Pertencimento também se ensina: o papel das famílias na construção do respeito racial

O pertencimento e o empoderamento começam dentro de casa. O respeito ao outro, também
Ser uma criança preta não deveria ser fonte de desconforto Foto: Magnific

 

Crianças brancas crescem se vendo em todos os lugares: nos desenhos animados, nos livros didáticos, nas bonecas, nos filmes, nas propagandas, nos personagens considerados bonitos, inteligentes e heroicos. Crescem com a certeza naturalizada de que pertencem — de que o mundo foi feito para elas. Por que, então, ainda existe tanta dificuldade em permitir que crianças pretas sejam reconhecidas como pretas?

Na tentativa equivocada de “amenizar” o racismo, muitos adultos evitam chamar uma criança preta de preta — preferindo termos como “morena” ou simplesmente omitindo qualquer referência à cor. Mas o problema nunca esteve na palavra “preta”. O problema está no racismo que transformou a cor da pele em ofensa, quando deveria ser pertencimento. Ser uma criança preta não deveria ser fonte de desconforto. Deveria ser motivo de reconhecimento, identidade e orgulho.

Não é só sobre o que se fala. É sobre como se fala

Quando uma família preta fortalece a identidade racial de seus filhos, ela está dizendo: “Você pode ocupar o mundo sendo exatamente quem você é.” Está ensinando autoestima, ancestralidade e resistência — em uma sociedade que, com frequência, tenta apagar existências negras desde a mais tenra infância. Mas essa responsabilidade não pode recair apenas sobre famílias negras. Famílias brancas também precisam educar seus filhos para o respeito às diferenças. Precisam ensinar que pessoas não são todas iguais — e que isso não é um problema.

Somos diferentes em nossas histórias, culturas, corpos, cabelos, traços e vivências. E é exatamente essa diversidade que nos permite crescer, aprender e nos humanizar uns com os outros. Ensinar uma criança a respeitar uma criança preta é, antes de tudo, ensinar humanidade. Há uma tendência — confortável, mas equivocada — de delegar à escola toda a responsabilidade pelas questões relacionadas ao racismo.

A verdade, porém, é que a educação antirracista começa muito antes da sala de aula. Ela começa nos comentários feitos à mesa do jantar, nas brincadeiras permitidas ou proibidas, nos silêncios carregados de significado, na escolha dos livros que se oferece às crianças, nos exemplos que os adultos dão — ou deixam de dar — todos os dias. A escola tem, sim, um papel fundamental nesse processo.

Mas a responsabilidade maior é da família. Porque crianças não nascem racializando o outro de forma negativa. Elas aprendem. E, se aprendem o preconceito, também podem aprender o respeito. Talvez esteja na hora de nos fazermos uma pergunta honesta: o que estamos ensinando às nossas crianças quando evitamos nomear uma criança preta como preta?

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Tatiane Santos

É pedagoga, especialista em educação antirracista e consultora em formação de educadores. Conhecida como Pretinha Educadora, atua como coordenadora pedagógica na rede pública de São Paulo e desenvolve projetos voltados à equidade racial na primeira infância. Coautora do livro infantil Super Black – O poder da representatividade, e autora do livro o Sonho de Dandara

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