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Luto infantil: estamos preparados?
Estamos no início de fevereiro e, a exemplo de 2020, parece que estamos diante de mais um filme de ficção científica ainda sem data para acabar – embora a luz no fim do túnel já não esteja tão distante. Fazendo uma retrospectiva rápida, para você e sua família, como tem sido esse período?
Sem dúvida, tivemos muitas oportunidades de aprender e, algumas vezes, exercitarmos características que nem sabíamos que possuíamos. E chegamos até aqui. Estampando um claro “eu sobrevivi” nos rostos, renovamos energias e seguimos diante da expectativa de mais um ano.
Sempre podemos ver os acontecimentos pela ótica da positividade, mas não há como negar que 2020 e este início de ano são de muitas perdas. Lamentamos o número ainda crescente de óbitos pelo novo coronavírus, mas também lamentamos nossas próprias perdas pessoais.
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E as crianças?
O luto infantil tem características muito próprias e, quando vejo os estudos sobre a maneira como a pandemia tem impactado a infância, com aumento de índices de transtornos alimentares, psiquiátricos, de sono e comportamento, eu vejo, na verdade, crianças enlutadas.
Perderam a rotina, a convivência com amigos, as aulas presenciais, o contato com a natureza, o correr livre, a presença e o convívio com avós e outros familiares
O luto é uma reação emocional intensa diante de uma perda. Um processo natural e necessário diante da dor. E não podemos ignorar que as nossas crianças perderam muito desde o ano passado. Perderam a rotina, a convivência com amigos, as aulas presenciais, o contato com a natureza, o correr livre, a presença e o convívio com avós e outros familiares. Perderam em definitivo alguns desses familiares em decorrência da doença.
Para o adulto é mais fácil elaborar, sentir e falar sobre as perdas. Ainda assim, cada um lida de maneira muito pessoal com a dor da ausência. As crianças ainda não possuem mecanismos mentais específicos e bem desenvolvidos para tal elaboração. Realidade e fantasia se misturam e os mais variados comportamentos podem advir no processo de percepção da falta.
Cabe ao adulto a atenção e a escuta sensível para perceber que algo não vai bem. Um comportamento, um desenho, um medo novo, dificuldades para assimilar novas rotinas e até mesmo tristeza e recolhimento podem indicar o luto infantil. Cabe ao adulto, acima de tudo, acolher e dar espaço para que essas sensações desagradáveis sejam vividas e processadas.
Cada faixa etária exterioriza o sofrimento de maneira diferente, mas, independentemente da idade, evitar a conversa ou inventar mentiras que cedo ou tarde serão desmentidas pela realidade não são estratégias a serem seguidas.
Segundo Alan D. Wolfet, estudioso do luto e escritor de inúmeros livros sobre o assunto, a criança enlutada precisa da compaixão e da presença de um adulto próximo, não somente nos dias ou semanas após uma perda, mas também nos meses e anos a seguir.
Estamos preparados para as cenas dos próximos capítulos da pandemia e esses meses e anos do pós-pandemia?
Nunca deixo de lembrar aos pais que, acima de tudo, somos modelos – nossos filhos fazem o que fazemos e não o que falamos. Então, entender o quanto as nossas perdas nos moldam e como lidamos com elas é fundamental no processo de conduzir o luto infantil.
Resiliência é a capacidade de o indivíduo lidar com problemas, adaptar-se a mudanças, superar obstáculos ou resistir à pressão de situações adversas. É isso que queremos ensinar para as nossas crianças. Comecemos por nós mesmos e que este novo ano traga com ele novas esperanças.
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Talita Lodi Holtel
Talita Lode Holtel é mãe de Paola e Helena. Pediatra e hebiatra formada pela Unifesp, é especialista em gestão em saúde e coordenadora do Pronto Atendimento Infantil e da Unidade de Internação Pediátrica do Hospital Sepaco (SP), além de Supervisora do Programa de Residência Médica.
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