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Ela ficou anos fora do mercado para cuidar dos filhos e conseguiu encontrar uma nova forma de recomeçar
Uma mulher passou dez anos dedicada aos filhos e, quando tentou voltar ao mercado, descobriu que a carreira não estava simplesmente esperando por ela. Outra tinha mais de 40 anos quando finalmente conseguiu tempo para terminar o primeiro romance, depois de anos trabalhando em outras áreas e cuidando da família. As histórias da britânica Barbara Scully e da francesa Valérie Perrin são diferentes, mas têm algo em comum: nenhuma delas seguiu uma linha reta para chegar ao trabalho que faz hoje.
Barbara, uma britânica de 64 anos, contou ao jornal Guardian que, aos 50, depois de uma década como mãe em tempo integral, resolveu tentar voltar ao mercado de trabalho. Não é difícil deduzir que deu com a cara na porta muitas vezes. Apesar da experiência profissional anterior, ela se deparou com uma lacuna de dez anos no currículo e com o que percebeu como uma barreira relacionada à idade. Em determinado momento, chegou a chorar dentro do carro, diante de repetidas negativas.
Mas, depois das lágrimas, ela teve uma luz. E se o caminho não for simplesmente tentar voltar para o ponto em que estava antes dos filhos? E se houver outra estrada? A esperança se reacendeu depois que ela se perguntou: “Se fosse uma das minhas filhas nesta situação, o que eu diria para ela?”. Foi aí que chegou à resposta, que era: ela teria de criar o próprio trabalho. Então, a perspectiva mudou. Ela percebeu que, em vez de tentar descobrir qual empregador poderia ser convencido de contratá-la, ela precisava compreender o que ela gostava de fazer e como transformar isso em trabalho.
Na entrevista ao Guardian, ela explica que sempre gostou de escrever e falar em público. Durante os anos em que trabalhou como captadora de recursos para ONGs e instituições, tinha acumulado bastante experiência nas duas coisas. Então, por que não começar pelo que já conhecia? Assim nasceu seu blog, o From My Kitchen Table, escrito literalmente da mesa da cozinha de casa. Ali, passou a publicar textos sobre a vida cotidiana, a experiência de ser mãe e suas próprias opiniões. Aos poucos, os textos começaram a aparecer em jornais e revistas, e ela também passou a colaborar com programas de rádio.
Aos poucos, aquele trabalho que havia começado quase como uma tentativa de encontrar uma saída foi ganhando forma. Barbara escreveu artigos de opinião, publicou o livro Wise Up: Power, Wisdom and the Older Woman, passou a participar de programas de televisão e se tornou presença regular no rádio irlandês. Em vez de recuperar a carreira que tinha antes dos filhos, construiu uma nova, que reunia duas coisas de que sempre gostou: escrever e conversar.
E foi essa nova carreira que, alguns anos depois, levou a outra descoberta completamente inesperada. Quando o livro foi publicado, em 2022, duas mulheres que estavam criando uma filial irlandesa da comunidade Funny Women, voltada para mulheres na comédia, procuraram Barbara. Ela imaginou que queriam ajuda para divulgar o evento. Mas o convite era outro: queriam que ela se apresentasse.
Barbara aceitou fazer uma leitura de um trecho de seu livro entre as apresentações. No dia, porém, ela se deu conta de que simplesmente ler um capítulo provavelmente quebraria o ritmo da noite. Então pegou um texto sobre exames preventivos ginecológicos e o transformou em um esquete de comédia. Subiu ao palco sem saber exatamente o que aconteceria, mas a reação do público a surpreendeu. “Depois de dois ou três minutos, eu vi as pessoas rindo. Foi um combustível. Foi algo que eu nunca tinha vivido antes. Foi enorme. Me encheu de energia”, contou.
Foi assim, quase sem planejamento, que surgiu sua sexta carreira. Em dezembro de 2024, Barbara foi convidada para participar de um evento sobre seu livro e, em vez de fazer apenas uma apresentação, criou um espetáculo solo. Depois de pequenas apresentações em espaços com 70 a 100 lugares, começou a levar o show de comédia para diferentes cidades da Irlanda. Hoje, apresenta Because I’m Worth It, em que aborda, com humor, temas como envelhecimento e menopausa, para plateias de até 200 pessoas.
Barbara vive em Dublin, mas a preocupação com a retomada da vida profissional depois dos filhos afeta mulheres no mundo inteiro, inclusive no Brasil. Por aqui, o Relatório Anual Socioeconômico da Mulher (Raseam) 2026, do Ministério das Mulheres, mostra que, após a licença-maternidade, quase metade das mulheres permaneciam fora do mercado de trabalho 24 meses depois. A análise aponta que a queda no emprego começa logo após o fim do período de proteção garantido pela licença e que a maior parte das saídas ocorre por iniciativa do empregador.
A relação entre cuidado e trabalho também aparece quando se olha para a creche. Em 2024, entre as mulheres com filhos de 0 a 3 anos, aquelas cujos filhos frequentavam creche apresentavam nível de ocupação de 68%. Quando apenas parte dos filhos estava na creche, o índice era de 36,5%.
