Criança que não escuta histórias pode deixar de aprender 1,4 milhão de palavras na infância

Estudo mostra que crianças que não recebem leitura em voz alta até os 5 anos deixam de ouvir cerca de 1,4 milhão de palavras, uma lacuna que pode influenciar o desenvolvimento da linguagem e o desempenho escolar
Leia um livro para o seu filho antes de ele dormir
Foto: Freepik
Leia um livro para o seu filho antes de ele dormir Foto: Freepik

Ler para uma criança pequena pode parecer simples e corriqueiro. Mas a ciência mostra que esse hábito cotidiano — ou a ausência dele — é capaz de deixar marcas profundas no desenvolvimento infantil. Um estudo da Universidade Estadual de Ohio, nos Estados Unidos, revelou que crianças que não recebem leitura em voz alta em casa até os 5 anos deixam de ouvir cerca de 1,4 milhão de palavras em comparação com aquelas que escutam leituras diariamente.

A pesquisa, conduzida pelas cientistas Jessica Logan e Laura Justice e publicada no Journal of Developmental & Behavioral Pediatrics, analisou como a frequência da leitura compartilhada influencia a exposição verbal das crianças nos primeiros anos de vida, um período decisivo para o desenvolvimento da linguagem.

“As experiências precoces com livros têm um efeito cumulativo muito maior do que muitos pais imaginam”, afirmam as autoras no estudo. E a diferença não está apenas na quantidade de palavras, mas na qualidade da linguagem à qual a criança é exposta.

Na prática, escutar 1,4 milhão de palavras a menos significa menos estruturas complexas de frases e menos oportunidades de ampliar o vocabulário. Enquanto conversas do dia a dia tendem a ser repetitivas e funcionais (“guarda isso”, “vamos sair”, “hora do banho”), os livros apresentam palavras e construções que raramente aparecem na fala cotidiana.

“Os livros infantis contêm um vocabulário mais rico e variado do que a linguagem oral comum, e essa exposição é essencial para o crescimento do vocabulário da criança”, explicam as pesquisadoras. Esse repertório mais amplo ajuda a criança não só a falar melhor, mas também a compreender melhor o que escuta e, mais adiante, o que lê sozinha.

Falta de tempo não é desculpa! Segundo o estudo, não é necessário passar longos períodos lendo para gerar impacto. Sessões curtas, de 10 minutos por dia, já fazem diferença significativa ao longo do tempo. O efeito, segundo as pesquisadoras, é cumulativo. Poucos minutos diários, repetidos ao longo dos anos, constroem um ambiente linguístico muito mais rico do que leituras esporádicas ou inexistentes.

Quando aprender vira conexão

Outro ponto central destacado pelos pesquisadores é que a leitura em voz alta não é apenas uma atividade linguística, mas também relacional. Quando um adulto lê para uma criança, cria-se um momento de atenção conjunta — ambos focados na mesma história, nas mesmas imagens, nas mesmas palavras.

“Esses momentos de leitura compartilhada favorecem a aprendizagem de novas palavras porque conectam som, significado e contexto visual”, descrevem as autoras. Ao comentar as imagens, apontar personagens e conversar sobre a história, o adulto ajuda a criança a construir sentido — algo fundamental para a alfabetização futura.

A pesquisa não aponta o dedo, nem sugere perfeição. Pelo contrário: reforça que qualquer leitura conta. Pode ser antes de dormir, no meio da tarde, de manhã…

Pais e mães que leem regularmente oferecem algo que vai além do aprendizado formal. Criam um espaço afetivo, de escuta, proximidade e prazer. A leitura compartilhada estimula a consciência fonológica, o interesse pelos sons das palavras, o princípio alfabético e, principalmente, o vínculo.

Em um mundo cheio de estímulos rápidos e telas constantes, o estudo lembra algo poderoso: um livro, um adulto presente e alguns minutos de atenção podem mudar trajetórias.

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