Seu filho “não come nada”? Mudar de ambiente pode ajudar

Quando se tratas de alimentação, não é só a comida, em si, que importa. O contexto, incluindo o local em que as refeições são feitas, também influencia diretamente o comportamento alimentar das crianças, explica nutricionista
Comer à mesa, com atenção ao alimento, ajuda a criança a perceber melhor os sinais de fome e saciedade Foto: Freepik

Uma das coisas mais desesperadoras da parentalidade é uma criança que simplesmente se recusa a comer. Você sabe que seu filho precisa se alimentar bem, de preferência, com comida saudável. A recusa ou a seletividade alimentar são preocupações que realmente tiram a família do sério.

O primeiro culpado é sempre o cardápio. Será que a comida está sem graça? Estou oferecendo o melhor? Falta tempero? Falta variedade? Tudo isso, de fato, pode acontecer, mas é importante saber que a resposta nem sempre está no prato. Pelo menos não só nele.  

De acordo com a nutricionista materno infantil Renata Riciati (SP), o ambiente em que a criança se alimenta e a forma como as refeições acontecem dentro de casa têm um impacto enorme na maneira como ela aceita ou rejeita os alimentos. Renata, que é especialista em seletividade alimentar e comportamento alimentar infantil, defende que a alimentação das crianças envolve muito mais do que aquilo que está sendo servido.

“A alimentação infantil é muito mais comportamento do que cardápio. E comportamento é moldado pelo ambiente”, explica. Fatores como o local das refeições, o clima emocional à mesa, o exemplo dos adultos e a organização da rotina familiar podem facilitar — ou dificultar — a relação da criança com a comida.

Onde a criança come?

Um dos aspectos mais importantes é o local onde a refeição acontece. Comer à mesa, com atenção ao alimento, ajuda a criança a perceber melhor os sinais de fome e saciedade. “Quando a criança come assistindo televisão ou mexendo no tablet, ela entra no modo automático. Isso atrapalha a autorregulação alimentar e dificulta que ela reconheça quando já está satisfeita”, destaca Renata.

Outro detalhe que faz diferença é a forma como o prato é apresentado. Preparações visualmente agradáveis e uma apresentação simples, mas organizada, costumam aumentar a aceitação dos alimentos. Então, não, arrumar os alimentos não é frescura.

Permitir que a criança coma andando pela casa, brincando ou em lugares diferentes todos os dias também pode atrapalhar a conexão com o momento da refeição. “Crianças pequenas precisam de previsibilidade. Comer sempre no mesmo local e com uma rotina de horários ajuda o cérebro a entender que aquele é o momento da refeição”, explica.

Emoções à mesa

Outro fator decisivo é o clima emocional da família durante as refeições. Quando a hora de comer vira um campo de batalha, com cobranças, chantagens ou ameaças, a criança pode passar a associar a comida a sentimentos negativos. “Se a refeição vira briga, chantagem ou ameaça, o cérebro associa comida a estresse. Isso pode aumentar a recusa alimentar, a seletividade e até gerar ansiedade em relação à comida”, diz a nutricionista.

Por outro lado, quando a refeição acontece em um ambiente leve, com conversa tranquila e sem pressão excessiva sobre o prato da criança, a tendência é que ela se sinta mais aberta a experimentar. “Quando os adultos comem junto, conversam e não ficam focados apenas no quanto a criança comeu, a comida deixa de ser um campo de batalha”, afirma.

Seja exemplo

O comportamento dos adultos também tem um peso enorme na formação dos hábitos alimentares na infância. Crianças observam o que acontece dentro de casa e reproduzem. “Criança não faz o que você manda, ela faz o que você faz. Se os adultos não comem legumes, vivem falando mal do próprio corpo ou demonizam certos alimentos, a criança absorve tudo isso”, explica Renata. Por isso, o exemplo dos pais e cuidadores é considerado uma das ferramentas mais importantes na construção de uma rotina alimentar saudável.

O que existe na casa também influencia

Outro ponto fundamental é o ambiente alimentar da casa, ou seja, quais alimentos estão disponíveis com mais frequência. “Se a casa está cheia de ultraprocessados acessíveis o tempo todo, se os doces aparecem como recompensa e as frutas quase nunca vão à mesa, não é a força de vontade da criança que vai resolver”, diz a especialista.

A organização da rotina da criança também interfere diretamente no comportamento alimentar. Horários muito irregulares ou o hábito de beliscar o tempo todo podem atrapalhar a percepção da fome. “Crianças precisam de alguma previsibilidade. Ter horários relativamente estáveis e intervalos entre as refeições ajuda o organismo a reconhecer quando é hora de comer”, afirma Renata.

Pequenas mudanças que ajudam

Segundo a nutricionista, algumas atitudes simples na rotina familiar podem transformar o momento das refeições, como:

  • Fazer as refeições à mesa sempre que possível
  • Evitar telas durante o momento de comer
  • Manter horários relativamente organizados
  • Comer junto com a criança sempre que possível
  • Oferecer alimentos saudáveis com frequência dentro de casa
  • Evitar transformar a refeição em momento de pressão ou conflito

Renata reforça que, muitas vezes, ajustar o ambiente é mais eficaz do que mudar completamente o cardápio. “A criança não come isoladamente. Ela come dentro de um sistema. Antes de pensar que o filho é difícil para comer, vale olhar para o ambiente das refeições. Muitas vezes, ajustar esse cenário já transforma completamente a relação da criança com a comida”, completa. 

Aviso de conteúdo

É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita. O site não se responsabiliza pelas opiniões dos autores deste coletivo.

Veja Também