Ninguém prepara a mãe para o momento em que a voz do filho muda

Oscilações entre grave e agudo, falhas no meio da frase e até uma leve rouquidão são transformações vocais esperadas, que fazem parte da puberdade. Mas atenção: alguns sinais podem indicar a necessidade de investigação
Nos meninos, a testosterona estimula um crescimento significativo da laringe, estrutura onde ficam as pregas vocais Foto: Freepik

A gente até sabe que, em algum momento, vai acontecer. Mas nunca estamos prontas para notar que aquele chamado, em uma voz tão infantil, às vezes até com errinhos de palavras e trocas de letras, vai mudar para um tom mais rouco, mais grave. Aquele “mamãe” vira “ô, mãe”. Nessas horas, a velocidade do tempo se escancara e o coração aperta. Cadê aquele bebezinho?

A mudança de voz dos adolescentes acontece tanto com os meninos, como as meninas, mas, neles, é mais perceptível. Para muitos, vira até motivo de vergonha. Para os pais, surge a dúvida: isso é normal? Está mesmo na hora?

Na maioria das vezes, sim. Essas mudanças fazem parte de um processo natural chamado muda vocal, que acontece durante a puberdade e marca uma etapa importante do crescimento. Durante esse período, o corpo passa por intensas transformações hormonais e a voz é uma delas.

Nos meninos, a testosterona estimula um crescimento significativo da laringe, estrutura onde ficam as pregas vocais. Elas se tornam mais longas e espessas e, quanto maiores, mais lentamente vibram. O resultado é uma voz progressivamente mais grave ao longo da adolescência.

Nas meninas, o processo também ocorre, mas de maneira mais sutil. Os hormônios femininos provocam pequenas alterações na laringe, deixando a voz um pouco mais encorpada e madura, embora sem a mudança brusca de tom que costuma acontecer com os meninos.

“Esse processo é chamado de muda vocal e geralmente acontece entre os 12 e 15 anos. É completamente normal que ocorram falhas e oscilações enquanto o adolescente se adapta ao novo padrão vocal”, explica a otorrinolaringologista Dra. Luciana Costa, do Hospital Paulista (SP).

A famosa “quebra” da voz acontece porque a laringe está crescendo rapidamente, enquanto o controle muscular ainda está em adaptação. É como se um instrumento musical tivesse mudado de tamanho de repente, mas o músico ainda estivesse aprendendo a tocá-lo. Por isso, durante algum tempo, podem surgir falhas inesperadas, mudanças bruscas de tom e até episódios leves de rouquidão. Em geral, essa fase é temporária e a tendência é que se estabilize conforme o corpo se adapta às novas proporções da laringe.

Ainda assim, é preciso ficar de olho em alguns sinais, que merecem atenção. Rouquidão que dura mais de 15 dias sem relação com gripe, dor ao falar, sensação frequente de “bolo na garganta”, cansaço vocal após pouco tempo de conversa ou perda recorrente da voz não são considerados parte normal da muda vocal. Se as quebras persistirem depois dos 17 ou 18 anos, também vale procurar avaliação médica para investigar melhor.

Hábitos da adolescência que podem prejudicar a voz

Além das mudanças hormonais, alguns comportamentos comuns nessa fase podem sobrecarregar as pregas vocais. Gritar em jogos ou torcidas, falar alto para competir com o barulho de ambientes movimentados ou com a música nos fones de ouvido e beber pouca água aumentam o atrito entre as pregas vocais.

Outro fator de risco é o uso de cigarro ou dispositivos eletrônicos para fumar. O calor e as substâncias inaladas podem provocar inflamação e ressecamento das vias aéreas, favorecendo problemas vocais.

Até mesmo o hábito de pigarrear com frequência pode ser prejudicial. Esse movimento provoca impactos repetitivos na laringe e acaba irritando ainda mais as pregas vocais.

Pequenos cuidados que fazem diferença

Algumas atitudes simples ajudam a proteger a voz nessa fase de mudanças. Manter uma boa hidratação é uma das mais importantes, porque a água ajuda a lubrificar as pregas vocais e reduzir o atrito durante a fala.

Também vale evitar extremos: nem gritar, nem sussurrar em excesso. Quando surgir a sensação de algo preso na garganta, o ideal é beber água em vez de pigarrear.

Depois de períodos de uso intenso da voz, como apresentações na escola, treinos ou longas conversas, fazer pequenas pausas pode ajudar na recuperação. Dormir bem e manter uma alimentação equilibrada também contribuem para o bom funcionamento da laringe. “A voz faz parte da identidade do adolescente. Entender essas mudanças e adotar cuidados simples ajuda a garantir uma transição saudável”, recomenda a especialista.

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