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Especialista explica o que está por trás dos protestos das crianças no Roblox

Nos últimos dias, a plataforma Roblox anunciou algumas mudanças, que teriam o intuito de tornar o ambiente de jogos mais seguro para crianças. Entre as medidas, estavam restrições ao chat, que não poderia ser usado por menores de 9 anos. Os perfis vão precisar de verificação de idade para liberar ou não a ferramenta que permite a comunicação entre os usuários.
Isso acontece depois da aprovação do ECA Digital, que passa a valer neste ano e impõe uma série de obrigações às big techs, para proteger os usuários menores nas redes digitais. Um dos fatores que impulsionaram a votação do conjunto de regras foi um vídeo do influenciador Felca, que viralizou, expondo alguns casos chocantes de prejuízos à infância, com o mau uso da internet e das redes sociais.
A reação não demorou a acontecer. As crianças foram para as ruas. Não para as ruas, de forma física, mas para ruas dentro dos ambientes de jogos do próprio Roblox. Os protestos ganharam o nome de “Revolução Robloxiana”. Lá, os personagens levantavam cartazes com dizeres como “Injustissa” ou “Justissa pela gente” ou ainda “Queremos o chat”. Alguns avatares teriam usado até a referência da música “Cálice”, de Chico Buarque, um hino da resistência na época da ditadura militar.
Felca também divulgou em suas redes sociais algumas mensagens que teria recebido de jogadores furiosos com as restrições do chat, culpando-o pelo que estava acontecendo. “Felca eu vou te matar” e “Olá Felca, todo mundo do Roblox está ficando doido, dizendo que você deixou a gente sem chat”. Outro recado enviado ao influenciador dizia: “Ta feliz Felca? Todo mundo tá perdendo uma infância de ser criança no Roblox”.
Para entender um pouco melhor o que está por trás destes movimentos, destas respostas e o que isso revela sobre a infância, a adolescência, o mundo digital e ainda a que os adultos precisam ficar atentos, Canguru News conversou com a especialista Maria Mello, líder do eixo digital do Instituto Alana, organização que defende os direitos e o bem-estar na infância e na adolescência. Confira a entrevista:
Estes protestos que têm sido vistos dentro do Roblox são atribuídos a crianças, mas, embora alguns tragam erros ortográficos ou gírias, outros fazem referências adultas, como a música “Cálice” de Chico Buarque. Esse movimento pode ter sido organizado por adultos, com interesse em manter o contato com crianças nos jogos? Como você vê essa questão?
É muito provável que haja, sim, crianças envolvidas – várias mães vêm reportando revolta por parte de seus filhos e filhas crianças, mas também é inegável o potencial de adultos mal intencionados estarem organizando ou pegando carona na movimentação, bem como pessoas e empresas que monetizam a experiência das crianças. Não são poucas as denúncias que demonstram que uma rede comercial opera em cima da Roblox, inclusive recrutando o trabalho de crianças e adolescentes ao redor do mundo para desenvolvimento de produtos digitais. Com a ampliação da repercussão, ainda há a possibilidade de que haja adolescentes e jovens adultos participando do “hype” de forma irônica e debochada, se utilizando de linguagem atribuída a formas infantilizadas de se manifestar. Inclusive, alguns memes e vídeos circularam em que pessoas adultas mesmo gravaram sua ida aos “protestos” para olhar a situação ou até participar de alguma forma. Agora quanto ao uso da música Cálice, essa foi uma referência que viralizou recentemente no TikTok e se ampliou como referência cultural entre jovens. Caso sejam, de fato, crianças, há de se refletir que elas estão frequentando outros ambientes digitais inadequados para as suas idades, como a rede social que nos próprios termos de uso admite não ser apropriada para pessoas com menos de 13 anos de idade.
Considerando que sejam mesmo crianças protestando, o que isso revela sobre a forma como elas se relacionam com plataformas digitais e jogos online hoje?
Essas crianças não tinham nenhum filtro para acessar a Roblox. A plataforma não possuía nenhuma camada de verificação ou experiência adequada à idade, ou seja, era muito fácil todo o processo de baixar o aplicativo e acessar seus jogos e o seu chat aberto. Elas se acostumaram com esse “normal” – mas não é porque é normal que significa que seja uma experiência apropriada para a idade. É natural um sentimento de revolta que vem de uma não compreensão da mudança. Ao mesmo tempo em que é animador ver que muitas famílias estão usando o caso para explicar riscos e impactos digitais. Precisamos incluir as crianças no debate sobre educação digital, sobre plataformas, e ouvi-las. Tem algo ali no protesto – um desejo de compreensão, uma sensação de que o jogo traz entretenimento, interação e diversão.
Tem também as ameaças violentas ao influencer Felca…
Isso é revelador de um outro aspecto: do poder de dependência que essas empresas criam. Esse poder pode, inclusive, se converter em atos violentos em caso de restrição. Nós sabemos que isso não é uma ação só da criança. As plataformas muitas vezes são feitas para viciar, manter a atenção, e nós vemos isso na Roblox também. A equipe de pesquisa do Alana fez testes, antes das novas modificações, em uma conta simulada na plataforma representando uma criança de 8 anos de idade. Essa criança pode ganhar emblemas, prêmios, por usar a plataforma continuamente por vários dias seguidos. Ela pode acessar os jogos mais populares, como “Roube um Brainrot”, e nele ela vai ver pop-ups insistentes para a compra de Robux, a moeda virtual, e itens de jogo, com ofertas de tempo limitado, para usar dessa ansiedade da criança para ganhar dinheiro na plataforma. Jogos dão recompensas diárias, que se tornam um atrativo para que ela entre todo dia, e a página geral da Roblox chega a exibir pop ups que incentivam a criança a ligar as notificações para ficar recebendo informações sobre eventos e novidades – formas de retê-la naquele ambiente. Além disso, casos de aliciamento sexual e conversas inapropriadas com adultos demonstram uma falha sistêmica da moderação de conteúdo e das medidas de prevenção a riscos. Todos esses elementos nos convidam a pensar: será que apenas a vedação do chat é suficiente? O que mais precisamos refletir para que a plataforma de jogos mais famosa da atualidade possa ser, verdadeiramente, apropriada para crianças?
