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Os cuidados na primeira infância e a formação do cérebro
Por: Redação
Pâmela Billig Mello-Carpes é uma das vencedoras da 12ª edição do programa Para Mulheres na Ciência, uma parceria da L’Oréal, Unesco e Academia Brasileira da Ciência (ABC), que já reconheceu mais de 70 cientistas brasileiras desde 2006. Pâmela é pesquisadora da Universidade Federal do Pampa, campus Uruguaiana, estuda como o cuidado parental ou como a falta dele influencia na capacidade de aprendizagem e formação de memórias. “É um conhecimento fundamental para entender o impacto das relações familiares que vemos hoje na sociedade”, ressalta.
Observou-se que quando o indivíduo é submetido ao que se chama de deprivação maternal – negligência de cuidados nas primeiras fases de vida – ele pode apresentar alguns distúrbios cerebrais na fase adulta. A cientista junto com seu grupo de pesquisa constatou os seguintes sintomas: redução da neuroplasticidade (capacidade que o sistema nervoso saudável tem de adaptar sua estrutura funcional de acordo com as experiências que o sujeito passa), maior estresse oxidativo (desequilíbrio entre a produção de compostos oxidantes e a atuação de substâncias antioxidantes) e déficit cognitivo (dificuldade de aprendizagem e memória).
A cientista busca entender por que os impactos se apresentam a longo prazo e investiga ações que possam prevenir os danos cerebrais nos indivíduos que passam pela privação de cuidados parentais. Além disso, procura terapias que possam tratar as pessoas que apresentam essa condição na vida adulta. Uma das hipóteses levantadas pelo grupo de pesquisa é que a ingestão de alimentos com propriedades antioxidantes também possa atuar como estratégia de neuroproteção. Em um dos experimentos, foi observado que o consumo de chá verde é capaz de proteger o cérebro contra o estresse oxidativo causado por isquemia cerebral, hemorragia cerebral e doença de Alzheimer. Os cientistas tentam, agora, associar esse tratamento à deprivação maternal.
Outra possibilidade para estimular a neuroproteção é por meio do enriquecimento ambiental que, segundo Pâmela, consiste na criação de um ambiente que estimule a criança em atividades de desenvolvimento cognitivo em caso de ausência dos pais. A pesquisa em laboratório ajuda a identificar como essa falta de cuidado nos primeiros anos de vida influencia a formação do cérebro humano. Outros estudos, no entanto, precisam ser evidenciados até chegar a uma conclusão. “O que fazemos aqui é ciência básica. Procuramos pistas do que pode funcionar também em humanos, mas, antes de saber se realmente funciona, precisamos de outros testes”, explica a cientista.
Para a pesquisadora, a láurea do programa tem um significado que vai além do incentivo financeiro: a promoção da participação de mulheres na Ciência. “Alguém leu meu trabalho e acreditou nele! É o reconhecimento à participação feminina na ciência – uma ciência que, desde sempre, tem muito mais rostos masculinos, não porque as mulheres não fazem ciência, mas sim porque não são acreditadas, apoiadas, reconhecidas. O prêmio reconhece essas mulheres”, celebra.
Hoje, Pâmela se sente como uma representante de tantas mulheres espalhadas pelo Brasil que se dedicam ao conhecimento científico e buscam espaço para se consolidarem na carreira. “Assumo esse compromisso com imensa felicidade, pois acredito nele!”. Nesse longo caminho, as cientistas enfrentam desafios dentro e fora do ambiente acadêmico e precisam lidar com o preconceito cotidiano para mostrarem que o lugar delas pode ser, sim, no laboratório ou onde quiserem.
Canguru News
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