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A despedida da chupeta: quando tirar e como acolher a falta
A chupeta costuma ocupar um lugar muito importante na vida do bebê. Não à toa, em inglês, ela recebe o nome de pacifier — algo que literalmente pacífica, conforta e ajuda o bebê a se regular. Para muitas crianças, ela participou de momentos de relaxamento, sono, transições difíceis, choros, separações e adaptações. E durante muito tempo, isso pode ser extremamente positivo. Mas chega um momento em que a chupeta já cumpriu sua função. Aquilo que foi tão importante para o bebê começa, aos poucos, a deixar de fazer sentido no desenvolvimento da criança. E é justamente aí que entra a despedida.
Quando chega a hora de tirar a chupeta?
Muitas famílias perguntam: “Mas não é importante respeitar o tempo da criança?”. Sim. E, na maior parte das vezes, esse tempo acontece entre os 2 e 3 anos de idade, dependendo da avaliação do pediatra, dentista e da própria dinâmica da criança. Entram em jogo fatores como:
- frequência de uso;
- uso apenas para dormir ou ao longo do dia inteiro;
- alterações de arcada dentária; impacto na fala;
- dependência emocional do objeto; qualidade do sono;
- desenvolvimento da autonomia.
Claro que existem crianças que simplesmente deixam a chupeta espontaneamente antes disso. E ótimo quando isso acontece. Mas muitas não têm maturidade para concluir sozinhas que já não precisam mais dela. Afinal, crescer também envolve despedidas importantes: da mamadeira, do peito, das fraldas, do berço — e da chupeta. Isso não significa dizer “você já é grande”. Pelo contrário. A criança pode ser ainda pequena para várias coisas e, ainda assim, já estar numa fase adequada para essa transição. Por isso, em vez de frases como “chupeta é coisa de bebê”, costuma ser mais respeitoso localizar a criança no próprio desenvolvimento: “Agora você tem dois anos.” “Chegou a hora da despedida da chupeta.”
Tirar antes dos dois anos ou depois?
Há famílias que preferem retirar antes dos dois anos. E isso pode funcionar muito bem. Antes dessa idade, o bebê ainda não consegue compreender profundamente toda essa ideia de despedida. A retirada costuma ser mais concreta: “A chupeta foi embora.” “Acabou.” “Tchau, chupeta.” Sem grandes explicações simbólicas. Algumas famílias optam por isso justamente porque preferem retirar ainda no berço, antes da transição para a cama e antes de uma fase mais oposicionista. E faz sentido. Quando a retirada acontece já perto dos três anos, algumas crianças podem resistir muito mais, sair da cama repetidamente ou até abandonar a soneca “no tranco” da retirada. Por isso, não existe uma única forma certa. Existe o melhor momento para cada família e cada criança.
O verdadeiro gradual
Quando a chupeta é usada para tudo, ela acaba tendo uma função muito maior do que apenas ajudar a dormir. Ela aparece:
- no carro;
- no tédio;
- nas frustrações;
- no cansaço;
- nas quedas;
- nos momentos de estresse;
- nas separações;
- nas transições do dia.
Por isso, antes de pensar na retirada definitiva, muitas vezes é importante restringir primeiro o uso apenas ao sono. Esse costuma ser o verdadeiro processo gradual. O gradual não é “tirar a chupeta da soneca, mas manter à noite”, ou “deixar só algumas chupetas”. Porque, enquanto existe chupeta, ainda existe expectativa e apego. Enquanto tem chupeta, tem chupeta. Para muitas crianças, manter “um pouquinho” acaba sendo mais confuso do que a despedida definitiva.
Algumas famílias tentam cortar a pontinha da chupeta. Em alguns casos, a própria criança começa a rasgar a chupeta naturalmente, e isso pode ajudar a construir a ideia de que ela está velha. “Olha como ela está estragada.” “Parece que chupeta está chegando ao fim.” Mas isso geralmente não convence desapegar. Tem crianças que mesmo furada continuam usando a chupeta. Saibam que enquanto ainda existir uma única chupeta, ela continua valendo emocionalmente para a criança. Então gradual é não tirar aos poucos, é desvincular primeiro, de outros momentos e situações do dia para depois ocorrer a despedida final no que se refere ao sono.
Como preparar a criança para a despedida
Depois da preparação, chega o momento da despedida. E é importante que a criança participe disso de alguma forma. Ela pode:
- colocar a chupeta num baldinho para a fada buscar;
- entregar ao Papai Noel;
- pendurar numa árvore de chupetas; colocar num cestinho do coelhinho da Páscoa;
- participar de um enredo com personagens que goste. Livros e histórias ajudam muito nessa preparação.
Não porque a criança vá compreender exatamente quando a chupeta irá embora, mas porque permitem que o assunto comece a circular de forma lúdica e previsível. Muitas famílias tentam marcar uma data: “no Natal”, “quando o coelhinho vier”, “semana que vem”. Mas crianças pequenas ainda não têm uma noção concreta de tempo. Isso pode gerar ansiedade e uma sensação de que, a qualquer momento, algo vai acontecer. O livro entra justamente como uma forma mais leve de preparação emocional, sem transformar a retirada numa contagem regressiva angustiante.
