Artigos
Mães que não se permitem sequer adoecer
Quem cuida de quem cuida? Essa é a pergunta que tem me habitado nos últimos dias. Ter um filho com deficiência nos exige bastante. Tanto no aspecto físico quanto no emocional.
Há alguns anos, a ciência tem estudado o estresse relacionado à parentalidade. E pesquisadores têm levantado dados que apontam que o nível de estresse parental é maior nas famílias de crianças com deficiência. Sabemos que na grande maioria desses casos, a tarefa do cuidado com os filhos recai sobre a mãe.
Semana passada participei de uma roda de mães atípicas onde o tema era: “quem é a mulher atrás da mãe” Ali ouvi relatos de mães que não se permitem sequer adoecer. Dormem e acordam com a preocupação: “E se eu morrer, quem vai cuidar do meu filho?” Essas mães não tem ninguém para ajudar nos cuidados com suas crianças que possuem demandas bem especificas.
Nos casos das crianças com necessidades complexas de comunicação, só elas entendem o que o filho quer dizer. Só elas sabem dar as medicações, ajudar o filho num ataque epilético ou acalmá-lo numa crise sensorial. Sondas, traqueostomia, gastrostomia…são nomes complicados e procedimentos que elas têm que estudar para aprender a lidar.
Algumas acabam entendendo mais da doença rara do filho do que o próprio médico, tendo em vista a dificuldade de acesso a um especialista. Há aquelas que não podem contar com o pai da criança e se viram sozinhas; não têm rede de apoio e percebem o afastamento dos amigos após se tornarem mães atípicas. Largam o emprego, não conseguem escolas decentes e muitas vezes têm que enfrentar o capacitismo dentro da própria família.
Quando falamos de mães de crianças com autismo, as pesquisas demonstram que os níveis de estresse são ainda maiores. Estamos nos referindo a um estresse cotidiano e crônico que pode impactar diretamente a saúde e qualidade de vida de quem cuida, causando ansiedade, cansaço, fadiga, depressão e até suicídio.
Dentre os motivos que levam mães de pessoas autistas a apresentarem níveis de estresse superiores quando comparados a mães de crianças com desenvolvimento típico ou de crianças com outras deficiência, estão:
- a sobrecarga de tarefas e responsabilidades;
- o fato de passarem ao menos duas horas a mais por dia cuidando dos filhos;
- o excesso de terapias;
- as dificuldades sociais que enfrentam;
- os comportamentos repetitivos e restritivos característicos do TEA;
- as dificuldades financeiras e o medo do futuro.
Um estudo publicado no site americano Disability scoop afirma que os níveis de cansaço e exaustão de mães de crianças autistas são semelhantes aos apresentados por soldados combatentes. Quem cuida, deveria ter uma rotina de se cuidar. Mas a verdade é que sem politicas publicas de qualidade que amparem essas mães e sem uma rede de apoio, cuidar de si torna-se um grande desafio. Uma tarefa quase impossível.
*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Canguru News.
LEIA TAMBÉM:
[mc4wp_form id=”26137″]
Mônica Pitanga
Mônica Pitanga é mãe atípica e rara. Formada em Administração de Empresas. Certificada em Parentalidade e Educação Positivas, Inteligência Emocional e Social e Orientação e Aconselhamento Parental pela escola de Porto, em Portugal. Certificada também em Disciplina Positiva pela Positive Discipline Association. Fundadora da ONG Mova-se Juntos pela inclusão.
VER PERFILAviso de conteúdo
É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita. O site não se responsabiliza pelas opiniões dos autores deste coletivo.
Veja Também
4 livros que viraram filmes (e que você precisa ver!)
Histórias que já conquistaram os leitores ganham versões imperdíveis para cinema e streaming – e elas estão com tudo!
Mensalidade escolar pode subir até 11% em 2027: como se preparar e negociar com a escola?
Levantamento aponta reajuste em nove a cada dez escolas particulares; veja o que entra na conta da mensalidade e quais...
Mães precisam pedir “permissão” para dormir? Pesquisa revela o peso da culpa e da carga mental
Levantamento com 1.000 mães mostra que 62% sentem que precisam da autorização de outra pessoa para priorizar o próprio sono;...
Maternidade depois dos 40 cresce 71,8% em 20 anos no Brasil
Levantamento do IBGE mostra aumento expressivo no número de mulheres que têm filhos nessa fase da vida, marcada por mudanças...








