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O cansaço das mães não pode ser romantizado
Existe um discurso silencioso — mas muito presente — de que ser uma boa mãe é, necessariamente, se sacrificar. Como se o cansaço fosse parte do pacote da maternidade. Como se dormir mal fosse esperado. Como se abrir mão de si mesma fosse prova de amor. Um ditado popular traduz bem essa ideia: “quem pariu Mateus que o balance.”
E, sem perceber, muitas mães passam a viver exatamente assim — sustentando rotinas exaustivas em nome de um ideal de cuidado. Principalmente quando o assunto é sono. “Eu quero fazer tudo pelo meu filho.” É uma frase que a gente escuta muito hoje. E aí? como fica a parte dele?
O desejo de proteger, de evitar qualquer sofrimento, de garantir que o filho não passe por frustrações. Mas é justamente aqui que entra uma diferença importante. Donald Winnicott fala da importância de uma mãe suficientemente boa. E isso é muito diferente de uma mãe que faz tudo. Não se trata de abandono, frieza ou distância. Trata-se de cuidado com medida, de presença com espaço, de amor que também permite desenvolvimento. Ou seja, ela faz a parte dela — e deixa espaço para que a parte do filho aconteça. A mãe suficientemente boa acolhe, protege e cuida, mas não ocupa para sempre o lugar que, aos poucos, precisa ser construído pelo filho. Inclusive no sono.
A culpa de mudar e o medo de fazer o filho sofrer
Muitas mães continuam nesse cenário porque acreditam que estão fazendo o melhor possível. Porque sentem culpa de mudar. Porque acham que a mudança pode fazer o filho sofrer. Porque têm medo de que o choro seja traumático. E, principalmente, porque aprenderam que mãe aguenta. Que faz parte. Que é assim mesmo. Que um dia passa. Mas é importante frisar: dormir mal é sofrimento, é traumático e tem choro de exaustão envolvido.
Dormir é uma das primeiras experiências de autonomia
Por volta dos seis meses de vida, um bebê já pode começar a desenvolver autonomia no sono. Ele ainda vai depender da mãe em muitos aspectos — e isso é esperado. Mas o sono pode deixar de ser um espaço de dependência total. Dormir passa a ser uma das primeiras experiências de separação saudável. Um primeiro movimento de construção de autonomia. E isso não é abandono. É desenvolvimento. Entre fazer tudo e não dar conta. Existe um paradoxo silencioso: A mãe quer fazer tudo pelo filho. Mas, ao fazer tudo, se esgota. E, esgotada, perde justamente o que mais importa: a qualidade da presença.
Dormir todos juntos e misturados
Dormir todos juntos pode ser uma escolha possível. Mas só faz sentido quando todos dormem bem. Quando há despertares constantes, invasão de espaço, exaustão materna e conflitos entre o casal, é preciso olhar com honestidade. Porque não está funcionando bem. E o que poderia ser ajustado continua sendo sustentado às custas da saúde de quem cuida e de quem é cuidado. Porque, no fim, ninguém dorme bem.
O mito da fase e do sacrifício necessário
“É fase.” “Depois passa.” “Mãe aguenta.” Algumas fases passam. Outras se prolongam. Se arrastam. Viram padrão. E o que poderia ser ajustado continua sendo sustentado em nome da ideia de que sofrer faz parte da maternidade. Uma mãe descansada é uma mãe mais inteira. Dormir bem não é luxo. É necessidade. Uma mãe descansada é mais paciente. Mais disponível. Mais inteira. E isso muda a qualidade da relação com o filho. Porque não existe qualidade de relação quando o corpo e a mente estão em exaustão constante.
Fazer diferente também é cuidar
Há uma frase amplamente atribuída a Albert Einstein que diz: “A definição de insanidade é fazer a mesma coisa repetidamente e esperar um resultado diferente.” Na maternidade, isso aparece de forma muito concreta. Se o modelo atual leva ao cansaço, à exaustão e a noites mal dormidas, continuar repetindo esse modelo não vai trazer um resultado diferente. Mudar pode ser difícil. Pode ser desafiador. Pode envolver adaptação. Mas também pode ser aprendizado. Pode ser a saída de uma zona de des-conforto que já deixou de fazer bem. Porque, no fim, não se trata de fazer tudo. Se trata de fazer o que funciona — para a mãe e para o filho. Cuidar do seu sono não compete com o amor pelo seu filho — é o que sustenta a forma como você cuida.
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Deborah Moss
É neuropsicóloga, especialista em sono infantil, mestre em psicologia pela USP, educadora parental e autora do livro Hora de Nanar
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