Ela só vai lidar com a falta… na falta
Muitas crianças entregam felizes a chupeta durante o dia e só percebem realmente o que aconteceu na hora de dormir, ou durante um despertar noturno. Porque a criança só vai lidar com a falta… na falta. E aí entra uma das partes mais importantes desse processo: o acolhimento. Toda despedida importante pode gerar tristeza, protesto, irritação e dificuldade de adaptação. Isso não significa trauma. A retirada da chupeta não é a ausência de acolhimento. É justamente a presença do adulto sustentando, com segurança e afeto, uma mudança importante no desenvolvimento da criança.
Algumas crianças não falam mais sobre a chupeta depois da despedida. Elas sentem a falta, mas silenciosamente vão reorganizando novas formas de relaxar e se regular. Outras se arrependem, pedem de volta, falam dela repetidamente. Nesses casos, os adultos acolhem a saudade, explicam para onde a chupeta foi e sustentam a decisão com calma e segurança.
Quando a criança pede a chupeta de volta
Existe um ponto muito importante aqui: muitas vezes, quem não suporta a falta não é a criança, mas o adulto diante do sofrimento dela. É comum que pais sintam culpa, medo de traumatizar ou vontade de “só devolver por hoje”. Mas a retirada e devolução repetida costuma aumentar ainda mais o apego, porque a criança passa a entender que a chupeta pode voltar a qualquer momento. Isso costuma deixar a retirada mais difícil e mais confusa emocionalmente.
Quando a chupeta é substituída por outra coisa
Algumas crianças podem tentar substituir a chupeta por outros hábitos, como:
- chupar dedo;
- puxar cabelo;
- roer unhas.
Nesses casos, os pais observam e tentam intervir logo no início, para que esse novo hábito não se consolide como substituto da chupeta. Quando a criança começa, por exemplo, a chupar o dedo de forma persistente, algumas famílias optam por usar órteses próprias para impedir o movimento, justamente para evitar que esse comportamento se torne mais difícil de interromper depois. Também existe uma situação muito comum: a criança que aparentemente “tirou super bem” a chupeta, mas passou a acordar mais à noite pedindo outras coisas.
Na verdade, muitas vezes ela não substituiu a chupeta por acaso. Ela se apoiou no que já existia. Uma criança que dormia com a presença dos pais no quarto até pegar no sono, pode passar a exigir companhia a noite toda. Outra que tomava uma mamadeira ocasional pode começar a pedir várias. Outra que dormir no colo no início da noite passa a acordar nos despertares noturno e passa a precisar de colo. Por isso, quando a família decide retirar a chupeta, é importante observar se existem outras associações que não se sustentam durante toda a noite. Porque, na falta da chupeta, a criança tende a se apoiar naquilo que está disponível e já conhecido.
O alinhamento entre os adultos
A consistência dos adultos é fundamental. Antes da retirada, pais, avós, babás e cuidadores precisam conversar e alinhar como irão agir. Porque basta um adulto oferecer a chupeta escondido, ou “ficar com pena”, para o processo ficar muito mais confuso para a criança. A retirada da chupeta exige consistência emocional dos adultos. Isso não significa ausência de acolhimento, mas segurança para sustentar uma decisão que foi tomada pensando no desenvolvimento da criança. Também é importante escolher uma boa janela para essa transição. Nem sempre é o melhor momento quando:
- nascimento próximo de um irmão;
- começou a adaptação escolar;
- haverá mudança de casa;
- a família está vivendo uma fase muito estressante;
- haverá viagens longas;
- está acontecendo desfralde;
- a criança está doente;
- os adultos estão emocionalmente esgotados.
O despertar da manhã sem chupeta
Muitas crianças passam a acordar mais cedo após a retirada, porque antes conseguiam voltar a dormir sozinhas ao encontrar a chupeta no berço ou na cama. Nesses casos, ajuda muito oferecer uma pista clara de “bom dia”:
- a claridade do ambiente;
- uma luz programada;
- um relógio visual;
- uma luzinha que acende apenas no horário de levantar.
Isso permite que a criança tenha um pequeno tempo de espera e até a oportunidade de voltar a dormir, sem a expectativa de que o dia começou imediatamente.
A retirada da chupeta e as sonecas
As sonecas merecem um capítulo à parte. O sono noturno costuma suportar mais resistência porque a pressão de sono vai aumentando ao longo da noite. Já a soneca é mais delicada. Existe uma janela curta. Se a criança resiste demais, ela pode simplesmente perder a soneca.
Por isso, durante a retirada da chupeta, as sonecas às vezes precisam de mais flexibilidade:
- carrinho;
- rede;
- “hora do descanso”;
- sofá;
- colo eventual;
- adaptação temporária da rotina.
Não para substituir a chupeta definitivamente por outra associação, mas para preservar algum descanso durante um período de adaptação. Especialmente perto dos três anos, algumas crianças acabam abandonando a soneca “no tranco” da retirada da chupeta, porque o sono do dia já estava biologicamente mais frágil.
Crescer também é se despedir
Crescer também é aprender a lidar com pequenas faltas. E a chupeta costuma ser uma das primeiras grandes despedidas da infância. Uma despedida que pede acolhimento, constância, previsibilidade e adultos capazes de sustentar, junto da criança, essa travessia.
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Deborah Moss
É neuropsicóloga, especialista em sono infantil, mestre em psicologia pela USP, educadora parental e autora do livro Hora de Nanar
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