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Mulheres que perdem o bebê vivem situação desumana em hospitais
Por Bebel Soares

Estamos vivendo dias de extremismo e de indignação seletiva. As pessoas reclamam de alguns males da nossa sociedade e ignoram outros por puro interesse pessoal. Segundo pesquisa do Datafolha, 57% dos brasileiros acreditam que a mulher deva ser punida e ir para a cadeia por fazer um aborto. Mas ninguém menciona o pai nessas situações, e, que eu saiba, ainda é necessário que um espermatozoide chegue ao óvulo para que uma gravidez aconteça.
Quando a mulher escolhe fazer um aborto, ela está matando uma pessoa – esse é o grande argumento. O contraditório disso é que, quando a mulher fica grávida e, por algum motivo, o bebê morre durante a gestação, aquele feto é tratado como “material a ser descartado”, e a mãe que perdeu o bebê não tem direito de viver o luto.
Muitas mães/gestantes vão ao hospital para fazer o parto de um bebê sem vida ou uma curetagem e ficam na mesma área onde outras mulheres estão dando à luz. Dois momentos tão diferentes, o contraste entre a vida de um e a morte do outro. O encontro da alegria com a tristeza.
Não é justo que as mães que estão perdendo seus bebês passem por isso ao lado das que estão tendo os seus filhos, que fiquem internadas ouvindo o choro dos recém-nascidos, que seus bebês sejam tratados como “material”. Elas passam por um momento muito delicado e merecem, tanto quanto qualquer mulher, um atendimento humanizado. O que acontece na maioria dos hospitais do país hoje é desumano.
A mãe que perdeu consome-se na sua dor, a mãe que está com o bebê incomoda-se por não saber como acolher. Muitas vezes, além de terem perdido o filho, elas também são impedidas de ter um acompanhante ao seu lado e têm que ficar ouvindo os sons dos recém- nascidos com suas mães. Uma feliz, não querendo transparecer a alegria para não aumentar a tristeza da outra. E a que perdeu querendo sumir do lugar onde vê as outras com seus bebês nos braços e felizes. Independentemente da idade gestacional, a mãe que perdeu o bebê precisa ser acolhida, se despedir e vivenciar o luto.
Bebel Soares é fundadora da plataforma de apoio a mães Padecendo no Paraíso. Na Canguru ela fala sobre educação, saúde, alimentação, sexo, inclusão e viagens.
Canguru News
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