Pais estão pagando os filhos para ler e se exercitar. Boa ideia ou tiro no pé?

Bastam rápidas interações em grupos de pais, seja nas redes sociais ou fora delas, para se deparar com uma tendência polêmica, que tem ganhado força: remunerar as crianças para que elas leiam, pratiquem esportes ou estudem idiomas. Mas isso tem consequências e elas nem sempre são positivas
O conceito de tarefa remunerada tem se expandido a atividades antes vistas como hábitos pessoais e mesmo de lazer, como ler, se exercitar Foto: Freepik

Não é lá uma novidade a tática de pagar as crianças para que elas executem tarefas de casa, como lavar a louça, guardar a roupa, arrumar a cama, passear com o cachorro, etc. Às vezes, os pais atrelam o recebimento de mesadas a funções como estas. Mais recentemente, no entanto, o conceito de tarefa remunerada tem se expandido a atividades antes vistas como hábitos pessoais e mesmo de lazer, como ler, se exercitar, aprender idiomas e tocar um instrumento musical.

A prática tem sido tão adotada entre as famílias, que virou tema de pesquisa nos Estados Unidos. Um levantamento realizado pela Greenlight, uma empresa de cartão de débito, que desenvolveu também um aplicativo de educação financeira para crianças, mostrou que, em 2025, crianças estadunidenses receberam US$ 242 milhões em mesadas no ano de 2025 e executaram 73 milhões de tarefas. Destas tarefas, 4,9 milhões (7%) eram classificadas como tarefas “de leitura”. Além disso, 1,6 milhão de atividades registradas foram ligadas a exercícios físicos, prática de música e estudo de idiomas.

Mas será que pagar para que uma criança leia pode ser considerado um incentivo ou pode ser interpretado como um suborno? Antes de tudo, é preciso admitir que criar hábitos é difícil – não só para crianças, mas para adultos também. Ainda mais diante do contexto digital, em que as telas, como celulares, tablets e videogames, oferecem entretenimento sem fim, com o algoritmo que entrega o que a criança gosta, sem limitação e sem nenhum esforço. As redes sociais e os jogos são projetados por algumas das equipes mais especializadas (e melhor remuneradas!) do mundo para atrair e viciar.  

Muitos pais vivem uma rotina de negociações infinitas:

  • “Lê só 10 minutinhos”
  • “Sai do sofá”
  • “Faz alguma coisa além do tablet”
  • “Vai treinar”
  • “Larga o videogame”
  • “Chega de celular”

Oferecer algo em troca, como dinheiro, parece uma solução simples, efetiva e genial! No entanto, pagar por algo que deveria ser importante para o próprio bem-estar ou por algo que deveria ser prazeroso, pode causar uma confusão sobre as motivações. Em vez de a criança ler por gostar da história, porque se identifica com os personagens ou por sentir orgulho de terminar um livro, ela começa a ler porque isso vale dinheiro. Vira um trabalho, uma moeda.

E aí… Será que quando o pagamento acaba ou quando, por algum motivo, não acontece, a leitura vai continuar? Se a criança faz atividade física, medita, aprende inglês ou escova os dentes, em troca de uma mesada, há uma chance muito grande de ela entender que cuidar de si mesma é uma obrigação e não uma forma de melhorar e de viver bem, de uma forma saudável. Vira um trabalho.

Pagar por tarefas domésticas, como limpar, ajudar, guardar e varrer, para muita gente, é uma forma de ensinar colaboração e responsabilidade. Mas será que quando fazemos isso estamos passando a mensagem de que ela só precisa colaborar com o funcionamento da casa se receber algo em troca?

Tudo isso pode confundir a construção de autonomia e o senso de pertencimento e o papel dela no mundo, na casa e na família. Será que é tudo por dinheiro?

Existem casos de crianças quem adoram ler e que vão fazer isso, com ou sem dinheiro. Para outras, pode ser que a mesada seja um empurrãozinho. Com as primeiras, em troca de um ganho, elas podem pegar gosto e passar a gostar dos livros, de graça mesmo. Pode ser uma maneira de “destravar” o processo. A questão é que pode ser perigoso transformar o dinheiro em motivo principal.

O que fazer, então?

Antes de tudo, é preciso lembrar que o desenvolvimento de autonomia e de olhar e zelar pelas próprias necessidades não é negociável e não está atrelado a ganhos financeiros. Dormir, tomar banho, se movimentar e cuidar da própria aparência são coisas que fazem parte da vida.

A mesada pode ser um recurso efetivo para muitas famílias, como uma ferramenta de educação financeira e não como um pagamento por certo tipo de comportamento. O valor pago mensalmente pode ajudar os pequenos a compreenderem o valor do dinheiro, a poupar, a planejar e a lidar com a frustração de que nem sempre vai dar para comprar o que deseja.  

Vale lembrar que existem outras formas de reforço, que não são, necessariamente, o dinheiro. Você pode fazer elogios, mostrar que viu que a criança se esforçou, oferecer privilégios, como tempo extra em algo que ela gosta ou a possibilidade de escolher o filme ou um passeio… Assim, dá para manter a motivação sem transformar o hábito em contrato ou relação financeira.

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