Férias, sono virado e adolescentes: até onde é normal?

Entender o ritmo do corpo do seu filho e apostar em acordos pode minimizar o estresse nas férias
Adolescente dormindo no sofá com o celular na mão Foto: Freepik

As aulas acabam, a mochila vai para o canto… e, junto com as férias, surge um atrativo bastante conhecido por quem convive com adolescentes: dormir de madrugada, acordar quase na hora do almoço e trocar o dia pela noite. Para muitos pais e mães, isso acende o alerta. Afinal, até que ponto esse comportamento é normal? E quando vira um problema?

A verdade é que, especialmente entre os 13 e os 17 anos, o corpo do adolescente funciona de um jeito diferente do nosso. Durante essa fase, ocorreram mudanças hormonais que alteraram o ciclo circadiano, o famoso relógio biológico que regula o sono e a vigília. “O adolescente tende a sentir sono mais tarde e tem mais dificuldade para acordar cedo. Durante o período escolar, a rotina é imposta. Nas férias, o corpo finalmente escolhe”, explica a educadora Valma Souza, do Colégio PB (RJ).

Ou seja: não é preguiça, nem falta de responsabilidade. É biológico. Tanto que entidades como a Sociedade Brasileira de Pediatria e a Academia Americana de Pediatria já reconhecem que adolescentes, por natureza, têm um ritmo de sono mais tardio do que crianças e adultos.

Quando dormir tarde deixa de ser só férias

Dormir mais tarde, por si só, não é o problema. O sinal de atenção aparece quando uma rotina se desorganiza a ponto de afetar o humor, a alimentação, a convivência familiar e a disposição para atividades simples do dia a dia. “Férias são para descansar, não para entrar em um caos completo. O descanso também precisa de algum ritmo, ainda que mais flexível”, orienta Valma.

Nessas horas, as regras importantes costumam piorar a situação. O adolescente se sente controlado e reage com resistência. O caminho mais saudável costuma ser outro: diálogo, acordos possíveis e ajustes que respeitem tanto a fase do jovem quanto a dinâmica da família.

Pequenos ajustes que fazem diferença

Em vez de brigar diretamente por horários, o especialista sugere criar “âncoras” ao longo do dia. Coisas simples, mas práticas: manter refeições em horários parecidos, abrir uma janela para a luz natural entrar pela manhã, propor um programa leve fora de casa ou uma atividade pela manhã em alguns dias da semana. “Não se trata de acordar cedo todos os dias, mas de evitar que o relógio biológico se distancie demais da vida real”, explica.

Outro ponto importante é pensar no retorno às aulas com antecedência. Virar o horário do sono de uma vez só costuma gerar estresse, mau humor e conflitos desnecessários. Ajustes progressivos, de 20 ou 30 minutos por dia, ajudam o corpo a suportar sem sofrimento.

Quando o sono pode ser um pedido de pausa

Dormir muito ou em horários extremos também pode ser um sinal emocional. Muitos adolescentes chegam às férias exaustos depois de um ano intenso de provas, cobranças e expectativas. Por isso, observar o conjunto é fundamental: humor, apetite, interesse pelas coisas e disposição para interagir dizem tanto quanto o relógio.

No fim das contas, o mais importante é enxergar seu filho. “Quando entendemos que o corpo do jovem funciona em outro ritmo, conseguimos construir acordos mais leves e eficazes. Não é sobre controlar o sono, mas ajudar o adolescente a retomar o ritmo sem sofrimento”, conclui Valma Souza.

5 estratégias que ajudam nas férias

Mais do que disciplinar, a ideia é criar um ambiente que o corpo do adolescente aceite com mais naturalidade:

  • Incentivar a exposição à luz natural pela manhã

  • Manter refeições em horários minimamente regulares

  • Propor atividades leves fora de casa

  • Reduzir estímulos à noite, especialmente telas

  • Fazer o ajuste para o período letivo de forma gradual

Férias são, sim, um tempo de descanso. Mas também pode ser um espaço de cuidado, escuta e conexão — inclusive com o ritmo único que existe dentro de cada adolescente.

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