
Por: Claudia Nina
O gosto pela leitura acontece por contágio. Uma pessoa contagiada de leitura transfere a outra o sentimento, porque este pede a partilha. Penso no livro que a gente adorou e vai correndo contar para alguém – no meu caso, escrever sobre – a fim de que a sensação de perder o chão também aconteça sob seus pés. Sem contágio, ninguém se entusiasma, e o desejo de leitura murcha na nascente.
Muitos pais reclamam que seus filhos não gostam de ler, mas se esquecem de que os livros não fazem parte de suas rotinas. Geralmente, são crianças cheias de brinquedos caríssimos, mas sem uma estante no quarto.
Os livros, empoeirados, estão no alto de algum móvel como objetos sagrados. Na melhor das hipóteses. As origens do desinteresse? São pessoas que cresceram sem buscar o livro como prazer. Leitura era apenas obrigação, e ponto. A partir daí, encontramos o colégio como vilão. Tanto por conta da seleção dos títulos quanto em função das provas.
Mas há excelentes trabalhos feitos nos colégios. Os pais precisam ficar atentos para trabalhar em conjunto – a escola sozinha não faz milagre. Alguns exemplos. Na minha casa, quem tentou me contagiar foi meu pai. Mas não conseguiu sem a ajuda do colégio. Até os 11 anos, eu era bem preguiçosa.
Porém, ao ingressar em uma escola nova, fui confrontada por várias novidades, inclusive quanto às aulas de português e literatura. Um dos primeiros livros que fui “obrigada” a ler foi Clarissa, de Érico Veríssimo. O que poderia ser chato para uma pré-adolescente foi mágico: tínhamos que fazer uma peça teatral baseada na história e depois debater tudo, entendendo vocabulário, situações, personagens.
Foi um marco na minha formação. Depois disso, nas mãos das colegas, eu vi nascerem os versos de Ferreira Gullar e Mário Quintana. Pronto. Já estava contagiada. Levei o contágio vida afora. Minha casa sempre teve livros espalhados na cozinha, pelos corredores. Minhas filhas eram bebês e já tinham a pequena estante no quartinho. Ainda eram pequenas, e eu já as levava para as contações de história nas livrarias.
Nunca me esqueço da carinha delas com atenção fixa às histórias. Comprávamos depois o livro, e elas liam e reliam. Além disso, como parte do contágio, a leitura em voz alta. Gosto de mostrar a elas trechos de livros ou poemas que me tocaram. Lembro-me de quando li para a minha filha, então com 11 anos, o conto Restos do Carnaval, de Clarice Lispector. Ela chorou e disse: “Que lindo, mamãe”. Cravei Clarice no coração dela com uma estaca.Sigo fazendo o mesmo com outros autores.
Temos que perceber o momento certo; a hora receptiva para entramos com a palavra que vai acender na casa íntima de cada um deles um altar para a boa literatura.
Outra dica: não podemos ser preconceituosos e interromper a busca deles pela leitura, independentemente de pôr quais caminhos optarem. Minha caçula está na fase dos quadrinhos. Lê avidamente. Palmas para ela. Em breve, sairá à procura de outros textos mais suculentos. Já começa a rondar as estantes…
Claudia Nina é escritora, jornalista e crítica literária. Doutora em letras pela Universidade de Utrecht, na Holanda, a carioca é colunista da revista Seleções (Reader’s Digest), na qual assina a coluna de crônicas “Papo de livro”. A Barca dos Feiosos foi seu primeiro infantil (Ponteio), depois vieram A Misteriosa Mansão do Misterioso Senhor Lam (Vieira & Lent) e A Repolheira (Aletria).