Matrescência: se você é mãe, deveria conhecer o significado desta palavra

Depois da chegada dos filhos, o pensamento parece fragmentado, interrompido, mais difícil mesmo de organizar. Faz toda a diferença entender que isso não significa perda de capacidade e sim uma profunda reorganização mental, que faz parte de um fenômeno ainda mais amplo: a matrescência. Já ouviu falar?
Você já tinha ouvido falar em matrescência?

Se você já se pegou esquecendo o que ia dizer no meio de uma frase, relendo e-mails antes de enviar ou tendo dificuldade de manter uma linha de raciocínio depois de ter tido filhos, saiba que não está sozinha. Esse tipo de relato é comum entre mães e faz parte de um quadro maior, que ganhou até nome: matrescência.

Mesmo quem sente na pele todos os efeitos desse fenômeno pode desconhecer o nome, mas, quando você entende o significado, parece que tudo fica mais claro. Sai aquela sensação de que algo estranho está acontecendo, de que nossa memória está indo embora, junto da cognição e, pior, de que estamos sozinhas nesse barco.

O termo “matrescência” foi cunhado ainda na década de 1970 pela antropóloga estadunidense Dana Raphael para descrever o processo de transformação que ocorre quando uma mulher se torna mãe, algo comparável à adolescência, mas que acontece na vida adulta. A matrescência envolve mudanças físicas, emocionais, sociais e mentais. Nos últimos anos, pesquisadores e especialistas têm chamado atenção para um aspecto pouco discutido dessa fase: a sensação de que a mente fica “fragmentada”.

Pensamento interrompido

São tantas tarefas ao longo do dia… Ao mesmo tempo, a gente precisa pensar em preparar comida, responder perguntas, lembrar compromissos, organizar rotinas e cuidar das necessidades das crianças, entre vários outros itens da nossa checklist interminável. Acontece por aí? Isso sem falar na criança pedindo atenção e disparando um zilhão de perguntas e comentários por segundo. É comum que, diante de tanta sobrecarga, física e mental, os pensamentos fiquem incompletos ou que sejam constantemente interrompidos.

Essa transformação na forma de raciocinar pode dar a impressão de que a capacidade de concentração diminuiu. É normal que algumas mães cheguem a duvidar da própria clareza mental ou acreditar que se tornaram menos eficientes. Mas não é bem isso, não…

Não é perda de foco; é reorganização mental

Na verdade, a maternidade altera profundamente a forma como o cérebro distribui atenção e prioridades. Em vez de funcionar de forma linear, focada em uma tarefa de cada vez, como acontece com todo o resto das pessoas, a mente de uma mãe passa a operar em um modo mais amplo, constantemente atento ao ambiente e às necessidades do filho.

Essa vigilância permanente faz com que parte da atenção esteja sempre “escaneando” sinais de segurança, emoções e demandas da criança. Como resultado, o pensamento pode parecer mais fragmentado, mas na verdade está adaptado a um novo tipo de responsabilidade.

A matrescência envolve uma série de mudanças psicológicas e sociais que reorganizam a identidade e a forma de perceber o mundo, adaptando a mente para uma função extraordinária: a de criar um ser humano. Ou mais de um, em alguns casos.

Identidade em transformação

Durante essa transição, é comum também sentir que a sua “antiga eu”, a personalidade anterior à maternidade, tenha ficado temporariamente suspensa ou misturada à nova. É um processo um pouco confuso, porque pode gerar sentimentos ambivalentes: um amor intenso por aquele bebê, embolado a dúvidas, cansaço extreme e a uma sensação de perda de autonomia.

Tudo isso também está contemplado na chamada matrescência, que inclui uma reconstrução gradual da identidade. Algumas pesquisas descrevem esse período como uma fase em que o “eu” pode parecer deslocado ou fragmentado enquanto novas prioridades e papéis são incorporados.

Embora a fase inicial da maternidade seja a mais intensa, especialistas ressaltam que a matrescência não termina após os primeiros meses do bebê. Ela evolui com o crescimento da criança e com as diferentes etapas da vida familiar. Com o tempo, você vai aprendendo a lidar com tudo e a integrar melhor essas novas formas de atenção e identidade. O pensamento pode continuar dividido entre vários focos, mas ele também fica mais sensível, atento e adaptado à complexidade da vida com filhos.

Por isso, pode respirar aliviada. A sensação de “mente fragmentada” está longe de ser um sinal de perda de capacidade. Na verdade, pode ser uma evidência de algo muito maior e que te torna uma pessoa diferente, que pode ser ainda mais hábil, depois de se tornar mãe.

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