“Epidemia de micropênis” em crianças? A “novidade da vez” nas redes sociais preocupa especialistas

Conteúdos virais fazem pais acreditarem que a condição é comum e incentivam tratamentos hormonais inadequados. Médicos alertam para riscos e reforçam que o diagnóstico é raro e complexo
Cuidado com o que você ouve sobre micropênis Foto: Freepik

Às vezes, basta abrir as redes sociais para surgir uma nova preocupação. Nos últimos meses, vídeos passaram a falar sobre uma suposta “epidemia de micropênis” em meninos, em muitos casos, sugerindo o uso precoce de testosterona como solução. Alguns desses conteúdos chegaram a centenas de milhares de compartilhamentos e despertaram dúvidas entre pais e responsáveis. Especialistas, porém, alertam: a condição é rara e esse tipo de informação pode gerar ansiedade desnecessária — e até levar a tratamentos inadequados e perigosos.

A desinformação começa pela própria definição do problema. “Micropênis é um diagnóstico médico objetivo, não uma impressão visual”, explica o urologista Leonardo Borges, do Hospital Israelita Einstein. A condição afeta uma parcela mínima da população — cerca de 0,06% dos meninos — e só pode ser confirmada por meio de uma medição padronizada do comprimento peniano esticado, comparada a curvas de referência para idade e estágio puberal. “Não basta parecer pequeno. É preciso medir corretamente e interpretar no contexto clínico”, afirma o médico.

Outro ponto importante é que o crescimento do pênis não ocorre de forma contínua. O desenvolvimento é mais intenso em três momentos: durante a gestação, nos primeiros meses de vida e novamente na puberdade, geralmente a partir dos 12 ou 13 anos. Por isso, avaliar a criança em apenas um momento pode levar a conclusões equivocadas.

Na prática, muitos meninos levados ao consultório por suspeita de “pênis pequeno” não apresentam micropênis verdadeiro. Em vários casos, há apenas variações anatômicas normais ou situações que causam falsa impressão, como o pênis oculto pela gordura suprapúbica, algo mais comum em crianças com sobrepeso ou obesidade.

Um levantamento da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU) avaliou 99 meninos durante atendimentos de um mutirão e mostrou que, embora cerca de 24% dos pais acreditassem que o tamanho estava abaixo da média, nenhuma das crianças examinadas apresentava micropênis. Além disso, os responsáveis subestimavam o comprimento peniano em cerca de 2,5 a 3 centímetros.

Segundo a urologista pediátrica Veridiana Andrioli, coordenadora do departamento de Urologia Pediátrica da SBU, existem variações anatômicas que podem dar a impressão de encurtamento, como o pênis “enterrado”, o pênis em faixa ventral e o chamado “pênis preso”, que pode ocorrer após cicatrização excessiva. “Na maioria das vezes, uma breve explicação sobre o desenvolvimento dos caracteres sexuais secundários traz tranquilidade a todos”, afirma.

Os especialistas também alertam para outra informação que circula nas redes: a ideia de que haveria uma “epidemia” causada por fatores ambientais, como microplásticos. Segundo médicos, essas afirmações não têm respaldo científico. Escalas de tamanho peniano vêm sendo publicadas há mais de 80 anos e mostram que as medidas permanecem estáveis ao longo do tempo.

Uso de testosterona exige cuidado

Com a viralização do tema, alguns conteúdos passaram a indicar o uso de testosterona sem critérios para crianças. O hormônio, porém, só deve ser utilizado quando há diagnóstico confirmado de micropênis ou deficiência hormonal, sempre após avaliação especializada. O uso inadequado pode trazer riscos, como alterações precoces da puberdade, impacto no crescimento e interferência no eixo hormonal.

Motivadas pela circulação desses conteúdos, sociedades médicas emitiram uma nota conjunta alertando para diagnósticos falsos e para a venda indevida de hormônios. A endocrinologista Lorena Lima Amato, membro da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia Regional São Paulo (SBEM-SP), explica que o micropênis é uma condição rara e de diagnóstico complexo. “Requer avaliação minuciosa por equipe multidisciplinar de especialistas, envolvendo pediatras, urologistas, cirurgiões pediátricos, endocrinologistas pediátricos e geneticistas. Esse diagnóstico não pode ser definido por uma medida isolada do pênis com régua ou fita métrica”, afirma a médica.

Segundo a especialista, a investigação inclui exame físico adequado, análise do histórico de saúde da criança, avaliação do desenvolvimento puberal e, quando indicado, exames laboratoriais e genéticos. “O uso de hormônios na infância é um assunto muito sério e se restringe a casos específicos, após investigação profunda. O uso indiscriminado ou sem indicações precisas pode causar danos graves e, muitas vezes, irreversíveis à saúde da criança”, alerta Lorena.

Por isso, a recomendação, em caso de dúvida, é procurar um pediatra, urologista ou endocrinologista pediátrico e evitar confiar em conteúdos virais. “Dizer que todo micropênis precisa ser tratado com testosterona é simplificar demais um tema que exige precisão diagnóstica. A medicina séria não trabalha com mensagens prontas para redes sociais, muito menos quando se trata de crianças”, conclui Leonardo Borges.

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