Do ponto de vista dos direitos da criança, como equilibrar proteção e participação infantil em ambientes digitais, especialmente quando decisões são tomadas sem que elas compreendam os motivos?
A participação de crianças e adolescentes no ambiente digital precisa ser garantida, mas ela deve ser qualificada e ter como objetivo a entrega de soluções voltadas à garantia de seu melhor interesse, conforme preconizam a legislação já vigente e o ECA Digital, que passa a valer em março deste ano. Não é porque a criança pede para comer doce toda hora, que ela deve ganhar, por exemplo. Esse caso ilustra a necessidade de que os motivos sejam explicados às crianças. Há diversos relatos de como esse caso e os protestos foram usados por responsáveis para um debate na casa sobre impactos e combinados digitais.
Nos protestos, algumas placas teoricamente feita por crianças diziam que esta era uma das poucas formas de comunicação ou socialização que restava a elas. De certa forma, elas teriam um ponto, porque estão mesmo cada vez mais isoladas, fechadas em casa, por conta da falta de tempo dos pais, dos espaços públicos inseguros, medo da violência, etc. Embora seja importante ouvir o que as crianças estão sentindo e quais as necessidades delas, seria possível propor outras formas de ajudá-las com uma socialização mais saudável?
Isso não é um compromisso só das crianças. O que se manifesta, aqui, é uma luta coletiva pelo brincar livre. Esse brincar só vai ser livre quando tivermos espaços públicos seguros, entretenimento e cultura gratuita, reforçarmos uma cultura de encontros significativos. Para isso, precisamos melhorar as cidades, a segurança, a possibilidade de contato com a natureza. É uma política estrutural com a qual o Brasil precisa se comprometer.

Manifestação do Roblox
Foto: Reprodução X
Dá para mostrar que se reunir para protestar por alguma necessidade é um direito, mas direcionar as demandas, por exemplo, por mais espaços públicos e mais segurança, tempo e condições para socializar offline? Como fazer isso?
É importante validar e celebrar o engajamento e a ação coletiva, afinal a liberdade de expressão também é um direito das infâncias. Quando o ECA Digital fala sobre várias esferas de participação, para construir diretrizes sobre IA, sobre verificação etária, essa participação envolve as crianças e adolescentes. Nós precisamos construir um sistema em que elas tenham direito a processos não só de escuta, mas de participação efetiva na construção do futuro da Internet. Esses processos são feitos em vários lugares do mundo, como na Austrália, que está construindo um novo Guia de Proteção de Dados a partir de demandas de crianças e adolescentes de até 8 anos de idade, que foram ouvidas pela agência regulatória. No Brasil, o ECA reforça esse direito de participação e os próximos passos envolvem integrar esses processos na cultura da Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) e dos órgãos envolvidos.
Qual é o papel das famílias, das empresas de tecnologia e do Estado na mediação do uso de jogos online para garantir segurança sem silenciar ou frustrar as crianças?
Responsáveis precisam aproveitar o momento para discutir sobre responsabilidades e riscos digitais, usar o caso real para ouvir, para jogar junto, para conhecer a plataforma que seu filho ou sua filha jogam e fazer escolhas informadas. É preciso se organizar, cobrar por mudanças – temos exemplos de coletivos de pais do mundo todo que estão pressionando e gerando esse tipo de mudança. Inclusive, a pressão contra a Roblox teve muita origem em processos na justiça feita por responsáveis nos Estados Unidos, contra os riscos da plataforma. E uma dica para os responsáveis: se a decisão for permitir que a criança continue jogando Roblox após conversar sobre os riscos, limite as interações a pessoas conhecidas ou confiáveis. Muitos responsáveis, com essa mudança, relatam que criaram grupos no WhatsApp apenas com primos, amigos da escola ou outras crianças que sabem quem são, e usam esse canal para chamadas de voz e conversa enquanto jogam. Assim, a criança mantém a interação e o brincar, mas sem depender do chat aberto da plataforma, reduzindo riscos, sem proibir o jogo. Já o Estado deve priorizar a garantia e a aplicação do ECA Digital. Isso inclui fiscalização, monitoramento, responsabilização quando houver violação de direitos, política pública. Dinheiro, orçamento e fortalecimento da ANPD. Isso tem que ser política de Estado e não de governo, é uma prioridade coletiva. A ANPD precisa ouvir as crianças, adolescentes e famílias para construir parâmetros sobre melhor interesse, elaborar em rede com o conhecimento da classificação indicativa uma noção de supervisão parental que mantenha a autonomia progressiva pela idade, conforme determina a lei. Além disso, é importante não tratar crianças e adolescentes de uma forma só, como um grande bloco, mas aprofundar e reconhecer diferenças de realidades e faixas etárias, pensando que a abordagem para uma criança de 7 anos não será a mesma para um adolescente de 17.
Canguru News
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