Contrate grávidas e mães: fim do tabu de que a maternidade é barreira vai beneficiar as crianças

Empresas investem em cultura organizacional "family-friendly", valorizando contratação de gestantes e mães, favorecendo assim a construção de vínculos saudáveis com as crianças

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Empresas buscam mudar estigma da maternidade como impasse ao trabalho
Para grávidas e mães, os filhos não são barreiras profissionais; pelo contrário

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Falta de empatia, comentários desrespeitosos e até demissões são algumas das situações já vividas por mães que conciliam maternidade e trabalho. Mulheres grávidas e no pós-parto possuem, por lei, diversos direitos trabalhistas, como a licença maternidade e estabilidade no emprego com a concepção do bebê. Entretanto, é comum que elas passem por situações desagradáveis por causa da maternidade. Uma pesquisa feita pela Catho, em 2018, com mais de 2 mil pessoas, revelou que 30% das mulheres deixam o mercado de trabalho para cuidar de seus filhos. Outro levantamento, realizado pela VAGAS.com, mostra que 52% das mães que ficaram grávidas ou saíram em licença passaram por situações ruins com a empresa, como demissões ou falta de empatia por parte dos chefes.

Para promover transformações nesse cenário de gravidez e maternidade e ajudar na construção de um ambiente de trabalho mais saudável para mães, pais e filhos, várias empresas já se dedicam a fortalecer tanto as famílias, quanto os gestores para uma cultura organizacional mais “family-friendly”, que tenha um cuidado com mães e pais que trabalham.

Contrate grávidas – e cuide das mães

Na Bloom, uma plataforma de cuidados para mães e pais, as empresas podem encontrar ferramentas, dados e maneiras efetivas de como transformar seu relacionamento com as famílias. Hoje, a Bloom possui a campanha Contrate Grávidas, uma iniciativa colocada em prática há cerca de dois meses que convida e ajuda as empresas a refletirem sobre seu tratamento com as grávidas, especialmente nos processos seletivos.

Segundo Nathalia Goulart, head de parcerias da Bloom, a proposta da etapa atual da campanha é fazer com que as empresas abram seus processos de forma clara e objetiva, e deixem explícito na descrição da vaga que as grávidas são bem-vindas e disputarão em pé de igualdade com outros candidatos. “O que a gente percebe é que muitas mulheres têm relatado a contratação durante um período de gestação ou mesmo a promoção durante a gravidez, mas a gente sabe que isso ainda é exceção à regra. Nossa missão é fazer com que a contratação seja a regra”, diz Nathalia.  


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O grupo Qualicorp, empresa que lida com mediações entre clientes e operadoras de saúde, também já adota processos seletivos abertos para grávidas em vagas em todo o país. Hoje com três colaboradoras na equipe que foram contratadas grávidas, a empresa busca um tratamento mais humanizado, acolhedor e que esteja aberto à formação de vínculos duradouros com os colaboradores. A gravidez, nesse contexto, não é um empecilho – pelo contrário. “Mais do que valorizar o profissionalismo de nossos colaboradores, prezamos pela particularidade de cada um. Sabemos que as experiências além do mundo profissional são enriquecedoras e contribuem – e muito – para melhorarmos processos, revermos estratégias e agregarmos ao nosso modelo de negócios”, diz Flavia Pontes, diretora de Pessoas e Cultura da Qualicorp. 

A desconstrução da maternidade como barreira profissional beneficia também os filhos
Flavia Pontes, diretora de Pessoas e Cultura da Qualicorp.

Ela conta que os profissionais são instruídos a sempre ouvir as necessidades de cada indivíduo dentro da empresa com relação às questões pessoais e eventuais flexibilizações necessárias. “No caso das profissionais grávidas, um benefício que definimos ainda neste ano é o home office 100% para as mães da Quali que retornarem de licença até que o bebê complete um ano”, comenta Flavia.

Mesmo com a importância de se repensar a questão da gravidez e de um tratamento mais objetivo e respeitoso de grávidas nos processos seletivos e em suas funções na empresa, Nathalia ressalta que essa é apenas uma parte do cenário:

“Quando a gente fala de contratação de gestantes, a gente sabe que é só a ponta do iceberg. O que a gente precisa, na verdade, e o que a gente quer, é fomentar essa discussão sobre maternidade e carreira”.

