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Quando Felipe Neto entrou na minha casa
Confesso que tem dias que as aulas online do meu filho me tiram do sério. É computador que trava e ele me chama, é site bloqueado e a gente tem que ir lá ajudá-lo. Se tem missão mais difícil nessa vida do que criar um filho, eu desconheço. Vivendo o isolamento social então, nem se fala.
Entendo que para uma criança de 11 anos, não é nada fácil ver os dias passarem dentro de casa, na companhia de dois adultos e uma gata. Tivemos que rever posicionamentos, especialmente, em relação ao tempo de tela, acesso ao YouTube, jogos e WhatsApp.
Eu era aquela mãe que se orgulhava:
“O meu filho não conhece nenhum desses youtubers.”
“O meu filho adora ler.”
“O meu filho já leu a coleção do Harry Potter duas vezes.”
Mas ser mãe é pagar língua diariamente e nosso dia chega.
Ele fez aniversário durante a pandemia, a festa foi online, e ele ganhou um Minecraft para jogar no computador. Até entrarmos em isolamento ele não tinha acesso diário ao computador, e só podia usar o celular durante uma hora por dia.
Ele já tinha o Minecraft no celular, mas usava pouco. Agora é diário, ele gosta do modo “criativo”, passa horas programando e pesquisando novos comandos na internet, acabou conhecendo os youtubers Jazzghost e AuthenticGames. Depois veio o Felipe Neto e tenho que confessar, eu mesma apresentei!
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Ah, gente, isso sim é cuspir para cima! Eu tinha pavor dele, era um moleque, falava muito palavrão, o conteúdo não me parecia adequado para crianças, e não era mesmo. Um dia assisti a um vídeo dele, com classificação 18+ sobre como YouTube indica vídeos de crianças para pedófilos. Eu venho, desde 2013, fazendo um trabalho de prevenção e combate à pedofilia e, cheguei a realizar, com a ajuda de muitas outras mães, dois workshops de prevenção e combate ao abuso sexual infantil. Também escrevi sobre o assunto no meu livro. Gostei muito de ver aquele posicionamento dele, revelando que, dentro da plataforma, existia uma maneira de receber somente vídeos de crianças, o que obrigou o YouTube a rever suas políticas.
Posteriormente, Felipe Neto baniu a funkeira MC Melody do seu canal. A menina tinha 11 anos, a idade do meu filho, e se apresentava com roupas sensuais. Passei a acompanhá-lo nas mídias sociais. Assisti a outros vídeos e vi que ele estava mudando e que os novos vídeos que publicava eram adequados para meu filho – uma criança de 11 anos que ama Minecraft – assistir. Lembrando que ele avisa quando o vídeo não é para crianças. Além disso, eu uso um aplicativo de controle de pais no celular e no computador do meu fillho, delimito a hora e o tempo de acesso ao Youtube e bloqueio conteúdo adulto.
Felipe Neto não é mais aquele sujeito que me dava antipatia. Ele mudou, amadureceu, pôde rever posturas. Tirou vários vídeos do ar. Hoje eu me sento no sofá e assisto a vídeos da Saga Minecraft com meu Felipe, tento entender alguma coisa sobre esse jogo, para não ficar boiando demais nas conversas. Outro dia ele me pediu uma camiseta Minecraft Felipe Neto, eu não resisti e dei.
Eu gosto de pessoas que reveem posicionamentos, que amadurecem, que pedem desculpas quando erram, que são humanas.
Isso não significa que eu concorde com tudo o que ele fala ou faz. Por isso mesmo, eventualmente assisto a um vídeo com meu filho, conversamos a respeito e não proíbo. Tudo que é proibido costuma ficar mais gostoso. Se um dia eu achar um conteúdo inadequado, vou conversar sobre isso, como meu filho merece.
Na minha casa tem muito diálogo. Na minha casa nós prevenimos e combatemos o abuso sexual infantil e a pedofilia. E eu tenho pavor de fakenews e falas tiradas do contexto. Não me sinto confortável acreditando em mentiras convenientes só porque elas vão de encontro ao que eu acredito. Mentira nunca vale a pena!
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*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Canguru News.
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Bebel Soares
Bebel Soares é arquiteta urbanista, psicanalista, escritora, mãe do Felipe e fundadora da comunidade materna Padecendo no Paraíso, onde informa e dá suporte a mães desde 2011.
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