Os vídeos de “arrume-se comigo” estão bagunçando a cabeça das meninas

Sua filha também adora assistir outras pessoas se maquiando e arrumando os cabelos e até passou a gravar vídeos dela fazendo o mesmo? Precisamos conversar sobre isso
Criança na frente do espelho Foto: Freepik

Uma faixa de cabeça fofinha, com um laço em cima, produtos de skincare, espuma facial, mousse, sabonete, esponja, corretivo, base, iluminador, gloss, um espelho e um celular gravando, enquanto uma pessoa prepara e maquia a pele e conversa com os seguidores. Você certamente já se deparou com milhares de vídeos assim no feed das suas redes sociais. Se você tem uma filha ou convive com alguma menina, criança, pré-adolescente ou adolescente, pode ter certeza de que a timeline que ela acessa é pelo menos dez vezes mais alimentada exatamente com esse tipo de conteúdo.

Eu tenho uma filha adolescente e sei que ela consome bastante os chamados vídeos de “arrume-se comigo”. Não à toa, ela ama maquiagem, não pode juntar um dinheirinho que gasta com cosméticos, tem mil produtos para cuidar da pele e do cabelo, acorda todo dia bem mais cedo que o horário da escola para fazer todo um ritual de beleza. Não só ela, como todas as amigas.

Como uma pessoa com zero talento e paciência para maquiagens e afins, sempre achei isso muito estranho. Nessa idade, era menos ainda. No início, eu não deixava. Aos poucos, vi que se tornou algo comum. Fui aceitando que ela era diferente de mim, que gostava de se cuidar e que são hábitos que se tornaram frequentes, normalizados, rotineiros para esta geração. Ainda assim, nunca achei que estivesse tudo bem. Não entra na minha cabeça que meninas de 11 ou 12 anos acreditem que precisam usar corretivo na pele! Corrigir o quê, meu Deus? Com essa pele lisinha, de criança, colágeno no auge? Quando eu falo isso para ela, a resposta vem com olhos revirados: “Ai, mãe, você não entende”. Não, não entendo.

Na verdade, acho que entendo sim. Entendo que há toda uma indústria por trás disso. Nos últimos dias, me deparei com um vídeo, também nas redes sociais, que, a princípio, parecia mais um “arrume-se comigo”. Mas era muito mais! Um pai e uma filha diante das câmeras, faixinhas na cabeça, pareciam prontíssimos para iniciar o skin care. No entanto, eles dão uma aula sobre o que realmente está por trás desse tipo de vídeo.

Para contextualizar, a menina é Saige, uma garota de 13 anos. Quando pediu um celular ao seu pai, John, ele ficou preocupado com os possíveis impactos do uso da internet e das redes sociais por uma adolescente. Então, decidiu participar e tentar aprender sobre os temas e trends junto com ela. Assim surgiu o perfil @teen_tech_experiment, onde eles compartilham o que têm visto e compreendido sobre o uso das redes na infância e na adolescência.

O vídeo sobre o “arrume-se” me pegou porque, em questão de minutos, eles explicam a lógica por trás dessa teia, que captura nossas meninas e faz com que elas acreditem que há algo errado com a aparência delas. A filha começa, toda radiante, saudando a audiência e explicando que eles vão se arrumar. John pergunta: se arrumar para quê? E Saige joga a verdade: “Para nada”. Quando o pai diz que não faz sentido, ela explica: é assim que a vida funciona.

“Um vídeo de ‘arrume-se’ comigo é um vídeo em que as pessoas fingem se arrumar, mas, na verdade, é publicidade”, diz a menina. “É como um comercial, mas para crianças, que não sabem que isso é um comercial”. Pelo diálogo, eles explicam como as empresas lucram, entregando insegurança e vendendo produtos que prometem resolver problemas, que nem existem. “Se um vídeo faz você se sentir mal com você mesma, alguém provavelmente está ganhando dinheiro com isso”, dispara Saige. “E se você tem 13 anos, você não é o cliente, você é o produto”, completa.

O vídeo mostra que conversar, escutar, participar e entrar no mundo dos adolescentes para compreender a perspectiva deles é uma solução possível. É um caminho do meio, que funciona melhor do que simplesmente proibir e colocar mil regras ou, pior, permitir tudo e não supervisionar nada. Além disso, escancara a forma como a indústria lucra, com propagandas disfarçadas de conteúdo espontâneo, sem nenhum tipo de regulação.

Qual o efeito disso na cabeça de meninas tão jovens? Fazer com que elas acreditem que não são suficientes e que PRE-CI-SAM do gloss TU-DO da blogueira X ou que não podem viver sem o body splash da influenciadora Y. É preciso muito diálogo para trazer consciência e separar o que é brincadeira ou mesmo um nível saudável de autocuidado e autoestima, do que é ser uma presa fácil para predadores sempre ávidos por aumentar o consumo e o volume dos próprios bolsos.

Assista ao (ótimo!) vídeo aqui: https://www.instagram.com/p/DUUGu2gkXN6/

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