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“Não quero ter filho, quero viajar”, deixa eu te contar uma coisa
Toda vez que estou em um grupo de mulheres mais jovens e o assunto “filhos” aparece, alguém solta essa frase com a naturalidade de quem pede água com gás: “Não quero ter filho, quero viajar.” No último domingo, num almoço de família, ela apareceu de novo. Uma mulher disse isso, como quem tem a certeza do próprio roteiro da vida. E eu, quase sempre, entro na conversa com o meu lado mais sincero, não para convencer ninguém de nada, mas para dividir a minha experiência.
Antes de tudo: eu acho absolutamente legítimo não querer ter filhos. Ter filho não pode (nunca!) ser romantizado. É cansaço, é preocupação, é uma vida que nunca mais volta a ser silenciosa. Mesmo quando a gente quer muito, ainda assim é intenso, exigente, bagunçado. Existe, claro, uma parte maravilhosa que faz a gente agradecer todos os dias por ter escolhido esse caminho. Comigo é assim. Mas não dá para fingir que é fácil.
O ponto que sempre me pega não é o “não quero ter filhos”. É o “não quero ter filhos porque quero viajar”. E aí eu sempre penso: será mesmo que uma coisa exclui a outra? Eu sempre tive um instinto de liberdade muito forte em mim. Mas cresci numa família humilde e tive que trabalhar muito desde cedo. A viagem, para mim, durante a infância e a adolescência, era basicamente “viajar” dentro da capital paulista e, no máximo, uma Praia Grande no horizonte. O mundo sempre esteve na minha cabeça, mas não no meu passaporte.

João e eu na nossa primeira viagem no Rio de Janeiro
“Viajar com bebê é mais simples do que parece”
Quando finalmente me formei, casei e senti que tinha, enfim, dinheiro para bancar minhas viagens e “rodinhas nos pés” para conhecer o mundo, eu já estava… com um bebê no colo. E, sinceramente? Nunca passou pela minha cabeça deixar de ir por causa disso. O João, meu filho, que hoje tem 14 anos, fez exatamente o contrário: ele me deixou ainda mais curiosa, ainda mais animada, ainda mais tentada a descobrir o mundo. Porque, de repente, viajar não era só sobre ver lugares. Era sobre mostrar o mundo para alguém.
Com cerca de cinco meses, ainda de licença-maternidade, fizemos uma viagem curtinha para o Rio de Janeiro. Foi a minha primeira vez na cidade. Lembro do calor absurdo. Foi ali que eu entendi que “40 graus no Rio” não é força de expressão. Fizemos o turistão clássico: Cristo, Bondinho, Jardim Botânico, Pão de Açúcar, praia… Minha única adaptação real foi escolher os melhores horários e procurar sombra pelo caminho para garantir que meu bebê estivesse confortável. E, olha… aquilo foi exatamente o que eu precisava para atravessar o puerpério com mais leveza. Só quem é mãe entende o que isso significa.
Um tempo depois, quando o João tinha um ano, eu e meu marido resolvemos fazer um mochilão com ele pela Europa. Por que não? No roteiro, colocamos Londres (um sonho do meu marido), Madri e Valência (para visitar meu cunhado), Itália (porque, né, Roma), além de Lisboa, Porto e Fátima, já que minha sogra viajaria com a gente e tinha o sonho de conhecer.
Com sling e carrinho, fiquei um mês indo de um lado para o outro (avião, ônibus, trem). Saímos do calor da Espanha para o frio de Londres, atravessamos cidades, idiomas e fusos, e (pasmem!) o meu filho não foi impeditivo de absolutamente nada. Pelo contrário. Viajar com bebê, muitas vezes, é mais simples do que parece. Eles são básicos, dormem em qualquer lugar, se adaptam com uma facilidade que a gente, adulto, já perdeu. A nossa maior preocupação era garantir comida, algumas frutas na bolsa e pronto. O resto… era viver.

João e eu no frio de Londres
“Ainda bem que eu fui”
A viagem foi inesquecível. Guardo até hoje cada detalhe com carinho e com aquela sensação boa de “ainda bem que eu fui”. Por isso, quando alguém me diz que não quer ter filhos porque quer viajar, eu penso: tudo bem, não querer ter filhos. Mas talvez valha a pena repensar esse motivo específico. Filhos não precisam ser o fim da sua vida em movimento. Eles podem ser o começo de um outro jeito de ver o mundo. Um jeito mais curioso, mais lento às vezes, mais atento aos detalhes e, paradoxalmente, muito melhor.
Até hoje, 14 anos depois, eu quase não viajo sem o João (a não ser quando é a trabalho e não posso levar mesmo). Porque a experiência é diferente. A viagem é melhor. É mais divertida. É mais viva. É mais cheia de descobertas pequenas que a gente, sozinha, provavelmente ignoraria.
Viajar com filhos faz a gente reaprender o olhar. A se encantar pelos pequenos detalhes. A se surpreender com o óbvio. E talvez a maior riqueza de viagens com crianças seja exatamente essa: ver o mundo como se fosse a primeira vez. Então, se você não quer ter filhos, está tudo certo. Mesmo. Mas, se você quer viajar… saiba que dá, sim, para fazer as duas coisas. E, muitas vezes, dá até para fazer melhor.
Renata Menezes
É jornalista, entusiasta da maternidade e vive a intensidade (e as descobertas!) de ser mãe de um adolescente! Quando não está escrevendo aqui na Canguru News ou viajando com a família, você a encontrará nas quadras, recarregando as energias com suas amigas no time de handebol Master EG. Para ela, a maternidade é uma viagem constante — e ela adora compartilhar cada parada desse roteiro com nossas leitoras
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