Quando as férias viram maratona de telas: o dado que acende um alerta

Sem aula e sem rotina, o tempo de uso de dispositivos eletrônicos dispara nos meses de recesso escolar. O resultado? Crianças mais irritadas, alterações no sono e emoções no limite
Criança no tablet
Foto: Freepik
Criança no tablet Foto: Freepik

 

Ah, as férias escolares… É hora de descansar, desacelerar, esquecer do relógio, desativar as preocupações. No entanto, nem todos os pais conseguem tirar férias junto com os filhos e, mesmo os que conseguem, acabam afrouxando as regras. Ninguém quer estresse, se a ideia é relaxar, certo? Acontece que, muitas vezes, isso culmina no cenário perfeito para as crianças se entregarem às telas. Os números confirmam: um estudo publicado no renomado periódico científico JAMA Pediatrics apontou que o uso de dispositivos digitais por crianças pode aumentar entre 40% e 70% durante o período de férias.

Levantamentos da Common Sense Media mostram que o tempo médio diário de entretenimento digital infantil já passa de 5 horas e 40 minutos – e tende a crescer quando a escola sai de cena e a rotina perde estrutura.

Sono bagunçado e mau humor em alta

O impacto pode ser percebido rapidamente, especialmente à noite. Estudos da Sleep Foundation indicam que a luz azul emitida por telas reduz a produção de melatonina, o hormônio do sono. Isso pode acabar atrasando a hora de dormir em até duas horas. Já pesquisadores da University of Toronto observaram que crianças que usam telas à noite têm maior fragmentação do sono REM, uma fase essencial para a consolidação da memória e a regulação emocional. Os pequenos dormem mal e acordam mais irritados.

Cérebro em alerta

Estudos apontam que estímulos digitais intensos ativam circuitos de recompensa no cérebro infantil, especialmente o sistema dopaminérgico, aumentando a busca por gratificação imediata. Pesquisas da American Academy of Child & Adolescent Psychiatry associam o uso prolongado de telas a mais impulsividade, menor tolerância à frustração e dificuldade de transição entre atividades. Tudo isso é potencializado com a falta de rotina.

Efeito dominó dentro de casa

Para a psicóloga Andrea Beltran, de São Paulo (SP), o aumento repentino do tempo de tela pode bagunçar o equilíbrio emocional das crianças. “As telas ativam o sistema nervoso de forma intensa e contínua. Quando essa excitação não é compensada com descanso ou atividade física, surgem irritabilidade, agitação e baixa tolerância à frustração”, explica. “E o sono ruim piora tudo, porque é à noite que o cérebro infantil organiza estímulos e estabiliza o humor”, acrescenta.

O impacto atinge a família inteira. Pesquisas da University of Michigan mostram que conflitos domésticos ligados ao uso de dispositivos aumentam nas férias, especialmente quando não existem regras claras. “Rotina flexível faz parte do descanso, mas ausência total de limites costuma gerar tensão”, alerta a psicóloga.

O que fazer, então?

A orientação dos especialistas não passa por banir telas, mas por reorganizar o papel delas no dia a dia. Pausas regulares, supervisão ativa e evitar dispositivos antes de dormir fazem diferença. “As telas não podem ocupar o espaço de experiências fundamentais da infância, como brincar, explorar, se movimentar e descansar”, resume a especialista.

Aqui, listamos dicas para um uso mais saudável das telas nas férias:

  • Defina horários (mesmo que flexíveis)
    Não precisa ser rígido como em época de aula, mas combinar quando e por quanto tempo usar telas ajuda a evitar brigas e excesso.
  • Evite telas pelo menos 1 hora antes de dormir
    Esse intervalo faz diferença real na produção de melatonina e na qualidade do sono, especialmente quando se trata crianças menores.
  • Intercale tela com movimento
    Vale passeio, brincadeira no quintal, dança na sala ou ida ao parquinho. O corpo em movimento ajuda o cérebro a “desligar” depois.
  • Prefira conteúdo a consumo infinito
    Melhor um filme combinado do que horas de vídeos automáticos. Conteúdo com começo, meio e fim cansa menos o cérebro.
  • Dê o exemplo (sim, isso conta muito)
    Crianças observam mais do que obedecem. Diminuir o próprio uso do celular em momentos-chave — refeições, noite, brincadeiras — ajuda mais do que qualquer regra.

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