A exaustão dos pais que têm filhos com Transtorno Opositor Desafiador

Educadora parental diz que há um desafio maior em educar crianças com TOD e lembra às famílias que "todas fazem o seu melhor"

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Mãe brava olha para filho que tampa os ouvidos com as mãos
Dia a dia de crianças com TOD pode ser desafiador
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“Eu não aguento mais”. “Estou no meu limite”. “Vou explodir.” Afirmações como essas são ditas com frequência por pais ou responsáveis por crianças com Transtorno Opositor Desafiador (TOD), que não raro chegam a um estado de exaustão emocional diante de tantos embates verbais diários com os filhos. A hora do banho, das refeições ou das lições de casa, entre outros momentos da rotina, podem ser tornar bem difíceis para essas famílias devido à dificuldade dos pequenos em lidar com regras e figuras de autoridade em ambientes diversos como a casa, a escola ou durante passeios, o que gera neles uma frustração exagerada, que traz prejuízos e os faz sofrer.

Embora qualquer criança possa se mostrar resistente, teimosa ou impulsiva, aquelas que possuem transtornos mentais, como é o caso do TOD, têm isso de forma muito mais exacerbada e regular. “Os neuroatípicos têm um alto nível de frustração e irritabilidade, eles batem de frente com os pais o tempo todo, têm dificuldade de cumprir os combinados e apresentam um choro mais intenso, mais persistente. Como resultado, eles perdem oportunidades, vão ao extremo, têm um pico de regulação muito alto e depois uma ressaca moral muito grande”, explica a educadora parental e psicopedagoga Andreia Rossi, que é mãe de uma adolescente com TOD e atua no atendimento a famílias com esse transtorno há 15 anos.

Ela comenta que os pais ficam cansados porque não entendem que estão lidando com um comportamento diferente e um cérebro que funciona em um outro ritmo. E por causa dos desentendimentos constantes, acabam entrando na disputa com os filhos, o que os deixa exaustos. “A criança não faz isso de forma deliberada para afrontar os pais, ela faz porque não dá conta dessa regulação emocional toda, de saber o que é importante no momento”, afirma Rossi. Nesse contexto, ela diz ser comum surgir nos adultos um sentimento de incapacidade e insatisfação com a realização da parentalidade.

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Não é birra nem desobediência

Entender em que consiste o Transtorno Opositor Desafiador, portanto, é o primeiro passo para melhorar a relação com os filhos. É importante também para poder lidar com os comentários e palpites equivocados vindos de pessoas que desconhecem o assunto e muitas vezes creem se tratar de birra ou desobediência das crianças. Diferentemente da Síndrome de Down ou de uma deficiência física, por exemplo, que são visivelmente identificáveis e as pessoas têm mais facilidade em se solidarizar, transtornos ocultos como o TOD levam a muitos julgamentos, diz a especialista. Estudos mostram que crianças e adolescentes com desenvolvimento neurodivergente possuem um cérebro que funciona de outra forma, apresentando instabilidade nas áreas de autorregulação emocional ao realizar tarefas indesejadas, o que provoca desequilíbrios e comportamentos agressivos e destrutivos. 

Cientes do que é o TOD, as famílias podem ajustar expectativas e compreender que não se trata de “consertar” o comportamento dos filhos nem de promover práticas punitivas que não vão funcionar. “Os pais precisam ser incentivados a assumir novas posturas, a serem mais persistentes e consistentes, deixando claros também os limites aos filhos de forma a criar um caminho seguro para que se desenvolvam.” Assumir um papel solidário e de acolhimento, celebrando inclusive as pequenas conquistas que fazem, é uma maneira de promover maior bem-estar na família, destaca Rossi.

Seu filho não está contra você

Outro ponto que deve ser lembrado “feito um mantra” é o fato de que o filho não está contra os pais, e sim a favor dele mesmo, aponta a especialista. Porém, ele não tem maturidade cognitiva e emocional para resolver conflitos e necessidades de forma assertiva como um adulto, e por isso vai errar, se desregular e ter comportamentos desafiadores exagerados.

“Essa realidade já foi minha e sei que de muitos outros pais de filhos neuroatípicos também. Em algum momento será preciso recalcular a rota e tomar decisões significativas para sair desse cenário caótico e doentio”, diz. Lidar com os comportamentos desafiadores dos filhos é difícil, mas para eles sempre será pior, complementa a educadora parental. “Por esse motivo, se cuide! Cuide do seu emocional e se priorize em alguns momentos. Isso lhe trará conforto e recarregará suas energias para seguir firme”.

E se os pais não sabem por onde começar essas mudanças, ela sugere, além de investir um tempo no autocuidado, procurar um acompanhamento psicológico ou psiquiátrico, ou ainda de um educador parental, para trabalhar aspectos como a importância de serem assertivos, mas não perfeitos. “As crianças com TOD são muito mais desafiadoras, alguns ajustes precisam ser feitos, mas nenhum pai é incompetente, todos fazem seu melhor”, conclui.

O que é o TOD?

A criança com o Transtorno Opositor Desafiador tem como característica a oposição e o desafio às regras e figuras de autoridade, apresentando uma frustração exagerada que gera prejuízos e a coloca em sofrimento. O pensamento rígido, a dificuldade de interação, de leitura do ambiente e de regulação emocional, e, ainda, o envolvimento em conflitos são frequentes em quem possui o transtorno. Estima-se que entre 1% e 11% da população mundial tem o TOD, que costuma surgir antes dos oito anos de idade, mas pode aparecer também em crianças maiores ou adolescentes.

Qual especialista procurar para saber se meu filho tem TOD?

Se você tem dúvida de que seu filho possa ter ou não o TOD pelos comportamentos que apresenta, pelas dificuldades de se relacionar, procure um especialista, que pode ser um psiquiatra, neuropediatra ou neuropsicólogo. Esse profissional deverá iniciar uma investigação que permita entender melhor a criança, se há prejuízos e se existe de fato um distúrbio.

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Verônica Fraidenraich
Editora da Canguru News, cobre educação há mais de dez anos e tem interesse especial pelas áreas de educação infantil e desenvolvimento na primeira infância. É mãe do Martim, 9 anos, sua paixão e fonte diária de inspiração e aprendizados.

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