Os números ajudam a tirar a discussão do campo da escolha individual. Ainda que se afastar da carreira não seja uma opção voluntária, muitas mães enfrentam obstáculos concretos. A falta de creche, de rede de apoio, de flexibilidade e de condições financeiras para contratar cuidados pode determinar quanto tempo ela consegue permanecer no mercado.
A carreira não espera
Depois de anos de noites sem dormir e cuidados em tempo integral, os filhos crescem. Então, surge a possibilidade de voltar. Mas o que fazer depois desse intervalo, com mais idade, um hiato de anos fora do mercado, em um mundo onde tudo se transforma tão rápido? A carreira não espera e boa parte das MUITAS experiências acumuladas e habilidades adquiridas com a própria maternidade não aparecem no currículo.
Quanto maior o intervalo, maior pode ser também o desafio de atualizar conhecimentos, reconstruir uma rede profissional e recuperar a confiança. No caso de quem tenta voltar depois dos 40, outra questão se sobrepõe: o etarismo.
Aí você chega em um ponto curioso, em que é considerada experiente demais para algumas vagas e, ao mesmo tempo, pouco atualizada para outras. Se tem filhos, pode ainda enfrentar o preconceito de que terá menos disponibilidade ou estará mais preocupada com a família do que com o trabalho.
Outra história inspiradora neste cenário é da francesa Valérie Perrin, autora do best-seller Água Fresca para as Flores, entre outros. Antes de publicar seus romances, trabalhou como fotógrafa e roteirista. Em entrevista à Forbes Brasil, Valérie contou que escreveu seu primeiro romance, Os Esquecidos de Domingo, depois dos 40 anos. O livro foi publicado na França quando ela tinha 48.
Antes disso, segundo Valérie, ela fazia trabalhos que permitissem sustentar a família e pagar as contas. “Escrevi esse romance depois dos 40 anos, e ele foi publicado quando eu tinha 48. Simplesmente porque, antes, eu fazia trabalho de sobrevivência, que me possibilitasse alimentar minha família e pagar meu aluguel. Aos 47 anos, passei seis meses em casa, então tive tempo para escrever e aproveitei para terminar o livro”, disse.
O que aconteceu depois transformou sua vida profissional. O romance foi publicado em 2015 e deu início a uma carreira literária que se tornaria internacionalmente conhecida.
Em outra entrevista, Valérie contou que nunca havia planejado se tornar escritora. Queria contar aquela história e acabou descobrindo uma profissão que não fazia parte do plano original. Assim como Barbara, ela não voltou para a carreira que tinha antes, mas inventou outra.
“E agora, o que eu quero fazer?”. Esta é uma pergunta que começa a martelar na cabeça da mãe, assim que ela percebe que os filhos já não precisam dela da mesma maneira. Durante anos, a rotina profissional pode ter sido organizada em torno de horários de escola, férias, consultas, doenças, atividades e necessidades da família. Quando esse ritmo muda, vem um vácuo, que pode ser encarado como um convite a olhar novamente para aqueles desejos que foram tão adiados. Lembra deles?
Algumas mulheres sabem exatamente o que querem fazer. Outras percebem que a profissão que tinham antes da maternidade já não combina com quem se tornaram. Há quem queira voltar ao mercado formal, quem prefira empreender, quem queira estudar, reduzir a jornada ou mudar completamente de área.
A maternidade pode mudar as prioridades, mas também pode revelar habilidades, interesses e necessidades que antes não estavam tão claras. Por isso, perguntar simplesmente como voltar ao mercado é insuficiente. Se uma mulher precisou deixar o trabalho para cuidar dos filhos, a pergunta não deveria ser apenas o que ela fará para recuperar os anos que ficaram para trás.
Também precisamos perguntar por que esses anos de cuidado continuam sendo tratados como se não fossem parte da experiência de uma vida profissional. A mulher que deixou o mercado aos 30 pode ser diferente quando decide voltar aos 40. Seus interesses podem ter mudado. Sua experiência também.
Recomeçar não é necessariamente tentar voltar para o ponto em que você estava antes dos filhos. Pode ser descobrir o que faz sentido agora. A mulher que deixou o mercado aos 30 pode ser diferente quando decide voltar aos 40. Seus interesses mudaram, sua experiência também, e a própria ideia de carreira pode ter ganhado outro significado.
Os filhos crescem, a vida muda e o trabalho também. Para algumas mulheres, o próximo capítulo profissional será uma continuação do anterior. Para outras, será uma história completamente diferente. E talvez não seja preciso escolher entre recuperar o passado e começar do zero: existe também a possibilidade de construir alguma coisa nova a partir de tudo o que veio antes.
Renata Menezes
É jornalista, entusiasta da maternidade e vive a intensidade (e as descobertas!) de ser mãe de um adolescente! Quando não está escrevendo aqui na Canguru News ou viajando com a família, você a encontrará nas quadras, recarregando as energias com suas amigas no time de handebol Master EG. Para ela, a maternidade é uma viagem constante — e ela adora compartilhar cada parada desse roteiro com nossas leitoras
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