Talvez seu filho precise saber o que é misoginia mais cedo do que você imagina

A violência contra uma adolescente de 17 anos no Rio de Janeiro é mais uma, entre tantas notícias que caem como uma bomba. São acontecimentos que reforçam uma pergunta incômoda: que tipo de educação estamos oferecendo aos nossos meninos?
A misoginia deve ser explicada desde cedo Foto: Freepik

A notícia de que cinco homens emboscaram e violentaram uma adolescente de 17 anos no Rio de Janeiro não é apenas mais um caso brutal na estatística da violência sexual no Brasil. É também um espelho. Dói para mães e pais de meninas: como vamos deixar nossas filhas serem livres, sabendo que elas correm riscos todos os dias? Mas dói também para mães e pais de meninos, porque é um reflexo duro do que falhamos em ensinar ou do que seguimos normalizando na formação emocional e ética deles.

Diante de crimes assim, é comum que a sociedade reaja com indignação momentânea. Mas, passada a comoção, voltamos à rotina. O que raramente fazemos é olhar para dentro das nossas casas, das escolas, dos grupos de amigos dos nossos filhos e perguntar: o que estamos ensinando sobre misoginia, sobre masculinidade e sobre respeito às meninas?

Meu filho ainda é muito pequeno e, às vezes, eu me pergunto se ainda não é muito cedo para conversar com ele sobre uma realidade difícil e espinhosa. Como colocar uma criança tão pequena diante do espelho e fazer com que ele enxergue que ele faz parte de um gênero capaz de destruir, invadir, invalidar outras pessoas? Por outro lado, se ele não aprender e não souber com o nosso carinho, vai aprender na rua, ou pior: na internet. E é por isso que talvez a gente precise ter uma conversa difícil sobre misoginia – e isso precisa acontecer o quanto antes!

Misoginia é o ódio, desprezo ou desvalorização das mulheres simplesmente por serem mulheres. Ela pode aparecer de forma explícita, em agressões físicas e verbais, mas também de maneira sutil: em piadas que objetificam, em comentários que culpabilizam vítimas, na ideia de que meninas “provocam” ou que meninos “não conseguem se controlar”.

Se um menino cresce ouvindo que “homem é assim mesmo”, que precisa “pegar geral” para provar sua masculinidade, que chorar é sinal de fraqueza e que meninas são prêmio ou propriedade, estamos plantando sementes perigosas. A violência extrema não nasce do nada. Ela é precedida por pequenas permissões culturais.

A educação dos meninos começa cedo

Muitos pais conversam com as filhas sobre como se proteger. Poucos conversam com os filhos sobre como não agredir. Ensinar um menino sobre misoginia não significa culpá-lo, mas responsabilizá-lo. Significa explicar, desde cedo:

  • O que é consentimento.
  • Que “não” é uma frase completa.
  • Que ninguém deve tocar o corpo de outra pessoa sem permissão.
  • Que piadas ofensivas não são inofensivas.
  • Que respeitar mulheres não é gentileza e sim obrigação.

Também significa rever nossas próprias atitudes. Afinal, é pelo exemplo que as crianças aprendem de verdade como o mundo funciona. Como falamos das mulheres dentro de casa? Como reagimos quando um amigo faz um comentário machista? Como dividimos tarefas em casa? O cotidiano ensina mais que o discurso.

A cultura que ensina que homem precisa dominar, competir o tempo todo e provar virilidade cria um terreno fértil para abusos. Quando a masculinidade está atrelada à ideia de conquista e posse, o corpo feminino vira território. É urgente oferecer outros modelos e mostrar que ser homem inclui cuidado, empatia, vulnerabilidade e respeito. Saber ouvir, recuar, pedir desculpas também representa força.

Conversas difíceis salvam vidas

Falar sobre misoginia com crianças e adolescentes pode parecer desconfortável. Mas o silêncio custa caro e quem paga são meninas e mulheres. A violência sofrida pela adolescente no Rio de Janeiro não é um caso isolado. Ela é parte de uma estrutura que normaliza a objetificação e minimiza agressões. Cada família tem um papel na ruptura desse ciclo.

Talvez seu filho ainda seja pequeno. Talvez você ache que ele “não tem idade para isso”. Mas, se ele já consome internet, já escuta piadas na escola, já observa como adultos se comportam, então ele já está aprendendo, com ou sem a sua orientação.

A pergunta não é se devemos falar sobre misoginia com nossos meninos. A pergunta é: vamos deixá-los aprender sobre isso sozinhos, nas redes e nos grupos de amigos, ou vamos assumir a responsabilidade de ensinar que respeito não é opcional? Educar meninos para que não se tornem agressores é, também, uma forma importante de proteger meninas.

 

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