Artigos
Por que a hora de dormir virou um desafio para tantas famílias?
Especialmente a partir dos dois anos, quando a linguagem se desenvolve e as crianças passam a perceber melhor a dinâmica do dia, ir dormir significa encerrar algo importante: as brincadeiras, a interação e a presença dos pais.
Antes mesmo de chegar à cama, o processo já pode começar tenso. Atividades simples, como tomar banho ou escovar os dentes, passam a ser negociadas. Muitos pais acabam tentando convencer os filhos a seguir a rotina, como se cada etapa precisasse da concordância da criança.
Quando chega o momento da história, algo que deveria ser breve e acolhedor começa a se prolongar. A ideia inicial de um ou dois livros rapidamente se transforma em quatro ou cinco. Na tentativa de evitar conflitos, os pais entram nas “enrolações” dos filhos, acreditando que em algum momento o cansaço fará com que a criança se entregue ao sono.
Mas muitas vezes acontece o contrário: quanto mais estímulos e interações, mais a criança se mantém acordada.
Outro fator comum é a presença constante dos pais no quarto. Muitos adultos optam por permanecer ali até que o filho adormeça. Isso pode funcionar quando o processo é rápido e tranquilo. No entanto, quando a presença começa a gerar conversas, negociações e tentativas de prolongar o ritual, o momento de dormir se torna interminável.
Além disso, muitas crianças ficam em estado de alerta, observando se o pai ou a mãe vão sair do quarto ou passando a depender dessa presença para voltar a dormir durante a madrugada.
Há ainda um aspecto emocional muito presente nas famílias de hoje: a culpa parental. Muitos pais passam o dia trabalhando e sentem que o momento de qualidade com os filhos acontece justamente no final do dia. O dilema surge quando, no momento em que finalmente estão juntos, precisam colocar um limite — encerrar as brincadeiras e conduzir a criança para dormir.
Com o tempo, a rotina da noite pode passar a ser conduzida pelas demandas da criança. O horário de dormir se estende cada vez mais, mesmo quando a criança precisa acordar cedo no dia seguinte. O resultado é um acúmulo de cansaço para todos.
Quando finalmente conseguem sair do quarto dos filhos, os pais já estão esgotados. O tempo que poderia ser de descanso ou de convivência do casal muitas vezes já se perdeu.
O que pode ajudar a organizar a hora de dormir
Alguns ajustes simples podem tornar o início da noite mais previsível e tranquilo.
Antecipar a rotina
As crianças se beneficiam quando sabem o que vai acontecer. Ter uma sequência clara — brincar, tomar banho, colocar o pijama, ouvir histórias e dormir — ajuda a reduzir conflitos. Essa rotina pode até ser representada de forma visual para a criança.
Também é útil evitar perguntas que transformam a rotina em negociação, como “você quer tomar banho?”. Em vez disso, os pais podem comunicar com segurança:
“Agora é a hora do banho”.
O importante é que cada momento tenha começo, meio e fim.
Definir os combinados antes
Muitos conflitos acontecem porque as negociações começam justamente quando a criança já está cansada.
Por isso, é importante combinar antes quantas histórias serão contadas ou como será o ritual da noite. Os pais podem contar quantas histórias quiserem, mas a regra precisa estar clara desde o início.
Como crianças pequenas ainda não têm noção de tempo, pode ser útil usar recursos concretos. Quando a criança pede “mais um pouquinho”, por exemplo, os pais podem dizer: “Vamos ficar mais um pouquinho. Quando a musiquinha tocar, o pouquinho terminou”.
Assim, o limite deixa de ser uma discussão e passa a ser parte do combinado.
Evitar muitos estímulos na hora de dormir
Dormir exige um certo nível de tédio. Conversas longas, brincadeiras ou muitas interações podem manter a criança acordada.
Nesse sentido, até mesmo a presença constante dos pais no quarto pode acabar se tornando um estímulo. Se o processo está muito longo ou cheio de negociações, pode ser importante estabelecer o momento do boa-noite e sair do quarto com a criança ainda acordada.
Isso não significa deixar a criança sozinha ou abandonada. Os pais podem tranquilizar o filho dizendo: “Boa noite. Estamos aqui pertinho”.
Separar o tempo das crianças e o dos adultos
Depois que a rotina termina, os pais também podem ter o seu momento — assistir a uma série, conversar ou descansar. Caso a criança perceba que os pais ainda estão acordados, isso pode ser explicado de forma simples: “Agora é a
programação dos adultos. A programação das crianças já terminou”.
Evitar telas antes de dormir
Outro ponto importante é o uso de telas. O ideal é que crianças não assistam televisão ou utilizem dispositivos eletrônicos por pelo menos uma ou duas horas antes de dormir.
Caso exista algum tempo de tela dentro da rotina, ele deve ser breve e também ter começo, meio e fim.
Quando a rotina da noite se torna previsível e segura para crianças e pais, o momento de dormir deixa de ser uma batalha e passa a ser o encerramento tranquilo de um tempo de qualidade vivido em família.
Deborah Moss
É neuropsicóloga, especialista em sono infantil, mestre em psicologia pela USP, educadora parental e autora do livro Hora de Nanar
VER PERFILAviso de conteúdo
É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita. O site não se responsabiliza pelas opiniões dos autores deste coletivo.
Veja Também
Além do “Vai ficar tudo bem”: 5 formas de ser rede de apoio real para pais de prematuros
Quando o bebê chega antes da hora, a preocupação e a jornada dos pais são intensas. Pequenas atitudes de quem...
Licença-paternidade de até 20 dias é pouco, mas é um começo
Agora, projeto de lei que amplia gradualmente o período de licença para os pais depende da sanção presidencial. A medida...
Quer reduzir as chances de seu bebê ter alergias alimentares? Saiba qual alimento incluir no prato durante a gravidez
Uma pesquisa internacional, que acompanhou mais de 2 mil mães e bebês, encontrou associação entre o consumo de abacate durante...
5 coisas que um pediatra — e pai de sete — não deixa seus filhos fazerem
Médico americano compartilha hábitos que evita em casa para proteger a saúde e a segurança dos filhos










