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Como podemos nos tornar mediadores literários das nossas crianças
Por Sol Mendonça – O mediador literário é bem mais do que um tradutor do que está impresso na página de um livro sejam palavras ou não (sim, existe literatura onde não há palavra). Amo ler para crianças que chegam perto com um livro nas mãos. Tive a quem puxar, tendo nascido em uma casa com livros para todos os gostos.
Mas, sobretudo, pude sempre escolher os meus, então não sou do tipo que obriga ninguém a ouvir leitura.
Um dia, lendo O Menino Maluquinho, do Ziraldo, para meus sobrinhos, fui às lágrimas. Então, aconteceu o seguinte: o Vicente, de 4 anos, espantado e curioso com a tia chorona, me pediu,em seguida, A Menina dos Fósforos, de Hans Christian Andersen, um dos contos mais tristes de todos os tempos. Quem conhece os dois textos sabe que ele captou, ali, “para que serve a literatura”. E eu pergunto a você: para que serve a literatura?
Muitos já concluíram: para nada. A função da literatura não é utilitária mesmo, de jeito algum. Ela não pretende resolver nem ensinar. A boa literatura não fornece respostas, mas convida a sentir, a subverter. A descoberta de que é a história que lê o leitor levou o Vicente a querer provocar outra explosão de emoção em sua mediadora e nele próprio. Experiências como essa deixam marcas. Hoje, aos 8 anos, Vicente lê sozinho e habitualmente pelo menos um livro por mês.
Livros só de imagens contêm literatura e podem ser lidos com não letrados. Desde muito pequenino, o Inácio corria para mim com um livro nas mãos sempre que eu chegava à casa da minha irmã. Ali, ele sabia, era o nosso lugar de afeto. Com 1 ano, Cecília nem sabia falar, mas completava o final das músicas da história da Chapeuzinho Vermelho que eu cantava.
O verbo “ler”, como o “amar”, é intransitivo, não admite imperativo
Ganhava um chamego, uma alegria! Com sorte, o primeiro mediador vem da própria família. O modelo em casa pode ser um bom professor, embora haja exceções, já que dar o exemplo não significa impor o gosto pela leitura. O verbo “ler”, como o “amar”, é intransitivo, não admite imperativo.
No Brasil, muitas vezes a professora é a primeira a atuar como mediador de leitura. Crianças chegam ao primeiro ano sem nunca terem tido contato com livros.
Professoras têm grandes chances de fazer o “mosquito da leitura” picar quando são boas leitoras. Apresentam, orientam e, em meio à rotina de sala de aula, dão um jeito de oferecer espaços para que cada um faça suas escolhas, busque suas próprias explosões. Porque acredito que nada seja tão importante para o leitor como a liberdade.
Sol Mendonça é jornalista, escritora e pós-graduanda em literatura infantil e juvenil. Em 2013, criou os Laboratórios Liberte o Escritor, grupos de escrita literária que acontecem em sua própria casa. Em 2016, foi vencedora do Concurso FNLIJ com o relato Menino Maluquinho encontra a Menina dos Fósforos.
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