Artigos
“As famílias estão exaustas tentando acertar tudo”: pediatra fala sobre culpa, sobrecarga e a pressão da parentalidade perfeita
Nunca houve tanta informação disponível sobre maternidade e infância. Ao mesmo tempo, os pais nunca pareceram tão cansados, inseguros e sobrecarregados. Em meio a vídeos nas redes sociais, palpites constantes e uma avalanche de orientações contraditórias, muitas famílias vivem em busca de uma parentalidade impossível — perfeita, organizada e sem falhas.
É justamente contra essa lógica que a pediatra e educadora parental Marcela Noronha escreve O livro dos cuidados com o bebê, lançamento da Editora Edipro. Na obra, a especialista aborda desde questões práticas do cuidado infantil até temas como culpa, saúde mental parental, exaustão, vínculo afetivo e a pressão que mães e pais enfrentam diariamente.
Em entrevista ao Canguru News, ela fala sobre o impacto das redes sociais na criação dos filhos, romantização do puerpério, autocuidado parental e o que as crianças realmente precisam dos adultos. Confira!
Canguru News – Como os pais podem diferenciar orientação confiável de conteúdos que aumentam culpa e ansiedade?
Marcela Noronha – Hoje, existe uma avalanche de informações sobre maternidade e infância. O problema é que informação sem contexto, sem individualização e muitas vezes sem embasamento acaba gerando mais insegurança do que ajuda. Acho que os pais precisam aprender a observar não apenas “o que” está sendo dito, mas “como” aquilo faz eles se sentirem. Conteúdos que aumentam culpa, medo constante ou a sensação de insuficiência dificilmente ajudam uma família a florescer. Informação confiável acolhe, orienta, explica limites da ciência e respeita a individualidade de cada criança e de cada família. Também acho importante que as famílias verifiquem se aquele profissional é realmente capacitado para falar sobre o assunto. Hoje existem muitos perfis com grande alcance, mas número de seguidores não é sinônimo de conhecimento, ética ou responsabilidade. Infelizmente, há muitos charlatões nas redes sociais e isso acaba confundindo ainda mais os pais. Buscar profissionais sérios, atualizados e com formação adequada faz muita diferença.
CN – Por que tantos pais se sentem constantemente insuficientes?
MN – Vivemos uma era em que a parentalidade virou uma espécie de vitrine. As redes sociais mostram recortes muito editados da vida real: rotinas organizadas, alimentação impecável, crianças aparentemente sempre calmas e pais que parecem dar conta de tudo. Isso aumenta muito a ansiedade das famílias e faz muitos pais acreditarem que estão sempre ficando para trás ou fazendo tudo errado. Só que crianças não precisam de pais perfeitos. Precisam de adultos emocionalmente disponíveis, suficientemente bons e capazes de reparar erros. Somos humanos, e errar faz parte da nossa humanidade. Não existe parentalidade sem falhas, sem dias difíceis ou sem frustrações. O mais importante não é acertar o tempo inteiro, e sim ter constância no cuidado, no amor, na presença e na disposição de continuar tentando todos os dias.
CN – Em que momento o cansaço passa a exigir atenção para a saúde mental dos cuidadores?
MN – O cansaço faz parte dos primeiros anos de vida de um bebê, isso é esperado. Mas precisamos prestar atenção quando essa exaustão começa a vir acompanhada de sofrimento intenso, sensação de vazio, irritabilidade constante, choro frequente, culpa excessiva, desconexão com o bebê ou perda da capacidade de sentir prazer nas pequenas coisas. Muitas vezes, os cuidadores passam meses acreditando que precisam “aguentar” – e não precisam. Saúde mental parental também é saúde da criança. Eu acredito tanto na importância desse tema que um capítulo inteiro do livro é dedicado ao autocuidado. Cuidar de uma criança exige entrega física, emocional e mental e, para conseguirmos oferecer o nosso melhor ao outro, precisamos minimamente estar bem também. Ninguém consegue sustentar cuidado de qualidade por muito tempo estando completamente esgotado. O autocuidado não é luxo nem egoísmo. É necessidade.
CN – Por que ainda existe tanta dificuldade em falar sobre emoções, medo e solidão no puerpério?
MN – Porque ainda existe uma romantização muito grande da maternidade e do puerpério. Como se amar um filho eliminasse automaticamente medo, solidão, ambivalência ou esgotamento. E não elimina. O puerpério pode ser um período profundamente bonito, mas também extremamente vulnerável. Quando nasce um bebê, nasce também uma nova dinâmica familiar, uma nova rotina e, muitas vezes, uma nova versão daquela mulher e daquela família. A vida muda profundamente, e toda mudança exige adaptação. Existe uma diferença muito grande entre a expectativa e a realidade. Por mais desejado e amado que um bebê seja, os primeiros meses podem trazer inseguranças, sobrecarga e sentimentos contraditórios. E isso é mais comum do que muitas pessoas imaginam. Inclusive, o livro aborda essa transformação já nos primeiros capítulos. Quando a gente abre espaço para falar sobre essas emoções sem julgamento, muitas mulheres finalmente percebem que não estão sozinhas e que sentir dificuldade não faz delas mães piores, e sim humanas.
CN – Qual é a maior angústia dos pais hoje?
MN – Hoje eu percebo um nível enorme de ansiedade parental. Os pais estão exaustos tentando acertar tudo o tempo inteiro: sono perfeito, alimentação perfeita, desenvolvimento perfeito, limite perfeito. E isso gera uma hipervigilância muito cansativa. Muitas vezes, a maior angústia nem é a birra, a tela ou o sono em si. É a sensação constante de estar falhando. Meu trabalho no consultório frequentemente envolve ajudar as famílias a entenderem que infância real tem imperfeições, frustrações, bagunça e fases difíceis.
CN – O que as diferentes configurações familiares ensinam sobre cuidado e afeto?
MN – Acho muito bonito perceber que o vínculo é construído muito mais pela presença, pelo cuidado consistente e pelo afeto do que exclusivamente pela biologia. As diferentes configurações familiares mostram diariamente que amor é escolha, dedicação e construção cotidiana. Crianças precisam se sentir pertencentes, cuidadas e emocionalmente seguras. E isso pode acontecer em muitos formatos de família.
Foto: Divulgação
Quer saber mais? Acrescenta a Caru nos seus contatos agora (11) 95213-8516 ou CLICA AQUI e fala “oi” para a Caru
Canguru News
Desenvolvendo os pais, fortalecemos os filhos.
VER PERFILAviso de conteúdo
É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita. O site não se responsabiliza pelas opiniões dos autores deste coletivo.
Veja Também
7 em cada 10 vítimas de violência infantil têm menos de 6 anos e saber disso pode ajudar você a proteger seu filho
Levantamento divulgado pelo Hospital Pequeno Príncipe revela que a violência sexual é o tipo mais frequente de agressão contra crianças...
A despedida da chupeta: quando tirar e como acolher a falta
A chupeta costuma ocupar um lugar muito importante na vida do bebê. Não à toa, em inglês, ela recebe...
“Meu filho só quer beliscar”: a fase em que a criança vive de lanchinhos e recusa as refeições
Com alguns cuidados, dá para transformar os snacks em aliados da alimentação infantil
Por que é tão difícil (e tão importante!) fazer amizades na vida adulta?
Em tempos de tanto isolamento, telas e a necessidade de se provar autossuficiente, os vínculos sociais e a convivência acabaram...










