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Fome e excesso de peso: crianças vivem os dois extremos da má nutrição no Brasil
Garantir comida saudável no prato das crianças ainda é um desafio cotidiano para muitas famílias que vivem em favelas brasileiras. Um levantamento do Instituto Desiderata sobre acesso aos alimentos aponta que questões econômicas, sociais e estruturais dificultam a oferta regular de refeições nutritivas e acabam incentivando o consumo de produtos ultraprocessados. De acordo com a pesquisa, 60,7% das famílias vivem com algum grau de insegurança alimentar, enquanto 34,7% das crianças entre 5 e 10 anos apresentam excesso de peso e 12,95%, obesidade, evidenciando a chamada dupla carga da má nutrição, quando fome e obesidade coexistem. Esse fenômeno ocorre quando a alimentação disponível é rica em calorias, mas pobre em nutrientes, o que favorece ganho de peso mesmo em contextos de vulnerabilidade alimentar.
O estudo foi realizado com 900 domicílios nos territórios do Complexo da Maré e Caramujo, no Rio de Janeiro, e Coque, em Pernambuco, e mostra que as escolhas alimentares estão fortemente condicionadas por fatores como preço, disponibilidade e acesso físico aos alimentos. No resultado, fica nítida a concentração da responsabilidade pela alimentação nas mãos das mulheres. Segundo a pesquisa, 87% das mães são responsáveis por comprar e servir a comida das crianças, e 82% também assumem o preparo das refeições, evidenciando uma sobrecarga que impacta diretamente as escolhas alimentares da família.
Esse cenário ajuda a explicar por que alimentos ultraprocessados acabam sendo mais frequentes no dia a dia. “Muitas mães fazem isso sozinhas, além de trabalhar fora. É uma sobrecarga que acaba fazendo com que a praticidade dos alimentos ultraprocessados pese muito mais”, afirmou Stephanie Amaral, oficial de Saúde e Nutrição do Unicef no Brasil, à Agência Brasil.
Confusão sobre o que é saudável
Outro ponto identificado pelo levantamento é o desconhecimento sobre o grau de processamento dos alimentos. Produtos como iogurtes saborizados e nuggets preparados na airfryer foram citados por muitos participantes como opções saudáveis, mesmo sendo classificados como ultraprocessados.
Essa percepção influencia diretamente a alimentação das crianças, já que as escolhas são guiadas pela praticidade, pelo custo e pela disponibilidade no entorno. O estudo também destaca que, nas favelas analisadas, o acesso a alimentos frescos pode ser mais limitado, enquanto produtos industrializados estão mais disponíveis e, muitas vezes, mais baratos.
Impacto direto na alimentação infantil
Quando o ambiente alimentar é restrito, as famílias passam a priorizar o que é mais acessível, mesmo que isso signifique menor qualidade nutricional. O resultado é uma dieta com menos frutas, verduras e preparações caseiras e maior presença de itens industrializados, o que pode afetar o desenvolvimento infantil e aumentar riscos à saúde no longo prazo.
O levantamento reforça que melhorar o acesso físico e financeiro a alimentos saudáveis, ampliar a informação nutricional e dividir a responsabilidade pelo cuidado com a alimentação são medidas essenciais para garantir refeições mais equilibradas para as crianças que vivem nesses territórios.
Com 89,81% das crianças matriculadas, a escola representa uma importante fonte de refeições: mais de 53% almoçam nas instituições de ensino e 64,47% aceitam bem a comida oferecida. Os dados indicam que o fortalecimento da merenda escolar pode ajudar na construção de hábitos mais saudáveis e reduzir impactos da insegurança alimentar.
O que pode ajudar
Especialistas apontam algumas estratégias que podem reduzir essas barreiras:
- Ampliar a oferta de alimentos frescos em territórios vulneráveis
- Políticas públicas para reduzir o preço de comida in natura
- Educação alimentar voltada às famílias
- Divisão mais equilibrada das tarefas domésticas
- Fortalecimento de programas de segurança alimentar
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