Depois do “Arrume-se comigo”, vem aí o “Faça o teste de gravidez comigo”

O que o fato de transformar uma situação única, complexa e íntima em uma trend do TikTok revela muito sobre como estamos enxergando a maternidade, em tempos de redes sociais
Você entraria na trend de faça o teste de gravidez comigo? Fonte: Freepik

Colocar uma roupa, fazer maquiagem, arrumar o cabelo… Os vídeos de “arrume-se” comigo não são novidade e inundam as nossas timelines há tempos. Agora, uma outra tendência, que também não é nova, mas que vem ganhando força, de uma maneira um pouco chocante (pelo menos para mim!), é: “Vou fazer um teste de gravidez… vem comigo”.

Sim, um momento único, que envolve camadas emocionais complexas e que pode enveredar para várias consequências, se transformou em uma trend de TikTok. Influenciadoras de diferentes locais do mundo, abrem a câmera do celular e filmam o momento em que fazer o teste de gravidez, compartilhando a espera e o resultado com milhares ou milhões de seguidores.

Não vim aqui para julgar ou para defender regras sobre quando e para quem expor ou não a sua gravidez. Mas não consigo deixar de refletir sobre como isso demonstra a maneira de enxergarmos a vida e, principalmente, a maternidade.

Durante décadas, a cultura da gravidez foi marcada por silêncio. Muitas mulheres esperavam passar o primeiro trimestre antes de contar a novidade, por medo de perderem o bebê, por superstição ou por pressão social. Os mais antigos diziam que era melhor esperar “para ver se vai vingar”. Que frase pavorosa, não é?

Mas tudo é muito complexo. Há quem prefira contar logo, pelo menos para os mais próximos, porque, para se sentir amparada nessa fase, compartilhando os sentimentos, sejam eles de alegria, felicidade ou medo e desespero. Ou tudo junto.  

Compartilhar pela internet um momento que mostra tudo, desde a ansiedade enquanto o tempo passa, o olhar fixo no bastãozinho do teste, até o suspiro, o choro, o riso nervoso ou o resultado negativo, a frustração, o silêncio constrangido… Há algo de profundamente contemporâneo nisso. Se antes a maternidade era um assunto íntimo, hoje ela é discutida em tempo real, com audiência.

Há quem diga que compartilhar e mostrar mesmo ajuda a normalizar emoções ambíguas. Nem toda gravidez é recebida com euforia. Nem todo resultado negativo é encarado com naturalidade. Ao expor essas reações, os vídeos validam sentimentos que muitas mulheres vivem sozinhas. Pode gerar identificação, angariar apoio, ajudar a encontrar e a ouvir pessoas que passaram por situações parecidas.

Por outro lado, amplifica a vulnerabilidade. Você fica completamente exposta e aberta a comentários, julgamentos, críticas e opiniões, de pessoas que não te conhecem, não sabem das suas lutas, dos seus desejos, das suas dificuldades. Não te veem por inteiro. Um resultado positivo compartilhado com milhões de seguidores pode se transformar em dor pública caso a gestação não evolua. Um resultado negativo pode virar conteúdo consumido como entretenimento, em troca de visualizações e likes.

A geração que hoje compartilha testes de gravidez cresceu documentando a própria vida. Aniversários, términos, mudanças de emprego, crises. Tudo vira conteúdo. A gravidez entrou nesse fluxo. Isso revela algo sobre nosso tempo. Existe uma busca por autenticidade, por “vida real”, mas também uma pressão para transformar experiências íntimas em narrativas compartilháveis. A emoção não é apenas vivida, mas também é transmitida.

Talvez a pergunta mais importante não seja se a trend é “certa” ou “errada”, mas o que ela diz sobre nós. Ela mostra mulheres tentando dividir um momento que é tenso. Mostra a quebra de tabus sobre fertilidade, tentativas frustradas, ansiedade reprodutiva. Mostra que nem sempre a maternidade começa com um ensaio fotográfico perfeito. No outro extremo, escancara como a intimidade se tornou moeda social.

Cada um sabe o que sente e o que deseja fazer com os momentos importantes da vida, como o de ter um filho. O que pode ser necessário é refletir sobre o que estamos fazendo e se estamos mesmo dispostos a lidar com as consequências dessa exposição.

Você entraria nessa trend?

Renata Menezes

É jornalista, entusiasta da maternidade e vive a intensidade (e as descobertas!) de ser mãe de um adolescente! Quando não está escrevendo aqui na Canguru News ou viajando com a família, você a encontrará nas quadras, recarregando as energias com suas amigas no time de handebol Master EG. Para ela, a maternidade é uma viagem constante — e ela adora compartilhar cada parada desse roteiro com nossas leitoras

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