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Exaustão materna, qual é o limite de uma mãe?
Estamos exaustas, esgotadas, revoltadas, deprimidas. Há 15 meses nossos filhos não vão à escola. Quando vão é de forma híbrida, precisam se dividir entre o on-line é o presencial.
Os adultos seguem fazendo suas festinhas clandestinas, driblando as regras e protocolos. As mães seguem em casa, trabalhando, cuidando e surtando. Se tem mãe dando conta, imagino que tenha uma rede de apoio grande, ou são extremamente resilientes. Com filhos igualmente resilientes.
Não é meu caso. Não me julgue. Mas não está tudo bem. Nem para mim nem para milhares de outras mães. Não só pela falta que a escola faz, mas pela completa falta de perspectiva. E não me venha com o papo de que mãe quer escola aberta para se livrar dos filhos. Mãe precisa de escola aberta porque escola, para grande parte de nós, é a única rede de apoio. Escola não é importante só para ensinar conteúdo. É importante para a socialização. Pela convivência. Preparo para a vida fora da bolha de suas casas.
A escola é nossa aldeia. É com a escola que nós contamos para conseguirmos trabalhar sabendo que nossos filhos estão seguros e acolhidos.
A falta da escola vem impedindo que muitas mães trabalhem. Quando falta trabalho, falta dinheiro. Quando a produtividade cai, lá se vai o emprego. Para cuidar dos filhos a gente precisa de dinheiro, as contas não param de chegar por estarmos em uma pandemia. As pessoas não deixam de se alimentar porque estamos em uma pandemia. A exaustão materna nunca foi tão grande.
E as crianças? Estamos tendo que lidar com depressão infantil. Com pensamentos suicidas. Criança trancada em casa, com medo de um vírus que já matou pessoas queridas. Sendo obrigadas a manter o bom desempenho na escola acompanhando as aulas on-line. Aumentando o tempo na frente da tela. Ficando cada vez mais míopes. Cada vez mais nervosas. Adoecidas.
Adoecem crianças, adoecem mães. Exaustão materna e infantil. Já se vão 15 meses de pandemia. Qual o limite de uma mãe? Nós transformamos em bombas relógio. Em algum momento vamos explodir. E seguimos sendo cobradas. Pelo patrão, pela direção da escola, pelos maridos, pela sociedade toda. Mas ninguém ajuda.
A vacina trás uma ponta de esperança. Aí descobrimos que, por 81 vezes, ela nos havia sido negada. Me refiro à revelação, durante a CPI da Covid, de que foram feitas 81 correspondências entre a Pfizer e o governo brasileiro na pandemia, segundo o vice-presidente da comissão, senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP). Ou seja, a a vacinação poderia ter começado meses mais cedo. Nossos amigos e parentes poderiam estar vivos. Muitas crianças não estariam órfãs. E muitas mães não seriam agora viúvas.
Vai Brasil! Nos deixe de lado. Ignore quem cuida das próximas gerações. Deixe que a gente se exploda, ou imploda, morrendo aos poucos de falta de esperança. Idolatrem políticos e culpem as mães. A gente aguenta!
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Bebel Soares
Bebel Soares é arquiteta urbanista, psicanalista, escritora, mãe do Felipe e fundadora da comunidade materna Padecendo no Paraíso, onde informa e dá suporte a mães desde 2011.
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