Vínculo e natureza: Precisamos dormir com nossos filhos?

Outro dia vi um post com a imagem de uma elefanta dormindo junto com seu filhote. A mensagem era mais ou menos esta: “Está vendo? Somos mamíferos. Na natureza, os filhotes dormem junto de suas mães. Por que queremos colocar nossos filhos para dormir separados?” Os comentários foram quase tão interessantes quanto a própria postagem.

Muitas mães levantaram a bandeira da cama compartilhada: “É da natureza dos mamíferos dormir junto”, “Meu filho vai dormir comigo enquanto quiser”, “Quero meus filhos na minha cama até serem adultos”. Outras trouxeram um pouco da vida real para a discussão. Uma escreveu: “Mas essa mãe elefanta não é CLT.” Outra comentou: “Esse filhotinho está dormindo sossegado. O meu filho passa a noite me dando pontapé.”

Polêmicas à parte, existe uma pergunta importante por trás dessa discussão: Como respeitar a natureza e as necessidades do sono dentro da realidade de uma família humana atual? Já que somos mamíferos, vale olhar um pouco mais para eles. Chimpanzés, nossos parentes evolutivos próximos, constroem verdadeiras plataformas de galhos nas árvores para dormir. Seus filhotes inicialmente dormem junto das mães e, 1conforme crescem e amadurecem, passam progressivamente a construir e utilizar seus próprios ninhos.

O filhote do canguru passa os primeiros meses dentro da bolsa materna. Conforme cresce, começa a sair, volta para a bolsa durante algum tempo e, em determinado momento do desenvolvimento, deixa de utilizá-la. Ou seja: até entre os mamíferos, a forma de dormir não é única e se transforma conforme o filhote se desenvolve

Proximidade e autonomia podem fazer parte de diferentes momentos desse processo. Com os seres humanos não é diferente. Nós também transformamos a maneira de dormir ao longo da nossa história. Nossos ancestrais já dormiram no chão. Hoje, felizmente, fizemos alguns upgrades na caverna: vieram paredes, quartos, colchões e camas.

Para nossos bebês, criamos berços. Isso não nos tornou menos humanos. Significa apenas que adaptamos uma necessidade biológica — dormir — às condições, aos conhecimentos e à vida que temos hoje. E é justamente aí que entra a autonomia do sono. Um bebê de seis meses não é mais um recém-nascido. A partir dessa fase, ele já adquiriu novas habilidades motoras e neurológicas. Vira, gira, movimenta braços e pernas, procura posições e precisa de espaço para acomodar o próprio corpo. O colo continua sendo maravilhoso.

Continua sendo lugar de afeto, carinho, aconchego e regulação. Mas ele não precisa necessariamente continuar sendo o lugar onde o sono acontece. A partir dos seis meses, um bebê saudável pode dormir em seu próprio quarto, em um berço seguro, sem que um adulto precise permanecer ali durante toda a noite. Isso não significa que ele deva sair do quarto dos pais aos seis meses. Significa que ele pode. E colocá-lo acordado no berço não significa retirar afeto.

Depois de um ritual de sono com colo, beijo, carinho, história, música e presença, esse bebê pode ir acordado para seu espaço e ter a oportunidade de encontrar sua própria maneira de adormecer. Ali ele pode virar, girar, movimentar o corpo, procurar uma posição confortável e construir progressivamente seus próprios recursos para entrar no sono.

Autonomia com presença não é retirada de afeto. É transformação da forma de ajuda. E isso também é desenvolvimento. Também precisamos entender que o sono humano não é uma linha reta. Nós não “apagamos” no começo da noite e só voltamos à consciência pela manhã. O sono acontece em ciclos. Ao longo da noite, passamos por diferentes estágios e pequenos despertares fazem parte da arquitetura normal do sono.

Se um bebê aprendeu que dormir significa estar mamando, sendo embalado ou no colo, é compreensível que procure novamente essas mesmas condições quando emerge do sono durante a madrugada. Não porque peito, colo ou movimento sejam ruins. Mas porque aquela foi a maneira que ele aprendeu para adormecer. E aquilo que foi aprendido também pode ser reorganizado.

A partir dos seis meses, muitos bebês saudáveis já conseguem passar longos períodos durante a noite sem se alimentar e não precisam de múltiplas mamadas. Alguns ainda precisarão de uma mamada noturna, e isso deve ser avaliado individualmente e alinhado com o pediatra. Mas existe uma diferença importante entre precisar de uma mamada e precisar mamar em todos os despertares para conseguir voltar a dormir.

E aqui voltamos à cama compartilhada. Para algumas famílias, dormir junto funciona muito bem. Todos gostam, todos descansam e essa é uma escolha daquela família. Para outras, não. E, às vezes, nem estamos falando exatamente de cama compartilhada. Estamos falando de mãe compartilhada. O bebê não quer simplesmente dormir ao lado dela. Precisa dormir mamando. Se a mãe retira o peito, ele desperta. Se ela muda de posição, ele desperta.

Se quer levantar para jantar, tomar banho ou simplesmente sair da cama, ele desperta. E então existe uma pergunta que também precisa fazer parte dessa conversa: Essa mãe está descansando? Porque proximidade é uma coisa. Privação de sono é outra. E qualquer organização envolvendo cama compartilhada precisa considerar cuidadosamente a segurança do bebê. Uma cama de adulto não foi originalmente projetada como superfície de sono infantil e, portanto, essa escolha também exige cuidados específicos.

Talvez, então, não precisemos escolher uma bandeira. Dormir junto pode ser uma escolha amorosa. Ensinar autonomia também pode. Uma mãe não precisa oferecer o próprio corpo durante toda a noite para provar vínculo. E um bebê não deixa de ser amado porque aprendeu a dormir em seu próprio espaço. Da mesma forma, uma família que gosta de dormir junta, está segura e descansa bem dessa maneira não precisa mudar simplesmente porque existe um berço no quarto ao lado.

A pergunta não precisa ser: “Qual dessas formas é mais natural?” Podemos voltar à pergunta do início: Como respeitar a natureza e as necessidades do sono dentro da realidade de uma família humana atual? Talvez a resposta comece por outras perguntas: É seguro? A criança está descansando? Seus pais estão descansando? Essa organização funciona para essa família? Porque maternidade não deveria exigir exaustão como prova de amor. Os primeiros meses de vida de um bebê realmente podem trazer noites fragmentadas e muita necessidade de ajuda. Mas desenvolvimento significa mudança.

Aquilo de que um recém-nascido precisava não será necessariamente aquilo de que um bebê de seis, nove ou doze meses continuará precisando. Vínculo também é oferecer segurança para crescer. Autonomia não é o contrário de apego. E vínculo não se mede pela distância entre dois corpos durante a noite. Um bebê pode saber que seus pais estão disponíveis, que será acolhido quando precisar e que é profundamente amado — e, ao mesmo tempo, construir uma nova certeza: “Meus pais estão perto. Eu estou seguro. E eu também consigo dormir no meu quarto, no meu espaço e do meu próprio jeito.”

Deborah Moss

É neuropsicóloga, especialista em sono infantil, mestre em psicologia pela USP, educadora parental e autora do livro Hora de Nanar

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