Os pais ideais para adolescentes são como “plantas no vaso”. Mas o que será que isso quer dizer?

Eles querem a família por perto, mas não que os adultos se envolvam demais
O ponto é lembrar que você continua sendo importante na vida do seu filho Foto: Freepik

Quando a adolescência chega, a gente vive até uma espécie de “luto”. Aquela criancinha que estava sempre pedindo colo, abraço, “brinca comigo”, aquela que sempre ria das suas piadas mais bobas, dá lugar a uma pessoa maior, que revira os olhos a qualquer oportunidade, acha tudo o que faz você faz um mico (inclusive, usar a expressão “mico”) e vive no quarto.

Parece que eles não precisam mais de nós, porque ignoram qualquer pergunta ou, no máximo, respondem de forma monossilábica, passam horas no celular e parecem só se importar com os amigos. Mas só parece, viu? Porque a realidade é que eles precisam, sim. E muito! Talvez precisem até mais, ou de uma forma diferente, do que na fase em que eram pequenos. Só que você dificilmente vai ouvir isso deles. Não de forma direta.

Em um artigo publicado no The New York Times, uma psicóloga estadunidense chamada Lisa Damour, explica que mesmo quando parecem independentes, muitos adolescentes se sentem mais seguros e emocionalmente estáveis quando os pais estão presentes na rotina da casa, não necessariamente falando, planejando ou “consertando” nada, mas simplesmente ali. Ela compara essa forma de estar ali, ainda que não necessariamente haja interação o tempo todo, a uma “planta em um vaso”.

Pesquisas, incluindo um estudo australiano com cerca de 3 mil estudantes (parte deles com um dos pais ausente por longos períodos de trabalho), indicam que adolescentes cujos pais passam menos tempo fisicamente em casa têm risco um pouco maior de apresentar dificuldades emocionais ou comportamentais do que aqueles que veem os pais regularmente, mesmo que o relacionamento seja “normal”, com altos e baixos.

Esses pais ausentes muitas vezes tentam manter contato por mensagens, fotos e videochamadas, o que ajuda. Mas, de acordo com a ciência, há algo único na proximidade física – no mesmo espaço – que é benéfico por si só, além de simplesmente conversar ou interagir pela internet ou pelo telefone.

Pesquisas clássicas já haviam mostrado que momentos aparentemente simples como estar em casa antes da escola, comer juntos ou mesmo apenas estar por perto na hora de dormir se associam a melhor saúde emocional nos adolescentes. É aquela presença que não exige uma conversa profunda ou se sentar junto para resolver todas as questões complexas da vida. É mais como um porto seguro: estar ali, mesmo quando nada espetacular está acontecendo.

E talvez isso fique mais claro quando lembramos de outra fase da vida: os primeiros anos de vida. Bebês costumam acompanhar os movimentos dos pais pela casa. Eles observam, confiam e exploram o mundo sentindo que a figura de segurança deles está ali por perto. A psicologia do apego mostra que essa sensação não desaparece automaticamente com a idade. Mesmo adolescentes, nessa transição de independência, ainda buscam um equilíbrio entre autonomia e proximidade dos pais.

Lisa Damour explica que os pais “vaso de planta” não precisam planejar atividades familiares i tempo todo ou tentar estabelecer diálogos complexos e profundos. Às vezes, o que faz bem é simplesmente estar na mesma sala, fazendo suas coisas, dobrando roupa, lendo, trabalhando enquanto o adolescente faz o dever de casa ou assiste TV. A presença física cria uma atmosfera silenciosa de cuidado e segurança, ainda que não haja diálogo constante.

Nem todo mundo pode estar em casa, o tempo todo, claro. E isso não significa que seu filho vai sofrer, que não vai se desenvolver, que vai ter prejuízos sociais e emocionais por isso. Não precisa ser perfeito. Você não precisa saber tudo que se passa na cabeça do seu filho ou forçar momentos de conexão emocional intensa. O simples fato de estar por perto, naturalmente, conforme for possível, sem pressão, sem cobranças, já faz diferença. Seja no café da manhã, no jantar, depois na carona da escola, aos finais de semana. O ponto é lembrar que você continua sendo importante na vida do seu filho.

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