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“Não tenho nada para fazer”: tédio é positivo para o desenvolvimento infantil, sabia?

“O que eu vou fazer agora?” ou “Não tenho nada para fazer!” são reclamações que os pais escutam mil vezes por dia, o ano inteiro. Nas férias, então, a frequência aumenta. Quando uma criança diz que está entediada, é comum que os adultos sintam a necessidade imediata de resolver a situação: oferecer uma tela, sugerir uma brincadeira, preencher o tempo. Tudo, é claro, com as melhores intenções. Mas, talvez, a melhor resposta para esse tipo de situação seja simplesmente não fazer nada. É o que indica um estudo recente, publicado no Journal of Experimental Child Psychology.
Para chegar a essa conclusão, os pesquisadores observaram o comportamento das crianças enquanto esperavam por uma recompensa, avaliando estratégias usadas para lidar com a antecipação e o desconforto da espera. Só o tempo que aguardavam já era um desafio emocional, especialmente por envolver antecipação, frustração e desejo imediato. Os cientistas observaram que algumas crianças são capazes de transformar esse tempo ocioso em uma espécie de treino interno de autocontrole.
As crianças que demonstraram comportamento mais passivo — com menos inquietação, menos vocalizações e menor agitação corporal — conseguiram esperar mais tempo pela recompensa. Em vez de focar no que desejavam, elas encontraram formas de se distrair, desviaram a atenção do objeto e toleraram melhor o desconforto da espera. Nesse contexto, o tédio não foi um problema, mas uma ferramenta para regular emoções e impulsos.
Já crianças com perfil mais ativo, que apresentaram maior inquietação e dificuldade em controlar a antecipação, tiveram mais chances de buscar a recompensa imediata. Para elas, o tédio foi mais difícil de administrar, justamente por faltar estratégias internas para lidar com a frustração. A diferença, segundo os pesquisadores, não está em “aguentar” o tédio, mas em aprender a usá-lo de forma produtiva.
Essas descobertas ajudam a explicar por que a capacidade de adiar recompensas está associada a habilidades importantes ao longo da vida, como paciência, resiliência emocional e tomada de decisões menos impulsivas. Quando todos os momentos vazios são preenchidos por estímulos externos, a criança tem menos oportunidades de desenvolver esses mecanismos internos.
No entanto, os próprios autores fazem ressalvas importantes. A amostra do estudo foi relativamente pequena, o que limita a generalização dos resultados. Além disso, fatores como o nível de fome das crianças ou a confiança na recompensa prometida não foram avaliados e podem influenciar diretamente a capacidade de esperar. Ainda assim, os achados reforçam uma mensagem relevante: o problema não é o tédio em si, mas o excesso ou a falta total de mediação.
Na prática, isso não significa deixar a criança sozinha ou ignorar suas necessidades, mas permitir, em ambientes seguros, que ela enfrente pequenos momentos de espera e frustração sem uma solução imediata. O tédio, nesse contexto, pode ser o início da criatividade, do autoconhecimento e da construção do autocontrole.
Em um cotidiano cada vez mais acelerado, talvez o maior aprendizado seja este: oferecer menos respostas prontas e mais espaço para que a criança descubra, sozinha, o que fazer com o próprio tempo.
O papel dos pais, na prática
Ajudar a criança a lidar com o tédio não significa acabar com ele, mas ensinar caminhos para atravessar essas situações. No dia a dia, pequenas atitudes dos adultos fazem diferença para transformar esse tempo “vazio” em aprendizado emocional.
– Validar o sentimento, sem correr para resolver: quando a criança diz que está entediada, responder algo como “Entendo, isso acontece às vezes” mostra acolhimento, sem oferecer uma solução pronta. Isso ajuda a criança a perceber que o tédio não é perigoso, mas um estado passageiro.
– Não ofereça telas como solução automática. Se toda sensação de tédio termina em celular, tablet ou TV, a criança não desenvolve recursos internos para lidar com a espera ou com a frustração. Não é proibir sempre, mas criar intervalos em que o tédio possa existir sem ser imediatamente preenchido.
– Ofereça sugestões abertas, em vez de comandos. Em vez de “vai desenhar” ou “brinca com isso”, pergunte: “O que você acha que poderia fazer agora?” ou “Quer algumas ideias ou prefere pensar sozinho?”. Isso estimula autonomia e tomada de decisão.
– Mantenha materiais acessíveis. Papel, lápis, livros, blocos, fantasias ou objetos simples do dia a dia, quando ficam ao alcance da criança, favorecem brincadeiras espontâneas e criativas, sem necessidade de mediação constante do adulto.
– Ensine com situações reais. Filas, trajetos de carro, salas de espera ou momentos antes de um compromisso são oportunidades naturais para treinar esse “ficar sem fazer nada”. Nesses momentos, vale evitar distrações imediatas e ajudar a criança a observar o ambiente, conversar ou simplesmente esperar.
– A rotina também faz diferença. Crianças se sentem mais seguras quando sabem que há momentos estruturados e momentos livres no dia. O tempo livre não precisa ser produtivo nem render algo visível. Ele existe justamente para que a criança experimente o ócio.
– O exemplo importa. Quando os adultos conseguem ficar alguns minutos sem celular e sem “resolver” tudo, mostrando que também lidam com o tédio, a criança aprende mais pelo modelo do que pelo discurso.
Canguru News
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