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Você é o “cérebro da casa”? Como a carga mental tem adoecido as mães

Se você é a pessoa que sabe onde está tudo na casa, que antecipa a troca de uniforme, lembra quando é preciso agendar uma consulta do pediatra, repara que a pasta de dente está acabando e ainda organiza a rotina de todo mundo, você é o “cérebro da casa”. A impressão que dá é que você tem que segurar as pontas sempre, sem folga, porque, no minuto em que você soltar as rédeas… tudo desaba. Isso inclui continuar se esforçando física ou mentalmente, mesmo durante intervalos de descanso. Reconhece a situação?
É que essa descrição é mesmo familiar para a maioria das mulheres. E não é à toa. A Organização Internacional do Trabalho (OIT) aponta que, no mundo, as mulheres realizam mais de 76% do trabalho doméstico e de cuidados de forma não remunerada. No Brasil, segundo o IBGE, elas dedicam quase o dobro de horas semanais ao trabalho invisível, em comparação com os homens. Mesmo quando ambos trabalham fora, a gestão emocional, logística e operacional da casa ainda recai sobre elas.
É a chamada carga mental, um conjunto de tarefas que não aparecem, mas estão sempre rodando em segundo plano, como abas mentais que nunca fecham. Pesquisas realizadas na França, onde o termo foi popularizado, mostram que a carga mental constante está associada a exaustão, queda de produtividade, irritabilidade, sobrecarga emocional e burnout parental.
E, enquanto isso, muitas mães continuam ouvindo que “é normal”, que “é assim mesmo”, que “elas dão conta”. Somos herdeiras de gerações de mulheres que carregaram tudo sozinhas e chamaram isso de força. As mulheres “guerreiras”. Crescemos assistindo figuras femininas que não descansavam, não pediam ajuda, não tinham autorização para falhar. Então engolimos a culpa quando não conseguimos reproduzir esse modelo impossível.
Mas a verdade é simples: não existe descanso quando você é o cérebro da casa.
E não, isso não tem nada a ver com capacidade. Tem a ver com estrutura. Com o que aprendemos ser “função de mãe”. Com a crença — cultural, histórica e profundamente desigual — de que todas as necessidades dos filhos, do marido, da casa, são automaticamente responsabilidade feminina.
Só que uma hora, a conta chega e o custo é bem alto. Estudos da American Psychological Association (APA) mostram que as mães apresentam níveis significativamente mais altos de estresse e burnout do que pais. Uma das razões é justamente a sobrecarga de planejamento, antecipação e organização que ninguém vê.
A saúde mental tem sido uma preocupação crescente. Em setembro, mês dedicado à conscientização sobre a questão, o Brasil liderou as buscas pelo termo “burnout”. De acordo com um levantamento da plataforma Psitto, o Brasil registrou 569 mil buscas no Google no período, número que ultrapassou de longe os outros países.
Dividir para sobreviver
Nem deveria precisar, porque o próprio fato de “pedir ajuda” é exaustivo. Mas entender que gerir um lar é trabalho real, complexo, contínuo e que não deveria ser delegado exclusivamente à mãe é um passo essencial para a saúde mental, para relações mais equilibradas e até para a parentalidade.
Dividir essa carga passa por reorganizar tarefas, redistribuir funções e contratar apoio, quando possível. Também é importante entender que você não precisa ser perfeita e que, em algum momento, tarefas vão ficar para trás, para que você exista como pessoa e não só como cuidadora ou gerente da casa. Oferecer presença só é possível quando a mente não está sendo consumida por listas infinitas. No fim, a maior virada é emocional: entender que pedir ajuda não é sair do jogo. É, finalmente, deixar de jogar sozinha. É admitir que o peso é grande demais para uma única pessoa.
Quando essa ficha cai, algo poderoso acontece: você recupera horas da sua semana, mas também recupera algo ainda mais precioso, você mesma.
Canguru News
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