Maternidade e paternidade no trabalho

Outra iniciativa com busca contínua por oferecer soluções para a jornada da parentalidade é a Filhos no Currículo. Por meio de palestras, consultorias e programas continuados de recolocação de mulheres no mercado de trabalho durante e após a gestação, a empresa colabora para que as empresas se sensibilizem com a importância de não tratar os filhos como uma barreira profissional. “A gente tem na nossa fala a conversa com quem é líder, com quem é pai e com quem é mãe. Com essa tríade a gente ajuda o RH e os grupos de diversidade para que eles se sintam fortalecidos nessa pauta”, explica Camila Antunes, uma das fundadoras. 

Camila ressalta que, quando a empresa age em prol de promover um acolhimento e humanização do tratamento dado às mães e pais no ambiente de trabalho, os impactos são para todos. Colocar os filhos “no currículo”, em pauta nas discussões corporativas, é o objetivo da consultoria. A parentalidade pode ser um impulso para o desenvolvimento nos colaboradores de várias habilidades e motivações importantes para si mesmos e a própria empresa.


“É a partir do exercício da parentalidade que a gente desenvolve muitas novas habilidades, e falar de filhos é premissa se a gente quiser um ambiente mais humano, empresas que cresçam e que pensem nas mulheres no seu ambiente de trabalho.”

“A gente entendeu que isso é um assunto de todos, e que é a partir dos filhos que a gente se capacita e que coloca soft skills, as chamadas habilidades socioemocionais, no nosso currículo. Por isso eles merecem esse espaço”, completa a fundadora da empresa.

Esse processo de promover valores family-friendly começa desde a seleção das vagas e entrevistas de empregos. Especialmente no caso das mães, Camila explica que as perguntas e comentários feitos no processo seletivo são comumente subjetivos, e podem ser substituídos por alinhamentos de expectativas com a candidata e uma maior proximidade. “Minha sugestão é que o gestor se conecte com suas próprias emoções, para poder conectar com as emoções da pessoa à sua frente. Faça perguntas curiosas, alinhe expectativas com frequência e dê feedbacks sempre muito assertivos.”

Do trabalho para casa: o reflexo nos filhos

Camila ressalta que o cuidado em promover processos seletivos, ambientes de trabalho e toda uma cultura organizacional com valores que respeitem e tratem a maternidade de forma adequada traz efeitos que se ampliam para as próprias crianças. “Uma pessoa que está submetida a um ambiente de trabalho tóxico, onde sua saúde mental é altamente impactada por conta de violências, agressões, por gestão inadequada, líderes que não saibam cuidar [da equipe], vai se sentir prejudicada. E a gente sabe que crianças precisam de pais saudáveis emocionalmente, que sejam cuidados na sua integralidade.”

O ambiente influencia na forma com que os pais lidam com os filhos e questões pessoais, e Camila lembra que o contrário dessa situação de abalo emocional também é verdadeiro. “Se você vive um ambiente saudável, acolhedor, humano, que preza pelas suas necessidades, onde você se sente escutado e tem um líder em quem você confia, segurança psicológica e emocional, pessoas junto com você para cuidar desse período e dessa jornada, e que entendem que o chegada de um filho é algo positivo na trajetória de uma pessoa, isso também transmite para essa essa mãe e para esse pai sentimentos que levam para sua casa desse ambiente”. 

Desse modo, descontruir o estigma de que a maternidade, a gravidez e ter filhos é um empecilho no trabalho e na carreira profissional dos colaboradores influencia diretamente no desenvolvimento saudável da criança, como ressalta Nathalia Goulart. “Muitas das características que a gente leva pra vida adulta, são formadas nos primeiros anos de vida, nossas habilidades, caráter. Então quando a gente permite que mães e pais cuidem adequadamente de seus filhos, estejam presentes e criem vínculos saudáveis, a gente fala de um investimento que perdura para a criança. Não é só a empresa cuidando dos colaboradores, mas também para que a nova geração seja cuidada, e também de uma sociedade mais justa, igualitária e saudável”.


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