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Cuidando dos pais e dos filhos ao mesmo tempo. O esgotamento silencioso das mulheres da Geração Sanduíche
A vida das mulheres mudou muito nas últimas décadas. Com o aumento da nossa presença no mercado de trabalho, passou a ser cada vez mais comum priorizar a carreira e postergar a maternidade, para depois dos 35 ou 40 anos. Só que tem um detalhe: ao deixar para engravidar mais tarde, acabamos sobrepondo funções. Os pais também envelheceram e os cuidados com os filhos pequenos se somaram à necessidade de cuidados com os pais idosos.
Esse fenômeno ficou tão evidente, que ganhou até nome. Ficou conhecido como “geração sanduíche”. A expressão passou a ser usada por pesquisadores para descrever adultos que ficam “espremidos” entre duas frentes de cuidado: a geração mais jovem e a mais velha da família.
O Brasil está envelhecendo
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que o país está passando por uma transição demográfica em alta velocidade. Em 1980, a população brasileira tinha apenas cerca de 4% de pessoas com 65 anos ou mais. Em 2022, essa parcela já ultrapassava 10%. A tendência é de que essa fatia continue crescendo nas próximas décadas.
Ao mesmo tempo, os brasileiros vivem mais. A expectativa de vida ao nascer chegou a 75,5 anos, segundo o IBGE, e, felizmente, aumenta à medida que avançam as condições de saúde e acesso a tratamentos. Esse cenário significa que muitas famílias convivem por mais tempo com três gerações vivas: avós, pais e filhos.
Maternidade não é mais prioridade
O momento escolhido para ter filhos também passou por mudanças. Dados do IBGE mostram que a idade média da mulher ao ter filhos vem aumentando no Brasil, especialmente entre as que têm maior escolaridade e inserção no mercado de trabalho. Nos últimos anos, aumentou o número de partos de mulheres com 35 anos ou mais. Em algumas capitais brasileiras, esse grupo já representa uma parcela importante nos nascimentos, o que, na prática, isso significa que uma mulher pode estar na casa dos 40 anos com filhos ainda pequenos. É justamente o momento em que os pais dela também entram na faixa etária em que podem começar a surgir doenças crônicas ou limitações funcionais.
Quem cuida? Na maioria das vezes, as mulheres
Repare que aqui no texto, falamos de mulheres. Elas entram no mercado de trabalho, têm filhos mais tarde (em comparação a gerações anteriores), elas se preocupam com os pais. O gênero utilizado aqui não é uma escolha e sim uma realidade. Pesquisas demográficas brasileiras mostram que a maior parte desse cuidado continua recaindo sobre as mulheres.
Um estudo sobre a geração sanduíche no Brasil, baseado em dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), identificou que são as mulheres as principais responsáveis pelo suporte familiar intergeracional, tanto no cuidado com as crianças quanto no apoio aos idosos.
O levantamento aponta que muitas delas assumem tarefas como:
- Acompanhar consultas médicas dos pais
- Ajudar em atividades do dia a dia
- Oferecer suporte financeiro
- Cuidar da rotina dos filhos ao mesmo tempo.
Em alguns casos, esse cuidado envolve a convivência na mesma casa. Dados da PNAD mostram que uma parcela significativa dos idosos brasileiros vive com filhos adultos, o que torna as relações de cuidado ainda mais intensas e estressantes dentro da família.
Impactos no trabalho e na vida pessoal
Pesquisadores brasileiros também destacam que essa sobreposição de responsabilidades pode afetar diferentes aspectos da vida. Entre os impactos mais estudados estão a redução da participação no mercado de trabalho, especialmente entre mulheres de meia-idade, a sobrecarga física e emocional associada ao cuidado contínuo e a dificuldade para conciliar carreira, maternidade e responsabilidades familiares. Em alguns casos, mulheres que estão no auge da carreira acabam precisando reduzir jornada ou até deixar o trabalho temporariamente para cuidar de familiares.
Um fenômeno que tende a crescer
Especialistas em demografia indicam que a geração sanduíche deve se tornar cada vez mais comum no Brasil. Como as famílias passaram a ter menos filhos, são menos irmãos para dividir responsabilidades e pais vivendo por mais décadas. A carga de cuidado tende a se concentrar em menos pessoas, frequentemente mulheres.
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Renata Menezes
É jornalista, entusiasta da maternidade e vive a intensidade (e as descobertas!) de ser mãe de um adolescente! Quando não está escrevendo aqui na Canguru News ou viajando com a família, você a encontrará nas quadras, recarregando as energias com suas amigas no time de handebol Master EG. Para ela, a maternidade é uma viagem constante — e ela adora compartilhar cada parada desse roteiro com nossas leitoras
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