Seu filho disse que você está “perdendo ou ‘formando’ aura” e você ficou sem entender? A gente traduz

Expressões como “farmar aura” e “perder aura” passaram a fazer parte da lista de gírias dos adolescentes. Entender o vocabulário pode parecer besteira à primeira vista, mas não se engane: a linguagem é um primeiro passo para se aproximar
Seu filho só fala “aura” Foto: Freepik

Outro dia eu estava na cozinha, ouvindo uma entrevista em um podcast, quando o apresentador comentou algo sobre a “aura” do entrevistado. Minha adolescente, que estava por perto, virou para mim na hora, chocada: “Gente, eles também falam de ‘aura’”? Eu não entendi a pergunta. Qual o problema da palavra aura? Rebati a pergunta e ela, como sempre, revirou os olhos e disse: “Ai, mãe, você nunca ouviu a gíria? As pessoas da minha sala falam disso o tempo todo”.

Não, eu não tinha visto. E o apresentador do podcast que eu escutava na hora também deve ter passado longe da gíria adolescente e usado a palavra “aura” no sentindo normal mesmo. Mas se você tem um adolescente em casa, talvez já tenha ouvido frases como “isso me deu muita aura” ou “você perdeu aura” e não tenha entendido absolutamente nada (como eu!).

Fui pesquisar e vim aqui para ajudar outros pais perdidos, de outra geração, como eu. Descobri que esse vocabulário faz parte de um repertório que circula nas redes sociais. Mais ou menos como o tal do “67”. O termo “aura” carrega significados ligados a popularidade, confiança e aceitação social.

Mais do que modismos passageiros, essas expressões podem ser uma porta de entrada para conversas importantes. Em uma publicação em suas redes sociais, a psicóloga Marina Nigro explica que essas gírias funcionam quase como indicadores emocionais. “No atendimento clínico, percebo que essas gírias (como ‘farmar aura’) são muito mais do que ‘modismos’. Elas são métricas de autoestima. Quando um jovem diz que ‘farmou aura’, ele está nos dizendo que se sentiu visto, respeitado e confiante em seu ambiente social”, traduz.

O que significa “aura”, afinal?

No contexto adolescente, “aura” virou uma espécie de “capital social”. Dizer que alguém “tem aura” significa que essa pessoa está em alta, foi admirada ou teve uma atitude considerada legal. Já “perder aura” indica o contrário: uma situação constrangedora, algo que diminuiu a confiança ou o status social daquele jovem.

Por trás da brincadeira, está algo bem real: a necessidade de pertencimento. A adolescência é marcada por uma busca intensa por reconhecimento dos pares, e a linguagem acompanha esse movimento. Nomear esse sentimento com gírias ajuda o jovem a comunicar experiências sociais que, muitas vezes, ele ainda não consegue elaborar de forma mais direta.

Entender a linguagem é construir pontes

Em vez de rir, corrigir ou ignorar, a psicóloga sugere curiosidade genuína. “Entender esse vocabulário é construir uma ponte. Em vez de rir ou criticar o termo, tente perguntar: ‘O que você fez hoje que te deu tanta aura?’. Você vai se surpreender com o quanto eles se abrem quando sentem que você habita o mesmo mundo que eles”, orienta Marina.

Essa postura abre espaço para conversas mais profundas sobre autoestima, amizades e até inseguranças. Quando os adultos demonstram interesse sem julgamento, o adolescente tende a compartilhar mais e isso fortalece a conexão.

Atenção para termos como “alpha” e “beta”

Nem todas as expressões, porém, são neutras. Algumas, como “alpha” e “beta”, podem estar ligadas a conteúdos que reforçam ideias de hierarquia social e padrões rígidos de masculinidade, comuns em certos grupos online. Muitas vezes, os adolescentes repetem essas palavras sem compreender totalmente o significado ou a origem.

Por isso, mais do que proibir ou corrigir, vale investigar com calma. Perguntar onde ouviram, o que significa para eles e que tipo de conteúdo estão consumindo pode abrir uma conversa importante sobre respeito, diversidade e relações saudáveis.

O caminho, portanto, não é falar a mesma língua, mas mostrar disposição para entender. É importante lembrar que o vínculo não se impõe, mas se constrói no diálogo. Conexão, a gente não “farma”, a gente cultiva.

Aviso de conteúdo

É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita. O site não se responsabiliza pelas opiniões dos autores deste coletivo.

Veja Também

Acampar com crianças traz muitos aprendizados para a família
Foto: Freepik

6 motivos para acampar com seu filho

Longe da rotina e mais perto da natureza, o acampamento ajuda as crianças a desenvolverem autonomia, criatividade, resiliência e habilidades...