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“Não brinco o suficiente com meus filhos” e por que essa frase dói tanto (e não deveria)
A autocrítica é quase uma segunda língua para muitas mães. Ela aparece nas frases internas que ninguém ouve, mas que ficam ecoando o dia inteiro: “Eu deveria ter mais paciência”, “Por que não preparei nada mais saudável hoje?”, “Deixei as crianças nas telas”, “Falei alto demais”, “Não brinco com meus filhos o suficiente”. Você se reconheceu em alguma delas? Ou quem sabe em todas?
Se sim, saiba que não está sozinha. Segundo o pediatra e psicanalista britânico Donald Winnicott, referência mundial em desenvolvimento infantil, a culpa materna nasce do choque entre a mãe idealizada e a mãe real, essa última, humana e imperfeita, mas “suficientemente boa” para o bebê. Seu filho não precisa de uma mãe perfeita. Existe um abismo entre o que as mães conseguem fazer e o que acreditam que deveriam fazer para serem as mães ideais. Vivemos em uma cultura que exige demais e oferece pouco suporte às famílias. Portanto, é impossível não se sentir insuficiente em algum momento.
A professora e escritora estadunidense Brené Brown, responsável por uma das palestras do TED Talk mais viralizadas da história, costuma dizer que a autocrítica excessiva, um comportamento visto com frequência nas mães, está profundamente ligada a esse medo de não ser suficiente. Essa sensação é amplificada quando temos filhos porque, culturalmente, o amor de mãe é tratado como algo ilimitado e, por consequência, a disponibilidade materna também deveria ser. Mas não deveria. E não é.
A mãe acredita que ela é o problema, não o comportamento, não o cansaço, não a falta de rede de apoio, não as pressões externas, não o desequilíbrio na divisão de tarefas entre gêneros, não o contexto. A vergonha é paralisante. “É difícil criar filhos a partir de um lugar de medo constante de não ser boa o bastante”, afirma a pesquisadora.
Não se trata de abrir mão de querer melhorar, aprimorar seus conhecimentos, aprender com a vida e com as crianças todos os dias. Não é “passar pano” para comportamentos que queremos ou precisamos mudar. Mas é preciso trocar um pouco de autocrítica por autocompaixão, reconhecendo que somos humanas, que erramos, que ficamos cansadas, que temos limites, que as crianças assistiram um pouco de desenho enquanto você dava conta de preparar as lancheiras para não atrasar, que eles pegaram no sono durante o trajeto de carro e dormiram sem tomar banho, que você perdeu a paciência e usou um tom de voz mais alto, em uma situação estressante. “Somos seres imperfeitos tentando fazer o melhor possível”, diz Brown.
Na prática, reduzir a autocrítica pode começar com pequenos gestos:
- Substitua o julgamento interno por curiosidade
Em vez de “sou uma mãe horrível por ter gritado”, tente:
“O que meu corpo estava precisando quando perdi a paciência?”
- Trate-se como trataria uma amiga querida
Você diria a ela: “você estragou tudo”?
Ou diria: “foi um dia difícil, e você está exausta”?
- Normalize o erro na rotina
Mães não são roteiros perfeitos de criação.
São seres humanos tendo dias bons, médios e ruins.
- Entenda que culpa não leva a nada
A culpa pode até sinalizar que fizemos algo que fugiu dos nossos valores ou dos nossos ideais. Isso serve para refletir e pensar em formas de fazer melhor. Ficar remoendo a situação e tentando punir a nós mesmas, não.
- Seja “boa o suficiente”
A “mãe perfeita” das redes sociais não existe. A “mãe suficientemente boa” é a que oferece amor, presença e pede desculpas quando necessário. É a que mostra para os filhos, por meio do próprio exemplo, que está tudo bem errar e que é assim que a gente aprende – e tenta de novo.
No fundo, reduzir a autocrítica é abrir espaço para enxergar tudo o que já está dando certo, em vez de focar só nos erros e nos defeitos. Além disso, quando a mãe se enxerga com mais gentileza, toda a família respira com mais leveza também.
Canguru News
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