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Se o grupo de mães faz você se sentir insuficiente, o problema não é você

O grupo de mães deveria ser um lugar de apoio. Um espaço para trocar dúvidas, rir dos perrengues e se sentir menos sozinha na montanha-russa que é a maternidade. Mas, para muitas mulheres, esses ambientes, sejam eles presenciais ou no WhatsApp, na escola ou nas redes sociais, acabam virando o oposto: um território de comparação, cobrança e sensação constante de inadequação.
Basta conversar um pouco mais a fundo com alguma mãe que acabou deixando um desses grupos, para se deparar com desabafos. As histórias podem ser diferentes, mas, no final, a sensação é a mesma: são mulheres que entram em grupos buscando acolhimento, mas saem se sentindo as piores mães do mundo. Sabe quando parece que todo mundo dá conta de tudo, da alimentação, à rotina, passando pela política de zero telas, menos você?
A maternidade moderna vem acompanhada de uma cultura de desempenho, em que ser mãe virou quase uma competição silenciosa e o fenômeno já virou tema de diversas pesquisas, na área da psicologia. Estudos da psicóloga australiana David Berle, da University of Technology Sydney, por exemplo, mostram que a comparação constante com outras mães — especialmente nas redes sociais — está associada a mais ansiedade, perfeccionismo e sensação de fracasso materno. Já a pesquisadora Molly K. Tate, da Texas Woman’s University, analisa o impacto da chamada ideologia da maternidade intensiva, que reforça a ideia de que uma “boa mãe” deve ser totalmente dedicada, incansável e sempre disponível — um padrão que alimenta culpa, autocobrança e exaustão emocional. Resumindo: as mães sentem que precisam provar o tempo todo que são boas o suficiente, mesmo quando estão cansadas, sobrecarregadas ou precisando de apoio. Já aconteceu com você? Porque, aqui, é o tempo todo.
Apoio ou mais pressão?
Grupos de mães podem reforçar padrões irreais: quem amamenta por mais tempo, quem não oferece telas, quem prepara somente refeições balanceadas e orgânicas, quem tem filhos “bem-comportados”. Muitas vezes, as críticas não vêm em forma de ataque direto, mas de comentários travestidos de conselho.
Frases como “eu nunca faria isso”, “no meu tempo funcionava melhor” ou “você já tentou educar de verdade?” podem parecer pequenas, mas vão gerando aquele peso emocional, que vai se tornando insuportável. Esse tipo de convivência pode intensificar culpa, ansiedade, esgotamento e sensação de fracasso, especialmente em mulheres já massacradas pela carga mental e pela responsabilidade do cuidado.
A comparação constante machuca
A comparação social é um dos fatores que mais contribuem para a insatisfação materna e para o sentimento de “não ser suficiente”. Em ambientes onde só aparecem os acertos — e nunca os erros, o cansaço ou as dúvidas — cria-se a ilusão de que todas estão dando conta, menos você.
Levantamentos conduzidos por pesquisadores da Fiocruz sobre saúde mental materna durante o ciclo da gravidez e do puerpério mostram que a sobrecarga de responsabilidades, a pressão para dar conta de tudo e a falta de apoio efetivo estão entre os principais fatores associados ao sofrimento psíquico de mulheres no pós-parto. Outros estudos revelam que ambientes marcados por julgamento, idealização e baixa empatia podem agravar o sentimento de culpa, inadequação e solidão, reforçando a importância de redes de apoio mais acolhedoras e políticas públicas voltadas à saúde mental das mães. O problema não está na mãe que se sente insuficiente, mas na narrativa que diz que ela deveria ser perfeita. Só que, na maioria das vezes, nos esquecemos disso.
Microagressões maternas: o julgamento que ninguém nomeia
Em muitos grupos, o clima não é de apoio, mas de vigilância. Cada decisão, em relação ao parto, amamentação, retorno ao trabalho, disciplina, alimentação, vira um marcador de valor. Esse fenômeno tem sido chamado por especialistas de microagressões maternas: pequenas falas ou atitudes que, somadas, ferem a autoestima e minam a confiança. Especialistas em saúde mental materna apontam que o julgamento entre mães reflete uma pressão social maior sobre as mulheres, historicamente cobradas por perfeição e responsabilizadas de forma desproporcional pelo cuidado.
Por redes mais gentis
Nem todo grupo precisa ser assim e mãe nenhuma é obrigada a permanecer em espaços que só causam feridas. A gente precisa lembrar que se afastar de ambientes tóxicos não é fracasso: é proteção emocional. Não hesite em sair de um grupo que te faz mal. Em vez disso, crie ou busque redes mais seguras e honestas, com amigas, profissionais, coletivos acolhedores ou outras mães que praticam empatia. Com certeza, elas estão por aí, te esperando com um abraço caloroso.
A maternidade não deveria ser uma prova de resistência, nem um campeonato de perfeição. É uma jornada humana, imperfeita, cansativa e cheia de amor. Se um grupo de mães faz você se sentir insuficiente, é importante lembrar: o problema não é você.
Canguru News
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