiro passo para formar leitores é simples: fazer com que a criança goste de ler. E os quadrinhos ajudam justamente nisso. Com linguagem acessível, narrativa dinâmica e ilustrações que facilitam a compreensão do enredo, eles reduzem a frustração inicial e aumentam a sensação de conquista. Personagens conhecidos, como os da Turma da Mônica, criados por Mauricio de Sousa, favorecem a identificação e mantêm o interesse ativo.

Ao contrário do que muitos pensam, HQs exigem uma habilidade de leitura sofisticada. A criança precisa interpretar falas e legendas, observar expressões faciais, compreender sequências temporais e fazer inferências entre um quadro e outro. Essa combinação fortalece a compreensão leitora, que é essencial para o desempenho escolar ao longo da vida.

Além disso, como trabalham simultaneamente texto e imagem, as histórias em quadrinhos ativam diferentes áreas do cérebro relacionadas à linguagem, memória e atenção. Elas estimulam a organização de ideias, o raciocínio lógico na sequência narrativa, a capacidade de síntese e a imaginação.

Para crianças que apresentam resistência aos livros tradicionais, os gibis podem ser um recurso estratégico. O suporte visual reduz a sobrecarga cognitiva e torna a leitura menos intimidante, favorecendo o engajamento.

Outro benefício importante, como o temos visto por aqui, é o fortalecimento do vínculo familiar. Ler quadrinhos junto com os filhos pode se transformar em um momento afetivo: alternar as falas dos personagens, comentar cenas e conversar sobre os valores presentes nas histórias aproxima adultos e crianças e associa a leitura a experiências positivas. No meu caso, conto de quando eu era criança e como eu adorava esse tipo de leitura. As crianças amam ouvir as experiências de quando os pais eram pequenos, como eles.

Quadrinhos não atrapalham a alfabetização — pelo contrário. Estudos na área da educação indicam que toda leitura significativa contribui para o desenvolvimento da linguagem. O que prejudica é a ausência de leitura. Vale ressaltar, é claro, que os quadrinhos não substituem outros gêneros, mas ampliam o repertório e podem conviver perfeitamente com livros ilustrados, literatura infantil, contos, poesia e textos informativos.

Para incentivar esse hábito em casa, vale deixar gibis acessíveis, visitar bancas, feiras e bibliotecas, respeitar os interesses da criança e evitar críticas ao tipo de leitura escolhido. E, acima de tudo, dar o exemplo: quando os adultos leem, mostram que a leitura faz parte da vida.

 

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