Artigos
“O belo caos do coração de uma mãe”: o que o discurso no Oscar nos lembra sobre a maternidade
“Este filme me ensinou muito sobre o coração de uma mãe. Sobre a alegria, o medo e a força que vivem juntos dentro dele. Então eu gostaria de dedicar isso ao belo caos que existe no coração de uma mãe. E às mulheres que vieram antes de nós, que criaram, amaram, lutaram e mantiveram as histórias vivas”.
Foi com essas palavras que a atriz irlandesa Jessie Buckley encerrou seu discurso ao ganhar o Oscar por Hamnet, filme inspirado no romance de Maggie O’Farrell que imagina a história da família de William Shakespeare após a morte do filho do casal.
Quando ouvi esse discurso fiquei paralisada na dedicatória do prêmio ao “belo caos que existe no coração de uma mãe”. Porque é isso mesmo. A maternidade envolve um amor que é lindo, barulhento, apertado, enorme, complexo: um caos. Mas não é qualquer caos. É um belo caos. É um lugar de sentimentos intensos e, muitas vezes, contraditórios.
É um lugar de amor profundo, mas também de medo. De alegria enorme, mas também de exaustão. De força, mas também de vulnerabilidade. Quando um filho nasce, algo muda profundamente dentro de uma mulher. Na verdade, acho que é mais do que isso: a gente renasce também. O puerpério é um período de aceitação desse renascimento, como outra pessoa.
É como se o coração batesse fora do nosso corpo. De repente, o amor se mistura com um medo constante, de que algo aconteça. Será que o bebê está respirando? Será que está mamando o suficiente? Depois, vão mudando os temores. Será que vai cair? Será que vai ficar bem na escola? Será que não vai chorar na primeira vez em que dormir na casa do amiguinho? A gente imagina os cenários mais catastróficos e, ao mesmo tempo, sabemos que precisamos estimular a autonomia e a independência. Afinal, o objetivo é criar seres humanos que saibam voar sozinhos, quando chegar a hora. Mas não é fácil, não.
Entre erros e acertos, tropeços e conquistas, amor, medo, orgulho, noites mal dormidas, brigadeiros enrolados nas festinhas, fraldas, lancheiras e listas de material escolar, vamos vivendo a cada dia o caos da maternidade. Mas quer saber? Acho que é justamente nesse caos que mora a beleza. Teria graça se fosse tudo certinho? Uma receita? Uma fórmula? Não, né?
No filme, Jessie Buckley interpreta Agnes, mãe de Hamnet, o filho do dramaturgo inglês William Shakespeare, que morreu ainda criança. A história explora o luto da família, mas também a profundidade do vínculo entre mãe e filho. A narrativa mostra como a maternidade envolve uma conexão intensa, quase visceral, capaz de atravessar alegria, perda, silêncio e memória. Não é uma maternidade idealizada ou perfeita. É uma maternidade humana.
E talvez seja por isso que o discurso da atriz tenha tocado tantas pessoas: ele reconhece que ser mãe não é viver em equilíbrio constante. Quando nascemos é como se assinássemos um papel de olhos fechados, concordando com termos malucos, que atestam que, a partir dali, absolutamente tudo pode acontecer. Quando nos tornamos mães, assinamos outro contrato: além de qualquer coisa poder acontecer conosco, qualquer coisa, do céu ao inferno, também pode acontecer com o pequeno ser por quem nos tornamos responsáveis. E isso é ainda mais forte.
Outro trecho do discurso também chamou atenção: quando Buckley dedicou o prêmio “às mulheres que vieram antes de nós, que criaram, amaram, lutaram e mantiveram as histórias vivas”. A frase lembra que a maternidade nunca foi uma experiência individual. Cada mãe carrega consigo uma longa história de mulheres que vieram antes: avós, bisavós, tias, cuidadoras. Mulheres que, de diferentes maneiras, ajudaram a criar crianças, sustentar famílias e transmitir valores e histórias. Por trás da sua maternidade, há a das suas ancestrais. Certamente, maternidades diferentes, mas que, de certa forma, vivem em você – e nos seus filhos – até hoje.
A maternidade não é tranquila, previsível ou perfeitamente organizada e talvez nunca tenha sido. Ela é feita de noites sem dormir, de risadas inesperadas, de preocupações silenciosas e de momentos que ficam guardados para sempre na memória. Talvez por isso a expressão usada por Jessie Buckley tenha ressoado tanto: o coração de uma mãe é, de fato, um lugar caótico. Mas é um caos cheio de amor, que transforma, ensina e continua escrevendo histórias, que atravessam gerações.
Renata Menezes
É jornalista, entusiasta da maternidade e vive a intensidade (e as descobertas!) de ser mãe de um adolescente! Quando não está escrevendo aqui na Canguru News ou viajando com a família, você a encontrará nas quadras, recarregando as energias com suas amigas no time de handebol Master EG. Para ela, a maternidade é uma viagem constante — e ela adora compartilhar cada parada desse roteiro com nossas leitoras
VER PERFILAviso de conteúdo
É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita. O site não se responsabiliza pelas opiniões dos autores deste coletivo.
Veja Também
Guerreiras do K-Pop: o que fez a animação virar fenômeno e brilhar no Oscar
Mistura de música, ação, fantasia e cultura coreana transformou a animação em um verdadeiro hit mundial entre as crianças e...
Febre: nem sempre é preciso correr para o pronto-socorro; entenda quando se preocupar
A elevação de temperatura assusta e deixa muitos pais aflitos, com medo de complicações, como a convulsão. No entanto, ela...
Mpox: o que os pais precisam saber sobre a doença e o risco para crianças no Brasil
Casos seguem sendo registrados no país, mas autoridades descartam surto. Entenda como ocorre a transmissão, quais são os sintomas nas...
Beijinho de mãe sara mesmo? A ciência por trás da “mágica”
Mais do que gesto simbólico, o beijo ativa mecanismos cerebrais que modulam a dor e oferecem conforto emocional. Pediatra explica...










